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segunda-feira, 6 de abril de 2015

Imagens da saudade - Por Marcos Pinto


A nostalgia da saudade mexe e remexe todo o território da alma, afastando-me do rebulício caseiro, como se me envolvesse inteiro em fome de solidão. Como num filme, surgem as imagens de uma vida marcada por contrastes de alegria e tristezas, de êxitos e decepções. de dias serenos e felizes sucedidos de outros sobressaltados e atormentados. A remota reminiscência traz matrizes vivas do avanço implacável do tempo, delineando um cenário em que me sinto rodeado, como que, num diálogo silencioso, dos vultos já tão distantes, diáfanos e impalpáveis pela morte que os levou, mas vivos na minha perene saudade. 

Tento esboçar ou tentar esboçar qualquer retrato evocativo das pessoas que fizeram parte de minha geografia humana. Se me fosse facultado por DEUS a vivência dadivosa daquelas pessoas e daqueles lugares que me proporcionaram momentos sublimes, assim gostaria de: ver o rio de Zé Bico descer em grandes cheias, com suas águas impetuosas vencendo a solidez dos barrancos; de banhar-me no Coaçu e na inconfundível “Crôa”; entrar na Igreja Matriz e orar a N. Sra. da Conceição e São João Batista; de fazer lances no leilão da Paróquia comandado por Lalá de Seu Domingos Freire; Descer e subir pelas velhas ruas que formam o “Quadro da Rua”, onde há de cada um de nós um pouco; De ficar atento em meu silêncio de criança. ouvindo as conversas noturnas por conhecidos e costumeiros frequentadores; De voltar ao 1º dia de aula, sendo recebido afetuosamente pela Professora Carmelita Ferreira, luz do saber que compunha o quadro docente do velho Grupo Escolar “Ferreira Pinto”, situado onde hoje encontra-se funcionando o Ginásio Prof. Gerson Lopes; De ir ao “Cine ODEON”, onde momentos antes ouvia-se “Seu” Altino Dias anunciar o filme em Tecnicolor, intercalando os anúncios com músicas de Nelson Gonçalves e Vicente Celestino; Deixar-me estar diante de uma velha casa, onde a alma da gente povoa de ilusões a solidão encantada; De acompanhar as procissões e as novenas do padroeiro e da padroeira do Apody; De comprar rosários de coco catolé nas festas paroquiais; Ir à feira aos sábados; ler no cemitérios os nomes de quantos viveram para servir à terra; De pegar uns “trocados” e ir até à casa de Cotó de Lúcio Fogueteiro saborear apetitosos e irresistíveis suspiros e doces de leite; De ir até a fazenda “Quadra” sentado no carroção do trator, que chamávamos “reboque”-trator de fabricação inglesa e que tinha o nome de marca “ALLIS CHALMERS”, de propriedade do meu avô paterno Aristides Pinto, e que tinha Expedito Inglês como tratorista, como também motorista do Jeep Toyota, também deste meu avô; De ir com o meu saudoso pai até o Sítio “Soledade”, ladeando-o juntinho no bando do Toyota para, aqui e acolá, poder “aprumar” a direção do mesmo na estrada carroçável, atitude facultada atentamente por meu pai; que sentia alegria em dar-me imensa sensação de realização de menino, naquela hora investido no perfil de adulto. 

Retornando a fita do tempo, gostaria, ainda, de deleitar os olhos da alma acompanhando a subida dos balões nas festas paroquiais, feitos por “Seu” Chico Guarda; De correr no meio da multidão para pegar os cartuchos queimados dos foguetões soltos por João de Benvenuto; De acompanhar a banda de música pelas ruas da cidade, ouvindo os seus inconfundíveis dobrados, numa mistura de sonos rítmicos da minha alegria; De acompanhar de forma saliente – o palhaço da perna de pau, aumentado o grupo da criançada que exercia esse ofício de segui-lo em troca de entrada grátis para o anunciado espetáculo circense; De reviver as noites recreativas de rapazote de 14 anos, na Associação Recreativa dos Jovens Apodienses – ARJA, que funcionava somente durante as férias escolares, oportunizando, assim o reencontro dos estudantes que frequentavam colégios em Mossoró e Natal; De reviver minha inauguração sexual nos braços de Estelina aos 12 anos de idade, secundando encontros semanais com Toinha de Felizardo, expert no ramo da lubricidade; De acompanhar meu pai ladeando-o no trato, em sua afanosa faina de arar a terra com a grade de discos, e às vezes com o “arado”, proporcionando-me assim o bafejo do orvalho da madrugada a beijar-me a face de menino de 7 a 8 anos de idade. Nessa faina respirava solfejando a alma com a mistura do cheiro da terra molhada ao do mufumbo triturado pelos discos da grade. 

Como se de novo fosse menino, e tudo voltasse por um feitiço de algum Deus oculto e adormecido, que de repente acorda para fazer do homem adulto quase uma criança em busca do seu destino. 
No meu passeio sentimental, gostava de ouvir com venerando respeito os bate-papos matinais de Zé Cabral, Tião Lúcio, Tião Pinto, Sebastião Paulo, Gregório de Chicá e de Robson Lopes, na calçada da Agêncis dos Correios e Telégrafos, numa miscelânea de assuntos de fazer inveja aos intelectuais polivalentes; De ir à  “perca do mercado”, comprar, à mando de meu pai , uma “palha” com tucunaré e curimatã ovada, peixe de preferência paterna. Diz-se “palha de peixe” pelo fato de que os pescadores usam palha de carnaubeira para pendurar os peixes, juntando em cinco ou seis, dependendo do tamanho em uma só palha, para serem expostos e vendidos na famosa “pedra do mercado”. 

Bate-me a lembrança de que eu sempre  me dirigia até a farmácia de “Seu” Nenem Holanda para “beber” um pouco de sua conhecida intelectualidade polivalente, encetando diálogos sobre temas históricos de Apody e região. À lembrança acolita a vontade de banhar-me nas paragens do “Zê Porrête”, que hoje denomina-se balneário. O batismo de “Zé Porrête” fora feito pelo caridoso médico Dr. Hamilton, oriundo da cidade de Cascavel-CE, e que casara no Apody com uma filha adotiva do Cel. Lucas Pinto, de nome Alaíde. 

Como eram paradisíacos os finais de semana no sítio de Tia Celcina, irmã de minha avó D. Nicinha. Dormíamos reparadores sonos sob o ranchinho de taipa coberto com palhas de carnaubeira. Os festivos dias eram preenchidos pelo banho na lagoa do sítio, como também em ir pegar passarinhos com alçapões, que chamávamos de “saplans”. 
As airosas tardes eram perlustradas durante a semana, em empinar papagaio, que os ricos chama de pipa, lá pras banda da casa do meu tio Mumundo, que tinha calçada alta, facilitando assim o lance de fazer subir a pipa. 

Lembro a praça com o seu coreto – palco dos meus primeiros amores, com a topografia em descaída, como se quisesse caminhar para a lagoa. No patamar da Igreja – onde penso que estão para chegar os que chegavam de outras épocas, costumava, em criança, deitar-me com os braços abertos e olhos fitos no céu acompanhando o voo das andorinhas, voo de andorinhas antigas cujas asas se imobilizaram no tempo da suave saudade. 
Aos pés de Nossa Senhora, pelo-lhe, em oração, que receba os meus que já se foram, igualzinha como está no altar. A palavra é humilde, mas o coração vem aos lábios numa prece recôndita. 

23.10.2002
Por Marcos Pinto

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