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sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Poucas e boas do Nêgo Fuxico

A cidade de Apodi é conhecida como sendo reduto de pessoas inteligentes e ao mesmo tempo hilárias, com reconhecida prodigalidade em colocar apelidos em pessoas e lugares. No contexto das imagens cotidianas da cidade e do sítio "Soledade", não há quem não tenha conhecido a folclórica figura do "Nêgo" Fuxico. 

Nunca frequentou uma sala de aula, o que não o impediu de desenvolver uma capacidade de raciocínio rápido, que o livrou de inúmeras situações difíceis de resolver. Era detentor de imaginação fértil em "tiradas espirituais". No tempo em que raros eram os meios de transporte para condução de cargas e passageiros para Mossoró era o conhecido caminhão-Misto do Sr. DERIM LEITE, vez por outra o Fuxico aboletava-se na carroceria, onde atuava como espécie de ajudante-de-caminhão, auxiliando o Derim no processo de carga e descarga, geralmente composta por caprinos, suínos e garajaus de galinha, que eram vendidos na feira dos animais, em Mossoró.

Após a entrega das mercadorias, o Derim estacionava seu caminhão-Misto em frente ao hotel Santa Luzia, no centro da cidade, situado defronte onde hoje está instalada a loja de material elétrico conhecida como "Parque Elétrico", proximidades do Cine Pax, no centro da cidade. Numa dessas viagens, eis que o Fuxico, aproveitando-se da providencial constatação feita pela esposa do dono do hotel, de que ele atuava como ajudante do Derim Leite, resolveu usar dessa prerrogativa para almoçar fartamente, solicitando um apetitoso bolo "Felipe" acompanhado com doce de leite. Após essa comilança, se dirigiu para a dona do hotel, com ares de confiança, fazendo a observação de que na próxima viagem pagaria a despesa, no que teve a concordância da mesma. 

Transcorreu um ano e nada do Nêgo Fuxico aparecer em Mossoró para pagar tal despesa. Astuto, e contando com o longo decurso do tempo, Fuxico resolve ir à Mossoró, como sempre "abancado" na carroceria do Caminhão-Misto de Derim. Contando com o longo tempo como fator de esquecimento da dívida, Fuxico voltou ao hotel "Santa Luzia", onde desceu do caminhão de forma lépida e faceira, com intenção de almoçar, e contrair mais uma dívida. Quando a dona do hotel viu o Nêgo Fuxico, muito bem sentado em uma das mesas, junto a alguns conterrâneos, de longe interpelou-o nos seguintes termos:

- Sim, você é o negro fuxico, que no ano passado me enganou com um almoço e uma merenda! . 

Sem demonstrar nenhuma contrariedade e muito menos aperreio, além de uma inusitada indiferença, eis que o nêgo Fuxico

Saiu-se com essa artimanha/munganga:

- Já sei que foi uma presepada feita pelo meu irmão gêmeo! - para arrematar logo a seguir: 

- Senhora, eu sou Chafurdo! aquele cabra ruim do meu irmão é acostumado a fazer esse tipo de coisa e quem leva culpa sou eu. Bote botar o almoço que eu sou um homem de vergonha. Convencida, a dona do hotel pôs o almoço, confiante de que o dito nêgo Chafurdo iria pagar quando retornasse. E assim o nêgo Fuxico enganou duas vezes a dona do hotel Santa Luzia. Desnecessário dizer que nunca mais ele pôs os pés naquele hotel.

Certo dia do ano de 2008, durante o período da campanha eleitoral para Prefeito, o nêgo Fuxico, que residia no sítio "Soledade", resolveu ir até a cidade, como sempre à pé, sem a preocupação de esperar uma carona. Quando chegou alí pelas imediações da mercearia de Tetéia de Sêo Ademar Caveja, eis que Fuxico viu e ouviu duas mulheres discutindo por causa de política, ressaltando que em uma rádio da cidade só se divulgava mentiras, ocasião em que sapecou:

- Aquela rádio é só de FUXICO!.

Aproveitando a deixa, o nêgo Fuxico não se fez de rogado e com tamanha espirituosidade disparou:

- Vocês ouviram bem, não foi ? Eu agora sou dono de uma "ráida". A turma que presenciou tal cena caiu numa "gaitada" generalizada.

Durante a grande seca do ano de 1970 era costume do nêgo Fuxico descer a serra, vindo dos lados do sítio "Soledade", e passar dentro das terras do Sr. Mário de Freitas, alí pelas bandas do sítio "Córrego", diminuindo a distância para chegar à cidade. Sem nenhum motivo plausível, O Mário de Freitas proibiu o Nêgo Fuxico de passar por dentro de sua fazenda. Como DEUS sempre cria situações que corrigem as injustiças cometidas contra os mais humildes. Não é que, passados poucos dias, o nêgo Fuxico ia passando pelo corredor que passa defronte ao quintal da casa do Sr. Mário de Freitas, quando ouviu o mesmo lhe chamar, para o ajudar a levantar uma vaca que tinha caído de tão magra. Impassível e sem mais delongas, Fuxico respondeu:

- Bote a vaca "praquí" que eu ajudo! - Você não disse que "tou" proibido de pisar em suas terras!. Desconfiado e meio sem jeito, só restou ao Mário engolir à seco a inteligente resposta de Fuxico.

De certo, resta comprovado que o nêgo Fuxico era dado a umas presepadas. Conta-se que, certa feita, o nêgo Fuxico fez umas compras no fiado, em uma bodega, na cidade de Mossoró, tendo passado cerca de 05 anos sem retornar para efetuar o competente pagamento. Sabedor de que o dono da dita bodega tivera uma "trombose" (AVC), tendo ficado sem a capacidade de falar e prostrado em uma rede, resolveu Fuxico fazer nova investida no quesito compras fiado. A bodega tinha um balcão de madeira, e ao lado, um espaço que dava para um corredor da casa, onde o velho se encontrava deitado na rede. Ao ver o Fuxico sendo atendido pela sua esposa, eis que o velho pronuncia uma palavra que não dava pra se entender, ao mesmo tempo em que olhava para Fuxico, esfregando o dedo polegar com o dedo indicador,em um gesto que signficava a pergunta: "Cadê o pagamento daquela compra que você fez?". Intrigada com aquele gesto do marido, a velhinha perguntou ao Fuxico:

- O que é que o meu velho tanto gesticula pra você?.

Sem se "tocar", Fuxico saiu com mais uma de suas tiradas "filosóficas":

- Ele tá dizendo que faz muito tempo que a gente não se via!.

O resultado é que O Fuxico terminou comprando fiado mais uma vez, e novamente terminando por nunca pagar as dívidas. Fuxico é afrodescendente, posto que era neto paterno do ex-escravo Lúcio Agostinho da Silva (avô paterno de Dodora) e neto materno de Joana Silva, filha do ex-escravo Jacó Felício de Oliveira. O nome civil de Fuxico era FRANCISCO DA SILVA, e nasceu em Apodi, a 26 de Junho de 1926 e faleceu no final do ano de 2010.

Marcos Pinto - historiador apodiense
Copiado do Blog Potyline

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