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domingo, 1 de dezembro de 2013

Cantofa e Jandi - Nonato Mota

Lenda da Serra de Portalegre 

Cantofa, livre filha dos sertões,
Amava a sua taba e a sua gente.
Nascida ao sol daquelas regiões,
Tinha a côr bronzeada e o gênio ardente.

Era feliz tranquila,
na doce paz das selvas,
Sorvendo o mel que o colmeal destila
E a ter por leito a maciez das relvas.

Aprendera de um índio convertido,
Catequizado por um franciscano,
A recitar, com os filhos e o marido,
As orações do Ofício Mariano.

"Deus vos salve, Relógio"... repetia,
Com doçura e firmeza.

E olhava o céu, que se abria
Cheio de infinda beleza,
Fonte de eterna alegria,
Arca de eterna riqueza.

Filha de Deus, sentia-se mais forte,
Pela Fé, convencida
De que esvai-se o crepúsculo da morte
Na aurora de outra vida.

A viuvez, mais tarde, lhe chegará,
Suavizada pelo amor dos netos;
E Jandi, a mais nova, conquistará
O primeiro lugar nos seus afetos.

Muitas luas passaram-se. A velhice,
Que entre os selvagens vala como espêlho,
Fez de Cantofa oráculo da crendice,
E tôda a tribo ouvia-lhe o conselho.

Quando, um dia, inimigos poderosos,
Mais desumanos que civilizados,
Invadiram os sertões e, belicosos,
Destruiram cabanas e cercados,
Cantofa ergueu a voz: "Filhos queridos,
Descendentes dos bravos potiguares,
Voz de guerra chegou-nos aos ouvidos,
Defendamos, com brio, os nossos lares!
Aqui é a nossa Pátria, aqui repousam
As relíquias dos nossos ancestrais;
Repilamos os bárbaros que ousam
Profanar dêste solo a santa paz;
Não temamos a guerra mais renhida...
A liberdade vale mais que a vida!"

E, só porque Cantofa erguera a voz
Contra a horda invasora,
Esta votou-lhe um ódio mais feroz,
E chamou-a de "bruxa" e de "traidora"!

Na luta desigual de muitos dias,
Venceu dos invasores a coorte
As cabanas quedavam-se vazias,
Por tôda a taba era a ruina e a morte!

Velhos índios, escapos dessa guerra,
Foram pedir abrigo ao Cariri,
Deixando ocultas, num desvão da serra,
Cantofa e a neta, a cândida Jandi.

A tapuia, alquebrada pelos anos,
Aguardava entre as feras e as serpentes,
Que serenasse a ira dos tiranos,
Para seguir em busca dos parentes.

Com fome e sêde, as duas, abrigadas
Sob a fronde de um velho cajueiro,
Jandi colhia, longe das estradas,
Frutas na mata e água no ribeiro.

E, apesar da cautela
Com que Jandi pisava o solo rijo,
Alguem viu a donzela
E segui-a, de manso, ao esconderijo.

Pouco depois, por todo o acampamento
Espalhava-se a nova alvissareira
De que fôra, de acaso num momento,
Descoberto o "covil da feiticeira".
E todos, como em face de um perigo,
Penetraram, medrosos, na floresta...
Além, à sombra de copado abrigo,
Viram Cantofa, que dormia à sesta.

Ao ruido de olhas machucadas,
Cantofa despertou. Velha, indefesa,
Disse adeus às delicias já gozadas
Na quietude feliz da natureza...
Abriu o seu pequeno santuário
E, de joelhos, contrita, olhando o espaço,
Pediu à Santa Virgem do Rosário
Refúgio mais feliz no seu regaço.

Jandi, banhada em lágrimas, rogava
Aos da turba cruel, enfurecida,
Perdão para a velhinha, que se achava
A poucos passos do final da vida.

Ninguém ouvia as vozes suplicantes,
Os rogos de Jandi, aflita e rouca!
Do meio dos iníquos assaltantes
Um bandido avançou, com furia louca,
E, quando a velha índia recitava
"O Deus vos salve" do piedoso Ofício,
O bandido cruel a apunhalava,
Sem mostrar de piedade um só resquício!

E Cantofa estendeu-se sôbre o solo,
Numa onda de sangue mergulhada,
Caindo-lhe de bruços sôbre o colo
O corpo da netinha desmaiada!
Satisfeitas, assim, iras ferrenhas,
Os ímpios, sem remorsos, nem pavor,
Regressaram, deixando lá nas brenhas
Jandi, entregue à sua própria dor.

No outro dia, tornaram, com cuidado,
Ao sinistro local da mata escura;
O cadáver jazia abandonado...
Cavaram-lhe, ali mesmo, a sepultura.
Depois, muitas batidas foram dadas
De Portalegre às várzeas do Apodi.
Batidas infrutíferas, baldadas.

Ninguém soube notícias de Jandi.

Até bem pouco, a lenda nos atesta,
rezas do Ofício por ali se ouviam:
"Deus vos salve!" era o eco da floresta,
"Deus vos salve!" as montanhas repetiam...
No dia seguinte, Cantofa foi sepultada no mesmo
lugar onde fôra assasinada. Jandi não mais foi
encontrada e nem se soube do seu destino.
Contavam os antigos que, durante muitos anos aquele
lugar era mal-assombrado. Os transeuntes que dali se
aproximavam ouviam resar o Ofício de Nossa Senhora.

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