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domingo, 26 de abril de 2015

Vou-me embora pro passado - Uma pessoas, umas histórias e umas saudades(I)

Em meio à agitação dos dias atuais agradeço, todos os dias, ao DEUS todo poderoso e de infinita bondade, por ter me proporcionado a felicidade de ter nascido em Apodi, e de fazer parte da sua geografia humana, caracterizada por inconfundível senso de solidariedade humana. Transfiguro-me em menino, todas as vezes que volto à terrinha amada e nunca esquecida. Minha saudade se espraia num estuário de recordações, como a divisar entre os silêncios do mundo o desfilar das emoções antigas, cheias de fidelidade evocadora. 

Diante o desenrolar dessa fita da saudade, passada no CINE ODEON do meu passado, vejo a inconfundível figura de Sêo JOÃO DE QUINCA, com seu corpo rechonchudo, desempenhando seu ofício como componente da BANDA DE MÚSICA DA FUNDEVAP (Fundação Para o Desenvolvimento do Vale do Apodi) tocando num bombo - isto lá pelos idos dos anos de 1966 a 1969. Integrante da tradicional família NORONHA, gozava da elevada estima de seus conterrâneos, com também daqueles que vinham de outras cidades para cumprirem alguma meta na então tranquila cidadezinha do interior. 

Quando Sêo João de Quinca enviuvou e, passado o período lutuoso de um ano, passou a frequentar, quase que diariamente, a casa de uma senhora que "ganhava a vida" na salutar prática do meretrício, Essa deliciosa prática do sexo fazia com que Sêo João gastasse dez Cruzeiros por cada investida. Certo dia, após cumprido o prazeroso exercício, Sêo João de Quinca perguntou à fogosa amásia quanto é que lhe devia, no que ela respondeu que importava em Quinze Cruzeiros. Desapontado e com cara de surpresa, o famélico João perguntou o motivo do aumento do preço do "programa". Qual não foi o seu espanto ao ouvir que o aumento dera-se pelo fato de que o preço do botijão de gás butano havia subido para Quinze Cruzeiros. Como o ato já havia sido consumado, só restou ao fogoso João pagar o preço cobrado - mesmo que a contragosto. Depois deste susto monetário, Sêo João de Quinca deixou de frequentar a casa da libidinosa amante. 
Decorridos cerca de três meses, eis que Sêo JOÃO DE QUINCA depara-se, surpreso, frente à frente, com a ex-amante, exatamente na porta que dá acesso ao açougue público municipal, ocasião em que esta dirige-lhe, à queima-roupa, a instigante pergunta: 

- Ô João, por quê você não foi mais lá em casa ?
Sem "arrodeios", o desasnado idoso respondeu-lhe:
- Enquanto o seu "Tabaco" for à gás butano, não boto os pés lá!.
Visivelmente envergonhada, só restou à mesma sair de fininho, vermelha "que nem" tomate. Imagine-se o quanto foi difícil para os circunstantes manterem-se sérios, sem dispararem em largas gargalhadas. O certo é que o o fogoso João faleceu depois de dois anos, em forçoso jejum da saborosa fruta da sua amada Dulcinéia.

Quando tenho o prazer de encontrar-me com meus conterrâneos e com tempo para "tirar um dedo de prosa", costumo afirmar que nossa Apodi (cidade) é pródiga quanto à existência de pessoas espirituosas e gaiatas. Quem, em Apodi, não conhece o carrancudo TETÉIA DE ADEMAR CAVEJA, irmão de Fãico, do Bar "Canto das Almas", alí vizinho ao Cemitério São João Batista?. Pois bem: Em um dos dias do carnaval desse ano, eis que uma conterrânea, residente em Natal, metida a rica e com ar e pose de muito importante, parou o seu imponente e luxuoso carro em frente à mercearia de Tetéia, que se encontrava muito bem sentado em uma "cadeira de balanço", na calçada. Se fazendo de desconhecida/turista e fazendo de conta que não conhecia o Tetéia, sapecou a pergunta:

-O Senhor tem pão de Hambúrguer ?

O "cabreiro" Tetéia, se fazendo de besta e também fingindo não conhecer a boçal conterrânea, respondeu, sereno e calmo:


Ainda encontra-se na mercearia de Teté 
artigos não muito comum nos dias de hoje

-Tenho não, senhora! A Senhora só vai encontrar PAU DE BURRO em Mossoró, na Loja "Curral Veterinário".

Mercearia Frei Damião de Teté de Ademar

Diante tão inusitada resposta, a orgulhosa conterrânea engatou a marcha do veículo e saiu "ciscando" os pneus, mastigando sua incontida raiva.

Ora, o Tétéia lá sabia o que diabos era PÃO DE HAMBURGUER ?. Criado nos moldes sertanejos, assim como eu, comendo cuscuz de milho zarôlho, moído naqueles antigos moinhos de marca "Mimoso", e de vez em quando saboreando "pães d'água" (Pães franceses) ou então "Pães doces" recheados com coco, comprados nas padarias de Zé Bolacha, Raimundo Sena ou de Josué Marcolino, jamais saberia o que era pão de hamburguer.

Blog Potyline  de Antonio Praxedes Filho
Por Marcos Pinto.

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