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quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Apody - Um culto à história (final) - Por Marcos Pinto

Incursionar pela geografia humana do Apody, sem vislumbrar nomes e darás de quantos fizeram a história da cidade é querer arrostar indiferença à nostalgia que paira em cada rua, em cada esquina. Confesso que sou detentor de boa dose de bairrismo apodyense. Observar a lagoa e nela se fazer observar durante o indispensável banho, faz com que o tempo passado ressurja no presente com a força telúrica de suas vertentes. 

As autoridades públicas da cidade sempre ficaram omissas quanto à destruição de painéis antigos, descaracterizando a autenticidade das estruturas genuínas. Citamos como exemplo a destruição do “Cruzeiro”, símbolo da fundação da cidade. Acredita-se ter sido erigido como pagamento de promessa feita pela população, ataca pela epidemia do “morbilho”, doença semelhante à varíola, isto por volta de 1711. Destruíram também o “altar-mór”, da matriz de Nossa Senhora da Conceição e de São João Batista, que possuía características eminentemente barrocas. O único monumento histórico da cidade restringi-se ao prédio onde durante 40 anos funcionou a Prefeitura (1ª andar) e a cadeia pública(térreo). Este prédio foi inaugurado pelo então prefeito, o Coronel Francisco Ferreira Pinto, com as despesas totalizando quinze contos de réis. O Cel. Francisco Pinto é genitor de João Pinto de D. Francisquinha (viúva de Custódio Dantas)m aos quais tenho profundo respeito e admiração. 

Quem não conhece o grande humanista Antônio Pinto? Figura carismática no ofício de ministro da eucaristia; é o único irmão ainda vivo, do Cel. Francisco Pinto. Viu seu irmão tombado, morto com um tiro no peito, vítima da covardia e da ira insana de bandidos que sentiam-se menores ante a envergadura e o prestígio político daquele coronel dos sertões. 

Há um fato histórico de notável relevância – de poucos conhecido, - que eleva Apody aos umbrais do templo da reminiscência. O padre Francisco Pinto, jesuíta que ajudou na pacificação e na fundação daquela comuna, fora naquelas terras apelidado de “Amanaiara”, que em idioma indígena significa “Senhora da Chuva”. Ocorre que o padre, em ali chegando, encontrou a aldeia assolada por grande seca. Insistentemente assediado pela indiada que lhe pedia intercedesse junto a Deus por clemência, ajoelhou-se e orou. Qual não foi a alegria dos indígenas quando, logo à noite, chovia copiosamente, com trovoadas e relâmpagos. Altos desígnios de Deus. 

Certa vez esgrime fatos históricos com o jagunço Raimundo Nonato, ocasião em que afirmei, baseado em documentos irrefutáveis, que sessenta por cento das famílias hoje residentes em Mossoró descendiam de velhos troncos do Apody. Sorrindo, o velho historiador advertiu-me para que elevasse os números ao patamar de oitenta por cento. Reflexões que tutelam a realidade de que o universal é apenas um avanço das forças do provinciano. 

FRANCISCO CABRAL DA COSTA – Eis o homem de vasta memória, tradutor e protagonista de fatos que marcaram a história do Apody. Genitor de Cabral Júnior e irmão de Salviano Cabral. Recordo-me que o mesmo contou-me um fato inusitado acontecido naquela cidade oestana, que por sua vez ouvira de seu pai. Ao tempo da Guerra do Paraguai chegara por aquelas bandas um alferes, com sua cavalaria montada, exatamente no dia da “feira”, objetivando recrutar, à força, homens para a guerra. O clamor fora geral. As mães dos recrutados imploravam, que não levassem seus filhos, ouvindo do militar brutais respostas. 

Formando número suficiente, foram conduzidos até à cadeia pública para serem cadastrados. em fila indiana seguiram pela rua principal. Ao passarem defronte à residência do Cel. Antônio Ferreira Pinto, em alta lamúria, ouviram deste (que na ocasião trajava pijama), palavras de conforto, afiançando-lhes que no dia seguinte seriam dispensados e que não arredariam pé do torrão natal. Por coincidência, neste ínterim, passava o alferes que, ouvindo tais palavras, ironizou afirmando que “não seria um velho” daqueles que os livraria do recrutamento. Ao raia do dia seguinte, o velho coronel envergou o visto fardão da Guarda Nacional, com a insígnia de ouro pregada ao peito, colocou a espada à cinta e seguiu rumo à cadeia pública. Em lá chegando, e, ante o espanto do alferes, identificou-se e enquadrou o militar, mandando-o prender. Isto feito, liberou todos os recrutados, dandos vivas ao velho coronel da ribeira do Apody. 

Por Marcos Pinto - historiador, advogado e Presidente da Academia Apodiense de Letras. 

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