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segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Oliveira Coriolano - historiador

“Os índios Tupis chamam sanharó, sonharão, a uma abelha preta, muito mordaz. No município do Apodi, no Rio Grande do Norte, há um sítio “Sonhorom” que é apenas deturpação desse nome. Ali residia Manuel Gomes de Rêgo e sua mulher Dona Isabel Maria de Jesus. MANOEL ANTÔNIO DE OLIVEIRA CORIOLANO nasceu no Sítio Sonharão, no dia 05 de janeiro de 1835. Faleceu na cidade do Apodi a 28 de dezembro de 1922. Durante meio século seu nome correu todo oeste da Província e Estado, era o cronista do sertão, o historiador inédito mais diário, o sabedor das tradições, o homem que tudo observava, retinha e anotava nos cadernos de papel almaço, tornados  famosos nas “ribeiras” como as actas  diurnas  do desenvolvimento social, folclórico, político e religioso da região. Pertenceu a uma geração  desaparecida de anotadores desinteressados pela divulgação dos ensaios. Conheci ainda, no alto sertão, esses velhos fazendeiros que registravam  todos os acontecimentos conhecidos, as datas e os detalhes, formando desta sorte, os fundamentos honestos de uma história verídica, como testificada pelas notas apanhadas no calor dos sucessos.     Manoel Antônio de Oliveira Coriolano pertenceu a essa raça e que se extinguiu quase inteiramente e jamais  se renovará. Escreveu com letra graúda e lançada, quatro livros inteiros  sobre a História do Apodi, a freguesia de São João Batista das Várzeas do Apodi, terra nevoenta de tradições sugestivas, núcleo irradiante de fazendas, zona que se partiu para criar municípios, como numa divisão fecunda de polipeiros. Não é possível caminhar-se na história do oeste norte-rio-grandense sem consultar Manuel Antônio de Oliveira Coriolano, seja qual for o aspecto fixado. Era esse Cicerone de Apodi, como lhe cognominava “MISCELÂNEA”. Jornalzinho  do Natal, em seu número 5 - 12 - 1898 - “Eís em ligeiros traços, a vida de um destes homens cuja inteligência excepcional  perde-se no recôncavo culto do alto sertão, onde ouve apenas o mugir da vaca e o relinchar do cavalo”.

Manoel Antônio de Oliveira Coriolano exerceu cargos locais, na promotoria pública, eleitor de paróquia, especialmente na advocacia, onde se afirmou como um legítimo tribuno do povo, aceitando causas que afetavam interesses prestigiosos, não recusando fazer acusações que se tornaram citadas como atitudes de suma coragem pessoal.

Uma vida áspera, difícil e cheia de episódios atordoadores. Criança, não podendo estudar, vinha esperar na estrada os viajantes, munido de papel e tinta, suplicando que traçassem para ele os traslados. Aprendeu a ler sem mestre e, tendo conseguido um livro, deleitava-se de tal forma com a leitura que, mandado vigiar uma lavoura de milho, deixou que as maracanãs  a devorassem, absorvido nas folhas impressas.     Ildefonso Alves Maia, mestre-escola em outubro de 1844, ensinou alguns princípios. Mudando-se para a Vila em 1855, Coriolano estudou com o Padre Florêncio Gomes de Oliveira, rudimentos gramaticais. Daí em diante é um autodidata, sedento de curiosidade, revolvendo arquivos, tendo de memória livros inteiros, sabendo de cor centenas de registros de nascimento, casamento, das famílias tradicionais do Apodi. Chegou a ensinar português e Direito Penal no Apodi. Durante a guerra do Paraguai  foi recrutado. Era Conservador e o delegado de policia figurava no partido Liberal. Depois de dois meses de luta, Coriolano voltou, livre, com as desculpas do presidente Olinto Meira, cioso dos códigos e distribuidor de justiças. Rara seria a eleição tumultuosa em que Coriolano não ditasse  o “protesto”, encaminhando  os recursos, porejantes  de indignação aos furtos das urnas, falsificação das atas ou sonegação de votos, expressões antigas, e teimosas do mecanismo eleitoral.

Impossível deixar de admirar a cópia extensa e informes sistematizados por Oliveira Coriolano sobre as terras de Apodi, compreendendo Caraúbas, Mossoró, Macau.     Esses volumes, durante meses, estiveram comigo, por empréstimo de Des. Felipe Guerra, a quem os devolvi. Abrangem dois e meio séculos de História, minuciosa, detalhada, com lendas e veracidade de mistura, nomes, datas, casos, guerrilhas, secas, enchentes, ações nobres, curiosidades. Lastimável será que tudo esse acervo documental se perca. Perdido ou não, já tenho provas para não esquecer e louvar o historiador sertanejo, Manuel Antônio de Oliveira Coriolano”. (Biografia extraída do “O Livro das Velhas Figuras” de Luís de Câmara Cascudo)

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