A folha da juventude...


Sou de antigamente, meu Anjo. Sou de um tempo quando a educação se processava assim: em casa, na igreja, na escola e... na rua.
Menino, fui como os demais... 
A rua se mostrava o espaço ideal para as brincadeiras e traquinagens: brincávamos de bilinha (já grande é que vim descobrir que eram bolas de gude!), jogávamos castanhas, éramos donos de fazendas enormes cheinhas de bois, vacas, bezerros, cavalos... tudo ossos bem roídos da mesa de casa; colecionávamos e brincávamos de “virar” figurinhas, soltávamos papagaio (pipas!), andávamos a cidade inteira com a roladeira feita de lata vazia de leite, ou com um pneu, ou com uma roda de ferro, ou com um caminhão de latas de óleo, ou com uma lambreta a deslizar barulhenta pela calçada da Igreja Matriz, que era, a lambreta, construída a partir de rolamentos que ganhávamos nas oficinas mecânicas.  
Os filmes de Zorro, capa e espada, eram fontes de inspiração para que transformássemos os restos de serragem da serraria de “seu” Altino ou as cascas do arroz da usina de beneficiamento, em montanhas perfeitas para as guerras de “morreu, não morri” e de luta de espada. Aliás, “seu” Altino Dias era o rei absoluto e dono de tudo que sempre almejávamos, pois além de ser o dono do Cine Odeon, com seus altos falantes que faziam ecoar pela imensidão solitária do Vale do Apodi o nome do filme do dia e algumas canções na voz inconfundível de Agnaldo Timóteo: “Se eu demoro mais aqui, /eu vou morrer. //Sei que é bom, /mas eu não vivo sem você” era dono também de uma boate, com a estonteante luz negra, que era uma promessa para quando deixássemos de usar calças curtas. Seu Altino era artista, conforme constava em sua certidão de casamento no Cartório de minha Tia Maria. E tal fato me deixava deveras fascinado.
Na casa da minha avó Sebastiana – ela branca, branquinha, com seus olhos verdes/azuis de “Além-mar” e ele, o meu avô Raimundo do Vale, preto, pretinho, com seu porte das terras que o “Além-mar” possuía além do Cabo das Tormentas, onde morava o gigante Adamastor – havia um quintal com um majestoso pé de cajarana e que era o maior e mais doce quintal do mundo e cenário perfeito para as imitações de Tarzan em cipós, em balanços... No quintal da casa dos meus avós adquiri as minhas primeiras cicatrizes!
“Muito tempo, pois sim, para brincadeiras”, diria o menino pós-moderno, diante da tela de LCD de seu PC ou notebook ou de ouvidos totalmente “tomados” pelo som dissonante, vindo de um i-pod última geração, também já irritado pelas tantas tarefas e sentindo, ainda em botão, o seu tempo ser engolido pelo tempo.
Na realidade, era o mesmo tempo que se tem hoje, se não houvesse tantas parafernálias eletrônicas paradoxalmente nos isolando do mundo lá fora, que era tão cheinho de lua e estrela e sol e lagoa e rio e ponte e ruas e mais ruas de areia grossa e capaz de entortar perna fina de moça rica. “Ai que estou ficando de pernas tortas, desta areia maldita!”, queixava-se. E a gente ria ria ria porque Irene ainda não havia encontrado motivos para chorar. Só reclames! Esse tempo, o das brincadeiras de rua e também dos banhos de lagoa e rio – motivo para muitas surras de cipó, caso algum fuxiquento avisasse ao meu pai (geralmente um menino que a mãe não havia deixado sair de casa naquela manhã ou tarde) –, não era um tempo ganho assim do nada, não. Era um tempo que sobrava pela agilidade na resolução dos deveres de casa: tarefa resolvida, tempo para viver a rua que ainda não era possuidora dos perigos de agora. “Pra que tanta pedra, meu Deus! pergunta o meu coração. E os meus olhos se compadecem do que vê. Crack.” Naquele tempo, quando eu era menino de calças curtas, os valores da família ganhavam facilmente dos valores da rua. Na praça, somente os valores de casa. Modos que deixavam minha mãe cheia de orgulho, pois as mães, antigamente, mais do que qualquer outra pessoa, eram as responsáveis pelos ensinamentos dos bons costumes.
As tarefas? Ah, sim, as agradáveis tarefas! De caligrafia, de aritmética, questionário de conhecimentos gerais... Inicialmente, antes de frequentar os bancos escolares do Grupo Escolar “Ferreira Pinto” e ser aluno de dona Socorro, mãe de Edjalson (minha Madrinha querida!), dona Raimunda Lopes, dona Sula Guerra e dona Ester Noronha, era costume ser desasnado pelas Toinhas da Rua do Campo – a de Tião Lúcio e a de dona Rosinha –, dona Mundá e dona Lindaura, mãe de Raimunda Neide e Rogério. A gente mudava de professora conforme o nível, pois já estávamos nos “desarnando” para a escola do governo. E já nos preparatórios se estudava muito, pois assim ficávamos livres de algumas tarefas mais desagradáveis, como enfrentar a palmatória e a régua, nas aulas de argumento, que sempre aconteciam aos sábados, ou nos apoquentes das professoras, ou os trabalhos no cercado, com a enxada, ajudando o pai na limpa das carreiras de feijão e milho, ou as pesadas obrigações de casa, tipo ir buscar um galão ou roladeira d’água, que eram atividades destinadas para os que não costumavam mostrar interesse pelas tarefas da escola. Lembro-me das muitas linhas que escrevi para adquirir a caligrafia que me acompanha até hoje: “A lua é bela”, “Honra teu pai e tua mãe”, “O Brasil é a minha Pátria”, “Salve o 7 de setembro”. Toda a tabuada na ponta da língua! Contas, muitas contas para somar, dividir, multiplicar e subtrair, quanto mais números na divisão ou multiplicação, maior era o nosso prestigio... Números romanos ou cardinais de 1 a 1000 (Que maldade! Sorri saudoso o meu coração, enquanto uma alegria imensurável desmancha um possível coágulo).
Domingo? Ah, os domingos eram realmente de festas dominicais. Meninos e meninas: missa, na igreja católica, ou escola dominical, na igreja dos crentes, que era como se dizia naquela época, conforme a religião de casa. E se estávamos em preparatórios para a primeira eucaristia, pode apostar que a tarde inteira seria no aprendizado das leis da igreja ou catecismo. Depois... “ciranda, cirandinha vamos todos cirandar” no patamar da Igreja, numa roda imensa, até que as luzes da cidade acendessem e o mundo se dividisse entre crianças que dormem e adultos que assumem as calçadas até que o dia fosse nosso outra vez. Nos dias de antigamente, quase não se viam crianças nas ruas, após o jantar. E ainda sem a televisão, as mães se transformavam em contadoras de estória de trancoso, até que as pestanas se fechassem de tão pesadas... “Era uma vez um rei e uma rainha...” 
Claro que agora os meus dias de antes me chegam filtrados e as dores, certas dores, foram, por enquanto, deixadas de lado. Mas o certo é que naqueles dias os valores da rua ainda não haviam superados os valores da família, da escola e da igreja.
Naqueles dias, educar-se era promessa para um caminhar seguro pelos caminhos da vida. E creio, ainda, que é preciso continuar sendo assim.


*Aluísio Barros de Oliveira é poeta e professor de literatura brasileira na UERN/Faculdade de Letras e Artes.