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segunda-feira, 28 de julho de 2014

O homem de três corações - José Leite

Por volta de 1920, era telegrafista no Apodi, um cidadão que se chamava NEWTON ARMOND e que tinha vindo parar na terra, movido por uma violenta perseguição de caráter político. 
O home de que falo, segundo constava, era originário de uma família mineira de Três Corações, tinha educação esmerada, fino trato e ótima aparência. Ele, realmente, confirmava o fato de ser o homem de Três Corações. Era humanitário e o seu coração valia por três deles. 

Por essa época, o meu pai, Lino Ferreira Leite, acabava de adquirir uma casa na antiga rua Cleto Campelo e que ao tempo ainda não possuía denominação, encontrando-se assoberbado com sérias dificuldades de caráter econômico. 

A estação telegráfica se localizava ali na grande e velha casa que foi depois residência de Cotó de Lúcio, por muitos anos. 
À tardinha o NEWTON ARMOND sempre permanecia naquele calçadão alto da estação, dali observando tudo o que se passava ao redor e na entrada do beco que segue em busca da estrada do Córrego das Missões. 

Todos os diais, invariavelmente, eu muito mal vestido, passava ali, pelas cindo horas da tarde, conduzindo três ou quatro jumentos para o peieiro que adotávamos nas Vertentes de Antonio Lima e ele, o NEWTON, cansado de observar a minha pobreza e o meu trabalho de menino sofrido, abriu o seu coração numa certeza tarde e, chamou-me para conversar, tratando-me por “meu filho”. 
Ansioso e apalermado, atendi ao chamamento e subi o calçadão, para ouvi-lo. O NEWTON, pondo uma cadeira de palhinha(uma Gerdau?), mandou que eu me sentasse e, de pronto, perguntou-me: “Meu menino”, você só possui esta roupinha? Eu lhe respondi que possuía três mudas de roupa, incluindo a da escola. Ele então, meteu a mão no bolso, tirou uma nota de vinte mil réis(20$000) e solenemente acrescentou: “Meu filho, tome este dinheiro e diga à sua mãezinha para comprar uma roupa nova para você”. 
Agradecendo tão valiosa dádiva, eu sai dali aos pulos, para chegar logo em casa e dar a boa notícia à minha mãezinha. 

Não é preciso dizer que o dinheiro foi suficiente para vestir quase toda a família, uma vez que, naquele tempo, o preço de uma vara (2,20 metros) de algodãozinho ou de mandapuião, variava entre quatro a seis tostões, chita e brim ordinário eram vendidos a metro, variando o preço entre seis tostões a mil réis por unidade. 

Agora, em 1983, mais de meio século depois, eu venho dizer: “Obrigado, meu Deus; obrigado, NEWTON ARMOND, home de Três Corações. 

Brasília/DF, 4 de março de 1983

Fonte: Flagrantes das Várzeas do Apodi - José Leite(Separata de Pré-Lançamento).

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