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quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Subsídios para a história do Sítio Soledade - parte III

As abordagens históricas sobre o notável sítio "Soledade" conduzem, invariavelmente, a um entrelaçamento sentimental e genealógico com as honradas famílias pioneiras daquele rincão - BRUACA e TARGINO. Composta por homens e mulheres que perpetuam no bom sangue a alma sertaneja, sacudida por uma impulsividade ancestral irrefreável, que as asperezas das caatingas da Chapada ainda mais caldearam.


Penso sempre comovido, na chegada desses primeiros BRUACAS e TARGINOS, com suas mulheres e seus filhos, tangendo algumas cabeças de gado pé-duro e outras tantas cabeças de miunças (Bodes e ovelhas), sementes dos rebanhos futuros que tanto contribuíram para a fixação definitiva. Vindos das lonjuras do Limoeiro do Norte e de Aracoiaba, no Ceará, traziam consigo a verdade dos fortes, a fé dos impassíveis, serena,firme, orgulhosa. Homens e mulheres muito parecidos com os soldados do tempo. Chegaram à desabitada "Soledade" em uma bela e estranha noite, em que a lua banhava de luz o "Geral das Macambiras". Noite feita de intenso silêncio, "quebrado" apenas pelas lufadas de ar que enxugavam os rostos suados e visivelmente cansados. Foram noites e dias varando o ermo da inóspita Chapada, com paradas impostas pelo cansaço e pela fome, amenizados pelos "arranchos" sob frondosas aroeiras, onde arriavam os apetrechos e as bruacas. Nestas, enfiavam suas mãos para catarem o farnel, composto por pedaços de carne seca, também conhecida como carne de charque, conservada imersa em farinha caroçuda, onde também se encontrava a indispensável rapadura preta, sobremesa sertaneja que revigora como adoçante no café torrado e moído antes da viagem. As rústicas cabaças conduziam a água, precioso líquido deveras difícil de se encontrar na imensidão das matas. Presos à cintura, traziam suas famosas facas "lambedeiras", seus facões "rabos-de-galo" e suas espingardas conhecidas como "lazarinas" ou "bate-buchas". Caminhavam mascando fumo ou consumindo grossos cigarros, conhecidos como cigarros de palha ou brejeiros, posto que feitos com fumo de rolo vindo do brejo paraibano. Sob sol causticante, suavam em bicas, como se estivessem a pagarem penitência na busca incontida de terras onde pudessem tomar posse e delas retirarem o sustento de suas proles. Particularidades de fatos que nos dão idéia da saga heróica e grandiosa.


Unidos pelo mesmo destino e objetivos, passaram a praticar a endogamia - costume à época de só casarem com parentes, para manterem os bens patrimoniais sempre em família. Primos com primas, tios casando com sobrinhas, dois rapazes casando com duas primas e irmãs entre si. Ao chegarem à "Soledade", traziam consigo a certeza de que experimentariam a empolgância de uma perspectiva toda nova, absolutamente desconhecida. De certeza mesmo, só a de que contariam com o inestimável e importante apoio do Coronel Antonio Ferreira Pinto, que os convidara por ocasião de suas andanças em terras cearenses. O estreito vínculo de amizade entre a família PINTO e os BRUACAS e TARGINOS logo se consolidaria pela compadrio e vizinhança de suas terras - duas colunas soberanas e centenárias. Relações de consideração recíprocas e prestantes no solo e nas almas constituíam os canais competentes do solidarismo agrário, explicando os trabalhos gratuitos das ajudas - o famoso "adjunto", que era o costume sertanejo dos vizinhos marcarem dia para serem realizados serviços agrícolas como construção de cercas, destocamento, plantio e colheita de gêneros de subsistência alimentar, como feijão e milho, bem como na apanha do algodão. Para a mantença alimentar dos que compunham os adjuntos, abatiam-se porcos e bodes, que os alimentavam à contento e à gosto.


Em pesquisas realizadas nas edições fac-similares do jornal "O Mossoroense", do ano de 1872, encontrei referência a uma pessoa que tinha o apelido de BRUACA residindo na Chapada do Apodi. À luz de um assento de óbito contido no livro de óbitos número 02,do Primeiro Cartório Judiciário de Apodi, encontrei, à fls. 43, o assento de óbito de SIMÃO NOGUEIRA DA SILVA, conhecido como Simão Bruaca, natural de Limoeiro do Norte-CE, filho legítimo de Francisco Nogueira da Silva e de Maria Nogueira Maia, também naturais de Limoeiro do Norte. Casou em Apodi com MARIA FRANCISCA DA COSTA,da família Targino, com quem teve grande prole. SIMÃO faleceu no "Olho D'água da Soledade" a 10 de Agosto de 1890, aos 55 anos de idade. Consegui colher os nomes de dois filhos desse venturoso casal: FRANCISCA MONTEIRO DA COSTA SOBRINHA, casada com Manoel da Costa Soares, tendo Francisca falecido no sítio "Soledade" a 09 de Agosto de 1906, aos 38 anos de idade, deixando os filhos FRANCISCA, com 19 anos de idade, e JOANA com 16 anos de idade. O segundo filho de Simão Bruaca tinha o nome civil MANOEL NOGUEIRA DA SILVA, conhecido com Manoel Bruaca, que veio a casar com ANTONIA SEVERIANA DE FREITAS. Manoel faleceu em consequência de um raio atmosférico no sítio "Boca da Mata", quando se encontravam caçando, no dia 24 de Abril de 1928, aos 44 anos de idade, deixando a viúva e os filhos FRANCISCO, ANTONIO, MARIA, ADRIÃO, ANTONIA, PEDRO, PLÁCIDO, JOSÉ, SEBASTIÃO, MARIA JÚLIA, PAULO e LUIZ. (FONTE: Livro de óbitos, Fls. 128 - do Primeiro Cartório Judiciário de Apodi).


O velho ZÉ MENDONÇA, morador do sítio Pé-de-Serra, criou um dos BRUACAS conhecido como Chico Mendonça, que era irmão de Zé Bruaca, Luís e JOÃO BRUACA, que afirmam os mais velhos da família ter sido um dos bravos matadores de onças, as quais acuava nas grutas do lajedo. Todos os BRUACAS mais velhos foram exímios caçadores de onças. À noite, acompanhados de seus cães de caça, tomavam o rastro da onça que havia se enfurnado. Entravam de furna adentro, precedidos de seus cães de confiança. As onças sempre ficavam acuadas sobre um batente de pedra, deitada, espreitando o valente caçador, conservando a falsa atitude de indiferença ante a presença dos cães e de seus donos. No lusco-fusco do "Murrão", os Bruacas percebiam que a onça se aprontava para saltar, e rápido um deles erguia a vara com a zagaia, tendo de aguentar o peso da onça na ponta da zagaia. Esturrando e de peito atravessado, ela tentava alcançar o Bruaca com suas garras. O cachorro aproveitava da situação e ficava a morder as patas traseiras do animal. Pouco a pouco a onça perdia a força e caía morta. A ZAGÁIA é uma lança usada para "escorar" a onça quando ataca o caçador. Tem de uma a três pontas e é encasteada em madeira resistente. MURRÃO é uma lamparina grande, tendo como depósito de querosena uma garrafa de barro vidrado, vidro ou mesmo flandre - onde acendem um pavio grosso que não possa ser apagado pelo vento. Alguns chamam-na de PIRACA. Quanto ao apelido BRUACA, deve-se ao fato de que estes NOGUEIRAS sempre se deslocavam para suas caçadas e outras andanças sempre portando pequenos sacos de couro comumente pendurados um de cada lado da sela (selim), ou apenas uma pendurada ao ombro. Era também, comum "ver-se" os BRUACAS calçando "Apragatas de corrêia na venta", que são pedações de couro, de uma dimensão pouco maior do que as da sola dos pés da pessoa que as usa. Duas correias prendem a frente. Outras passam pela parte anterior, segurando como anel de couro, ao jarrete, vindo estas pelos dedos do pé. Conheci um dos homens valentes dos BRUACAS, conhecido como TIBÚRCIO GOELA, filho natural de Senhorinha, exímia tocadora de fole, componente da família dos Bruacas. No ano de 1940, o Tibúrcio foi incumbido pelo Coronel Lucas Pinto, para resgatar um burro raceado que fora roubado do seu irmão João de Dodô (Pai de Dalva de Adailton Torres) do qual tivera notícias se encontrava compondo um comboio de um conhecido valentão morador no Acarape-CE, atual cidade de nome Redenção. Sem mais delongas, o Tibúrcio cumpriu o compromisso.

Marcos Pinto – Historiador e Presidente da Academia Apodiense de Letras.

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