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quinta-feira, 16 de julho de 2015

Terral natal



Ali, a esquina da minha casa, à rua São João Batista, fico olhando para o lado posto, e vejo a amplidão do azul da lagoa confundindo-se com o azul do céu. As imagens são novamente revividas e os sons são novamente ouvidos. 

Olho o céu, e vejo andorinhas que coxixam pequeninas estórias em que entram pássaros e insetos. A sua trajetória descreve as linhas dos meus sonhos. O seu gorjear a música da minha vida. Logo à frente vejo a pracinha, palco de meus primeiros amores e assédios sentimentais. Nos seus canteiros a tonalidade das flores tinge de sonhos multicores as paisagens que vão ficando nas entranhas de minhas reminiscências. 

No prosseguimento da rua São João, tento localizar o número 82, foi ali que a minha vida foi regada com o orvalho do amor. 
Parece que alguém me pergunta: - E porquê o número 82? 

Respondo: Foi lá que encontrei o significado da vida. As reminiscências dessa vida foram-se transmitidas pelo meu avô Aristides Pinto. Ensinou-me a mar, a cultivar em minha alma elevados sentimentos de amor ao próximo. Foi ele que me abriu o livro do tempo e disse-me: Vejam bem: Nesse longo roçado meio espinhoso que é a vida, é preciso que se plante o amor, para que colhas no outro mundo; o outro grande mundo, às sementes que crescerão e que produzirão outros frutos. É preciso que não cultives em seu coração a semente do ódio, pois ela corrompe a alma. 

Logo ali, ao lado da minha casa, ouço sons que se confundem. Alguns bebem e cantam, outros jogam bilhares e sinucas. Ali senti, pela primeira vez o álcool percorrer minhas veias e criar diálogos alternativos entre uma e outra dose. Chamam-no Bar Satélite! E o nome faz jus ao ambiente, porque os sons são novamente ouvidos, e as imagens são transformadas em satélites incandescentes na mente levado pelos efeitos alcoólicos. 

Na confusão de sons, ouço “Seu Altino” anunciar mais um filme em tecnicolor, em que entram saloons, bandidos, cidades do Far West(Faroeste) e artistas cheiras de façanhas. 

De repente, em frente à minha casa, ouço o ranger monótono das rodas de um carro de boi, tangido pela voz rouquenha de um homem de pele bronzeada. 

Desafiando o tempo, vejo-me na escola. Eu, criança a cometer travessuras. Uma mais monótona, Paredes, quadros, a professora com suas explicações quilométricas deixava-se inquieto. Na pequenez geográfica de meus pensamentos vejo a grandeza moral que me foram transmitidas por minhas professoras. 

Nessas sinuosidades da vida, nesse momento, não há em que pensar, senão na figura alta, magra, de faces contornadas por um sorriso – Era ela; Dona Carmelita, exemplo de carinho e compreensão. Ensinou-me as primeiras letras, os primeiros rudimentos da matemática. Nunca a esquecerei, pois seu nome está marcado nas páginas do meu tempo. 

Lembro-me do dia em que, alegre por começar a estudar, tive a m ais bela das acolhidas, o mais contagiante dos sorrisos, a mais terna compressão na pessoa da Dona Carmelita. 

Era eu, ao mesmo tempo, estudioso e travesso. As minhas mãos trêmulas foram seguras por mão bondosas e benditas que me ensinaram a rabiscar. 

No entreabrir de minhas primeiras esperanças, senti o impulso dos seus conselhos, a força do seu sorriso, o mais terno dos carinhos e de amor ao próximo transmitidos por um mestre. 

Hoje, Dona Carmelita faz parte da ESCOLHA DA MINHA VIDA. Suas aulas iluminaram minha inteligência, e hoje, tudo que eu sou devo a essas pessoas, que no meu dia a dia, fizeram-me galgar o degrau da experiência e do desenvolvimento espiritual. 

Dona Carmelita! Suas aulas iluminaram muitas inteligências em Apody! Em nome delas. Deus lhe pague!

Coisa que tem o gosto da saudade! 


Por Marcos Pinto - historiador apodiense 

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