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quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Um menino traquina do Apodi - Por Marcos Pinto

Para que inventei de mexer e remexer o baú de minhas saudades ?. Não mais que de repente me ví menino traquino, que é o referencial nordestinês para se definir menino danado, impulsivo, assassino libidinoso de galinhas cevadas. Me ví menino bocó diante a beleza da primeira professorinha, de face rosada por acentuada camada de "Rouge", espalhando o seu cheiro característico. 

A pequenina cidade acordava sob o auspicioso som da banda de música municipal, irradiando emoções em seus dobrados executados no patamar da Igreja-Matriz de São João Batista e Nossa Sra. da Conceição, lugar preferido para onde me dirigia aos primeiros albores de radiantes manhãs. Deitava-me na calçada e ficava olhando para o alto, em êxtases oníricos. O menino fixava em perene olhar o vôo das andorinhas, que enfeitava os meus sonhos em seus vôos rasantes, rabiscando no azul do céu uma perfeita e exímia sincronia entre nuvens superpostas, enviando-me recados fantásticos dos mistérios circundantes. Impregnavam-se em minha alma infantil um colorido perfeito de projetos inebriantes.
      
Na estação invernosa o menino sonhador assenhoreava-se das biqueiras da venerada Igreja-Matriz, que eram as melhores goteiras da cidade, por onde escoavam abundantes jorros d'água, que no princípio da chuva doíam no cocoruto, mas que à medida que aumentava seu volume diminuía o impacto na pequena cabeleira, cortada no estilo militar.

Como encantavam-me os claros matinais, em seus primeiros albores!. Na mente do menino existia um mundo que terminava logo após a lagoa, entre os verdes carnaubais dos sítios "Garapa" e "Vertentes". Minha alma translúcida deslizava mansamente sobre o límpido espelho d'água da Mãe-Lagoa, ornada pelo verde exuberante de suas margens. E os sonhos do menino pegavam carona nas canoas dos pescadores, acompanhando o risco n'água deixado pelo trajeto das humildes embarcações sertanejas. 

As famosas conversas noturnas alinhavadas na calçada da casa de Sêo Lulu Curinga abordavam histórias malassombradas, que causavam frio na coluna e arrepios no curioso infante. O silente menino absorvia os lances interessantes das histórias de Trancoso e de Camões, que em meu dialeto-matuto pronunciava "Camonge". Ví, muitas vezes a PROCISSÃO DAS ALMAS, nas madrugadas em que o meu saudoso pai me despertava e me levava para o antigo prédio onde funcionava a Agência de Rendas Fiscais do Estado, alí na esquina onde hoje está construído o "Castelinho", do primo Castelo Torres. Eu via, ao longe, alí pela rua Margarida de Freitas, imediações da casa de Celeste Marinho, as supostas almas passarem com algo aceso nas mãos, que meu pai me fazia acreditar serem ossos das pernas acesos e carregados em procissão pelas almas. Depois que crescí e me fiz de gente descobrí que se tratavam dos machantes (Magarefes) Ussí de Sêo João Tito, seu irmão Damião e mais uns dois outros, que se dirigiam à matança (Matadouro público) para abaterem seus caprinos e suínos, para posterior venda no açougue público.

Ouço, nos confins da esquina do tempo que lá se vai, os dobres soturnos dos venerandos e vetustos sinos da nossa amada Igreja-Matriz, quebrando o imenso silêncio da cidadezinha ainda adormecida, na cadência monótona daquelas escalas, onde o tempo era um denominador-comum, distribuído aos pedaços, marcando a marcha do tempo e do ciclo vicioso da vida. Aquele menino tinha a mente pautada pelos mistérios dos sonhos, vivendo o cotidiano das mesmas imagens e dos mesmos sons, sem fazer nada, num viver apático, preguiçoso e inútil. Eu, um menino sambudo, magro feito sibito baleado, afeito às repetitivas brincadeiras e banhos fortuitos e rápidos de menino fugitivo do olhar fiscalizador do pai. Era um viver nostálgico sem fim, de brincadeiras de pião, gaiatices, travessuras e fuxicos. Viver ao meu modo era e sempre será a minha filosofia. E assim vou remexendo os meus arquivos memoriais sempre bolorentos pelo mofo das horas do quase esquecimento. SAUDADES...

Apodi de São João Batista e Nossa Sra. da Conceição, aos 09 dias do mês de Outubro do ano de Jesus Cristo de Dois mil e treze.

Marcos Pinto - Comboieiro da saudade.

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