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segunda-feira, 12 de maio de 2014

A saga de uma Tapuia no século XXI - Por Mônica Freitas

Lúcia Maria Tavares - Índia Tapuia-Paiacu

Contar a Saga de uma mulher que se diz Tapuia Paiacu da Nação Kariri neste século XXI, requer compreender os motivos pelos quais a mesma se auto-intitula desta forma. Estamos falando de Lúcia Maria Tavares, mais conhecida como "Lúcia Cará".

Lucia tem se embrenhado na pesquisa histórica, de caráter antropológica a fim de encontrar vestígios, provas e principalmente remanescentes indígenas da Tribo Tapuia-Paiacu da Nação Kariri, que são citados em todos os registros históricos como o povo primitivo que habitava essas terras semiáridas do nosso sertão antes dos portugueses e demais europeus chegarem com a meta de ampliar o território conquistado nas suas chamadas "grandes navegações. 

Segundo Câmara Cascudo, nas primeiras investidas portuguesas, esses índios resistiram à invasão do seu território, dos seus rios, florestas e de toda sua paisagem de caça, pesca e de sobrevivência ocupada pelos colonizadores de origem portuguesa. Luta esta que foi articulada pela confederação dos Cariri, com realização datada em torno do ano de 1670.


Por razão da resistência à invasão europeia, os povos foram também chamados de "bárbaros". Essa denominação não era da apenas aos Tapuias de Poty, Pody ou Apodi, como hoje se conhece, mas de todos os povos habitantes do território do Rio Grande do Norte, que segundo Olavo Medeiros Filho se dividiam em vários grupos nomeados de acordo com a região onde moravam. Existiam assim: os Cariris, os Tarairus, os Canindés. Eram tribos que falavam diversas línguas e eram chefiadas por vários reis, dentre os quais se destaram Janduí e Caracará.


As batalhas travadas entre índios e brancos europeus proporcionou matanças cruéis de Tapuias, perseguições, mortes e episódios tristes que até hoje ainda produzem traumas aos índios da região. Muitos fugiram para outras regiões. Os Tapuias de Apodi fugiram, uma parte para o Ceará e outra se espalhou pelas Serras de Portalegre e Martins, onde até hoje existem muitos vestígios e uma vasta remanescência, embora não reconhecida, uma vez que a saga sangrenta do passado tem se transformado em "trauma", fazendo com que os remanescentes não queiram ser identificados como tal. No próprio município de Apodi existem muitos remanescentes que não se auto-identificam como índios, mesmo que seus traços físicos demonstrem claramente a relação de pertença à etnia indígena. Há algumas pessoas que já se autodeclaram por serem, além de informadas firmes e corajosas em assumirem suas descendências étnicas, outras preferem ficar ainda escondidas, e vê-se claramente o "medo" se levantar mediante os fatos vividos pelos antepassados, como se percebe no relato que é mostrado no vídeo abaixo gravado por Lúcia Tavares e um dos membros do Centro Histórico Cultural Tapuio Paiacu da Lagoa de Apodi.

Clique aqui para ver o vídeo

Em sua busca incansável para reunir fatos, relatos e peças líticas que comprovam a existência da tribo na região, a Tapuia Lúcia Tavares tem conseguido juntar muitos fragmentos de grande relevância para a reconstrução da história do município de Apodi, que como todo registro tradicional brasileiro, pouco valoriza os episódios que têm como personagens principais os nomes indígenas e não os nomes de colonizadores europeus. 

As pesquisas têm demonstrado que há muitas peças líticas espalhadas pelo Vale do Apodi, na Chapada do Apodi e nos municípios que serviram de abrigo para os Tapuios-Paiacus que fugiam das terras apodienses cada vez que eram atacados pelos comandos da colônica europeia. 


Acervo de peças líticas encontradas por Lúcia Tavares

Devido sua pesquisa, em busca de pessoas que a auxiliassem na meta de redescobrir a história de Apodi, Lúcia reuniu amigos, professores, conhecidos e alguns remanescentes tapuias que juntos se tornaram sócio-fundadores do Centro Histórico Cultural dos Tapuios-Paiacus da Lagoa do Apodi (CHCTPLA), entidade hoje legalmente reconhecida como de utilidade pública estadual e municipal. Na sua primeira diretoria, Lúcia Maria Tavares é a Presidente do Centro, a vice-presidência é da da professora Mônica Freitas. Além disso, o nosso centro ainda conta com o auxílio de vários colaboradores, entre os quais destacamos o advogado Marcos Pinto, que também é historiados, o estudante de Turismo Isaac Tárcio, Antonio Praxedes Filho, o Pastor Wellington e tantas outras pessoas que se dispõem a colaborar com esta pesquisa e luta tão importante para o nosso município por ser o fio condutor da nossa reconstrução e preservação cultural.


Presidente e vice-presidente do CHCTPLA e alguns sócio-fundadores 

Até aqui, a saga de Lúcia Tavares continua, neste universo complexo e e capitalista onde o preconceito étnico ainda prevalece contra o índio, tanto que muitos não compreendem os povos indígenas como gente; outros imaginam que os índios de Apodi não existem mais porque foram dizimados pela colônia europeia.

A história real que Lúcia tem encontrado em suas pesquisas é outra: estamos vivos - inclusive eu que também sou descendente tapuia - e mesmo que o sistema queira esconder nossa existência, haveremos de lutar, auxiliando a Tapuia Lúcia em suas buscas e chegando ao legado final de reconstrução da nossa história para podermos obter os nossos direitos, estes que pela distorção da história, foram negados.

Por Mônica Freitas - professora e Vice-presidente do CHCTPLA - Blog Sem - Cem Papas na Língua

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