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terça-feira, 14 de outubro de 2014

Os mártires do Apody - Por Marcos Pinto

A história dos mártires do Apody se confunde com a própria história da cidade, tais e tantos foram os fatos e episódios que ficaram amalgados na memória daquela grei oestana. O século XVIII foi o nosso século de povoamento no interior, com a criação de capelas e multiplicação de currais de gado. O processo de colonização do Apody começou pelos idos de 1688, com os sesmeiros Gonçalo Pires de Gusmão e os irmãos Manoel, Balthazar, João Nogueira. 

Em 09 de agosto de 1688, ocorreu o massacre de Balthazar Nogueira, morto a flechadas, tacapes e bordunas, às margens da lagoa do “Apanha Peixe”, pelos índios Paiins vindos da fronteira cearense (Vale do Jaguaribe) aliados aos paiacus, indígenas de corso, afoitos, valentes e teimosos no ataque. Concedidas as primeiras “datas” e sesmarias no interior da capitania, com a finalidade de expandir-se a criação de gado, ocorreu a reação dos tapuias, contra a presença dos curraleiros no sertão por eles habitado. 

À medida que os indígenas iam sendo vencidos pelo Terço dos Paulistas (Milícias organizadas para o combate ao gentio indígena, oriundas de São Paulo) eram eles coagidos a se aldearem nas missões religiosas, como foi o caso dos Tapuias Paiacus do grupo étnico-cultural Tarairiú, aldeados à beira da lagoa do Apody. No dia 10 de janeiro de 1700, uma terça-feira, o padre Jesuíta Filipe Bourel, alemão de Agripi, fundo a missão de São João Batista da Lagoa do Apody, no local que passou a receber a denominação de “Córrego das Missões”. 

No ano de 1709, a aldeia dos Paiacus da Lagoa do Apody foi atacada pelos indígenas  Janduins, que apesar de pertencerem ao mesmo grupo Tarairiú, eram ferrenhos inimigos daqueles Paiacus. No mesmo ataque desfeiro pelos referidos janduins, contra os 600 paiacus aldeados  no Apody, aprisionaram os atacantes 80 individuos e mataram 70. 

O mártir Filipe Bourel viera do Colégio da Companhia de Jesus, na Bahia, na qualidade de missionário apostólico. A respeito do alemão, dedicou o escritor Dom Domingos de Loreto Couto, autor do livro “Desagravos do Brasil e Glórias de Pernambuco”, impresso no ano de 1757, os mais louváveis elogios. 

Segundo aquele escritor, o Pe. Filipe Bourel teria ressuscitado uma criança indígena, já sepultada. Entregue a criança a sua mãe, teria a mesma vivo mais alguns dias... naquele ano de 1757, ainda existia na capela do Apody um quadro retratando o episódio glorioso/milagrosos. 

O último mártir apodiense repousa na pessoa do Coronel Francisco Pinto, vítima de todo tipo de truculências, acossado por detentores de interesses espúrios, de atitudes marcadas pelo ferrete da traição e da vilania. Em 10 de maio de 1927 quase teve sua vida ceifada a golpes de punhal, empunhados por bando de cangaceiros comandados por Massilon Leite, tendo o mesmo escapado ileso devido a intercessão do Pe. Benedito Alves. 

Em 02 de maio de 1934 tombou morto por mão mercenária. Quando ouviu-se o único tiro, fatal, sabia-se de onde e de quem partira a ordem da embuscada que vitimara Francisco Pinto. Os homens inescrupulosos que coordenaram tudo (os mesmos que trouxeram Lampião e seu bando a estas plagas), quiseram desviar suspeitas e encobrir suas identidades, através da famosa “queima de arquivo”, mandando=se matar o pistoleiro Roldão Maia, autor do disparo, por vaqueiros de Benedito Saldanha, que levaram-no para lugar ermo da fazenda “Várzea Grande”, onde o mesmo se encontrava fugindo e refugiado, fulminando-o ali mesmo. A referida fazenda pertencia a Benedito Saldanha, situando-se às proximidades da cidade de Limoeiro do Norte – CE. 

Naquela noite de 02 de maio de 1934 ouviram-se gritos de imprecações de medo, ódio, surpresa e desespero da gente apodyense. 

FONTE DE PESQUISA: Olavo de Medeiros Filho – “A Morte do Pe. Filipe Bourel”. Pe. Serafim Leite – “História da Companhia de Jesus no Brasil”. Egar Barbosa – “Histórias de uma campanha”. Jornal “A Razão”  - Edição de 04.05.1934. 

Por Marcos Pinto – historiador ,advogado e Presidente da Academia Apodiense de Letras. 

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