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quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Vida em apartamento - Bruno Coriolano

Bem, tudo começa assim: Eu acordo com o toque do meu despertador, aquela criatura cruel e aterrorizante. Depois de algum tempo tentando convencer meu corpo de que não dá mais para esperar cinco minutos, levanto-me e começo a ensaiar minhas primeiras investidas embaixo do chuveiro. 

Aí meu interfone toca com o primeiro vizinho já de mau humor tentando procurar um culpado para as mazelas de sua vida. Pergunta se o carro que está “tampando” o dele é o meu; prontamente respondo que não e ele se dá por satisfeito e começa a fazer a mesma coisa com os outros moradores.

É assim todos os dias, mas às vezes se torna mais interessante mesmo sendo uma situação desconfortável. Algumas noites, você chega a casa e não encontra local para estacionar seu veículo no condomínio em que mora, aquele local onde todo dia surge uma nova figura desavisada e chega estacionando em qualquer lugar sem nem perguntar se já tem dono. 

Existe cada figura! Só pra você ter uma ideia, tem o sonhador, estilo “Dom Quixote”, aquele cara que vai resolver os problemas do mundo, mas logo na primeira dificuldade se toca de que não vai obter sucesso, vai ser chamado de maluco e logo ele se toca de que acabou de se mudar e não vai pegar bem chegar reclamando de tudo. Depois de algum tempo, ele percebe que não existem moinhos gigantes para combater. 

Tem o “Don Juan de Marco”, aquele cara que bate na sua porta às quatro horas da madruga, primeiro perguntando se o carro é seu e depois exigindo que tire imediatamente do meio, pois ele precisa voltar pra casa porque sua mulher deve estar acordada ainda se perguntando a razão dele, o marido, ainda não ter chegado. Obviamente, no meio do caminho ele já vai pensando em uma desculpa. Pois é, pode ser que seu marido esteja dormindo ao lado do meu apartamento e de formicação com minha vizinha barulhenta.

Nesses condomínios você encontra de tudo. Tem até as figuras mitológicas. Tem o todo poderoso “Hercules”, aquele que diz que vai tirar o carro do meio sozinho e com as próprias mãos. Parece-me tarefa difícil, pois diferente dos doze trabalhos, esse conta com o carro desligado, travado e na primeira marcha. Realmente essa parece ser uma tarefa bem difícil. Essa, nem Zeus!

Não é tão difícil dá de cara com um “Sherlock Holmes”, aquele sujeito que te olha de cima a baixo e fica com a mão no queixo perguntando tudo sobre sua vida, julgando-se seu amigo de longa data. Já pensou que sujeito chato? Se toca, cara!

Mesmo vivendo situações onde tudo parece ser embaraçoso e perturbador, temos que tirar proveito delas às vezes. Outro dia quando cheguei ao meu apartamento, a vizinha do sete, estava toda rocha e suada porque tinha passado a noite digladiando contra o próprio filho adolescente bêbado (talvez mais doidão do que simplesmente bêbado), que já tinha revelado todos os segredos da mãe pro resto do prédio inteiro e dos outros da vizinhança também. Até o pessoal da casa da frente, o povo que faz macumba, já ouvira coisas que davam mais medo do que aqueles gritos que se ouve quando esfolam a falinha, oferenda constante. Desde aquele dia pra cá, ela me cumprimenta sempre fitando o chão. Pobre criatura, todos nós pensávamos que ela saia para ir à igreja. Vixi, cachaça santa. Verdadeiro líquido revelador. 

Pois é, viver em grupo tem dessas coisas e não tem como fugir. Você acaba conhecendo todo mundo e tendo de encarar todas essas pedreiras. Queria eu ser rico para poder comprar uma casa no meio do nada e morar isolado desse povo. Talvez eu tivesse um pouco de paz. Mas pensando bem, acho que iria sentir falta dessas figuras. Na verdade, meu medo é me deparar com alguns Rambos, He-man, She-há, os Smurfs e Gargamel e descobrir que os vizinhos atuais são mais divertidos e geram estória mais engraçadas. 

Por Bruno Coriolano de Almeida Costa

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