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domingo, 25 de janeiro de 2015

Robson Lopes, vida e morte


Robson Lopes foi uma figura humana difícil de ser esquecido. E se os mortos estão verdadeiramente vivos, porque o tempo para eles não existe, coforme disse um grande escritor. Robson continua entre nós, na paisagem onde nasceu, viveu, luto e constituiu família. 

Filósofo por natureza, observado, atento dos acontecimentos do cotidiano, de qualquer espécie, sabia comentá-los com sabedoria, às vezes com certa dosagem de ironia. 

Leitor infatigável de centenas de livros, adquiriu uma vasta cultura, principalmente na área humanística. Por isso, mesmo tornou-se uma espécie de oráculo na comunidade onde habitava. Sempre consultado, não deixava sem resposta, as perguntas que lhe eram formuladas sobre os mais variados assuntos. 

Inteligência privilegiada, formado em direito, com admirável vocação para a oratória, participou de todos os movimentos culturais, políticos e sociais de sua época. Fundou ginásios, associações esportivas e beneficentes, prestando relevantes serviços ao desenvolvimento de sua terra. 

Graças à sua cultura e aos seus dotes oratórios, Robson foi durante muito tempo, o interprete do político e prefeito Izauro Camilo de Oliveira, proferindo discursos em solenidades e palanques políticos. Nas comemorações cívicas era convidado para ser o orador oficial. 

O BEM AO APODI – Sempre demonstrou extremado amor à sua terra, protestando em diversas oportunidades contra a falta de interesse das autoridades pelo progresso de Apodi. Prova disso constata-se quando de sua atuação como vereador, cujo mandato teve inicio em 1955, apresentando projetos favoravelmente nos que visavam ao bem-estar coletivo. 

SIMPLICIDADE E MODO DE VIVER – Pessoa simples, sem ambições, qualidades elogiáveis, Robson estava preso a velhos e tradicionais hábitos. Não aceitava certos costumes e mudanças impostos pelas transformações do modernismo. Viveu conforme o seu temperamento, às vezes estranho, sua ideias e a visão que tinha do mundo que o cercava, sempre apegado às rígidas tendências da velha moral, herança do seu respeitável pai. Acostumado a agir conscientemente, como dizia, não gostava de opiniões contrárias aos seus atos. Era uma das características da sua personalidade. 

RELIGIÃO – Não era um homem de muita fé nas religiões cristãs, e assim, também não era um frequentador de igreja. Pertencia ao grupo de Irmandade Rosa-Cruz, organização praticamente de escoteirismo. Talvez, firmasse os seus costumes de vida nos princípios filosóficos dessa entidade ocultista, de poucos adeptos entre nós. Assim pensando, limitava-se aos afazeres habituais: leitura, serviços profissionais, magistério e, vez ou outra, divertia-se tomando a cervejinha, o que não lhe fazia bem. 

O ESTUDANTE – Como estudante, Robson foi destaque em todos os estabelecimentos de ensino por onde passou, sempre obtendo boas notas, dando exemplo de aluno estudioso e disciplinado. Fez os estudos primários em Apodi, no grupo Escolar Ferreira Pinto, indo em seguida residir em Natal, onde se matriculou para o curso ginasial, no Ateneu. No Colégio Marista, também em Natal, fez o curso científico, CURSO SEPERIOR – No ano de 1976, submeteu-se ao vestibular na faculdade de Direito de Sousa, Paraíba, tendo sido aprovado. Depois transferiu-se para a Faculdade de Direito de Mossoró, onde concluiu o curso, em 1982, com 55 anos de idade.  Ao receber o diploma de Bacharel em Direito tratou de enriquecer os seus conhecimentos jurídicos, estudando bastante, visando com isso ao exercício profissional, instalando um escritório de advocacia, nunca lhe tendo faltado clientes para as mais diversas causas. 

O PROFESSOR – Possuidor de excelentes conhecimentos de inglês, sobre cujo idioma escreveu um livro, Robson foi um dos melhores professores dessa matéria em Apodi. Ensinou também Língua Portuguesa no ginásio Professor Antônio Dantas. 

EMPREGOS – Sua primeira experiência para iniciar a vida ganhado dinheiro, foi como funcionário do SAM – Serviço de Assistência ao Menor, em Natal. Depois, fez concurso pelo IBGE em 1952. Aprovado, foi designado para a Agência de Luis Gomes, no Estado. Nesse cargo passou pouco tempo, retornando a Apodi, onde iniciou negócio comercial vendendo tecidos, atividade que logo abandonou por falta de vocação. Submeteu-se a novo concurso, desta vez para telegrafista dos Correios e Telégrafos. Obteve aprovação e foi nomeado para o cargo, que o exerceu até aposentar-se, por motivo de saúde em 1979. 

O DESPORTISTA – Conheci muito de perto o entusiasmo de Robson pelo CENTRO ESPORTIVO APODIENSE, time de futebol por ele fundado e registrado em cartório em 1952. Conseguiu da Prefeitura Municipal um terreno para a construção de um campo de futebol, e para esse empreendimento testemunhamos que gastou bom dinheiro do seu bolso. Foi um dos maiores incentivadores dessa modalidade de esporte em Apodi – o futebol. 

O POLÍTICO – Com Izauro Camilo de Oliveira, Robson participou ativamente da política local, presente em comícios e reuniões de interesse do partido – UDN e depois ARENA I, ajudando e orientando na preparação dos documentos para o registro dos candidatos junto aos cartórios eleitorais e Diretório Regional. No pleito realizado no dia 03 de outubro de 1954, elegeu-se vereador. 

O PAI DE FAMÍLIA – Pai carinhoso e esposo compreensivo, Robson dedicou todo o esforço de sua vida aos filhos, contra os quais, para educá-los jamais usou métodos rígidos de disciplina. Dedicava a todos uma preocupação ilimitada, principalmente no que dizia respeito aos estudos dos filhos, dos quais quatro concluíram cursos superior. Amilcar fez o curso de Direito, Nadja concluiu o de Pedagogia, Jocasta, Ciências Econômicas, Roxana, Pedagogia, Antônio interrompeu o curso de História. 

OUTRAS ATIVIDADES – 1. Diretor-Presidente do Centro Esportivo Apodiense, por ele fundado em 1952; 2. Diretor do Ginásio Felinto Alves(extinto) que ajudou a fundar, em 1958; 3. Diretor Executivo da Fundação para o Vale do Apodi – FUNDEVAP, por mais de um mandato a partir de 1966; 4. Diretor do Ginásio Estadual Professor Antônio Dantas, 1972; 5. Secretário Municipal de Educação, na administração de Valdemiro Pedro Viana, gestão 1976/1980. 

DADOS PESSOAIS  - Filiação – Robson era filho de Antonio Lopes Filho e Armandina Lopes de Gois. 
Data de nascimento: Nasceu na cidade de Apodi no dia 28 de agosto de 1927. 
Casamento – Casou-se com Francisca Paiva Melo Lopes, no dia 12 de abril de 1953 na Igreja Matriz da cidade de Apodi. 
Número e nome de filhos – Hamilca, Nadja, Antônio, Roxana e Jocasta. 

HOMENAGENS – Homenagear a personalidade de Robson, reconhecer seu valor e os serviços que prestou ao nosso município, é um dever de cada um de nós. A lei que tomou o número 265/96, na gestão administrativa do Dr. José Pinheiro Bezerra, deu o nome de Robson Lopes a uma moderna praça recém-construída na cidade. As autoridades do Ginásio Gerson Lopes deram à sua biblioteca também o nome de Robson. 

Era ao mesmo tempo uma pessoa alegre, bem humorada, presença de espírito aguçada, autor de frases e repentes que ficaram na memória de muitas pessoas, que gostavam de vê-lo e ouvi-lo conversando, nos momento de inspiração, cotanto histórias do seu vasto repertório. 

Robson bebia com seu colega e amigo Raimundo Pereira(Raimundo de Tião Lúcio), quando apareceu um desses poetas populares. Ao vê-los, ergue os braços e os saudou: “Robson e Raimundo, grande professores”. E marchou em direção a eles. Um pouco alcoolizado, o poeta foi de encontro à mesa, fazendo cair alguns copos. O dono do bar, senhor Zezinho, veio ter-se com o bêbado exigindo sua saída do recinto. Esse desculpou-se alegando que havia pisado na sujeira acumulada no piso. Ai houve a interferência de Robson. Pediu calma ao senhor Zezinho e lhe disse: “Você também é culpado. Faz a faxina, encera o piso e não avisa os fregueses que ficam expostos a perigosos escorregos”. Pura ironia. O salão nunca fora lavado. Zezinho riu e perdoou o poeta Justino. 

Numa viagem a Mossoró, com amigos, Robson pediu ao motorista para leva-lo à “CASA CHARCENAI”, uma loja bastante sortida. Entrou e saiu sem comprar nada. Curiosos, os companheiros perguntaram-lhe o motivo de sua presença ali. E ele respondeu: não ouvem a propaganda comercial pelas emissoras de rádio, que diz: “Da casa Charcenai sem comprar você não sai?”. Entrei, não comprei e sai, disse Robson. Todos riram do protesto do companheiro à propaganda que ele detestava e se encabulava ao ouvi-la. 

DOENÇA E MORTE – Atacado por mal pernicioso, Robson não respeitou as determinações prescritas pelo médio que o tratava. O mal agravou-se e ele assumiu, inexplicavelmente, o seu grande erro. Com serenidade e reconhecendo a gravidade da doença, não reclamava o seu lamentável destino – o caminho que o levaria à morte. Apesar da evolução da doença não dava demonstração de fraqueza em reclamava, resistindo como um herói frente ao inimigo no campo de batalha. Mas não resistiu à agressividade do cruel inimigo – enfermidade que minara rapidamente o seu frágil organismo. Hospitalizado pela segunda vez, entrou em estado de coma profundo, de cujo sono não acordou mais. Não houve mais oportunidade para um pedido, uma recomendação, um gesto, que os doentes costumam fazer diante da terrível fatalidade da morte. No dia 28 de dezembro de 1991, deixava de existir Robson Lopes, o intelectual, o filósofo. 

FONTE: Mistura de Frases e Palavras - Válter de Brito Guerra. Fundação Vingt-Un Rosado. Coleção Mossoroense - Série "C", Vol. 1068 - Outubro/1998. 

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