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sábado, 20 de setembro de 2014

Um caraubense na Guerra de Canudos - Por Marcos Pinto

O beato Antonio Conselheiro - Precursor da Guerra de Canudos. 

Ao entardecer do dia 05 de outubro de 1897 ocorria o desfecho da famosa Guerra de Canudos. Cem anos da inglória luta, em que verdadeiros atos de barbárie foram praticados sob os auspícios da impunidade. O tempo sobre as cinzas, as cinzas sobre o tempo, demarcando a existência de cem anos de solidão. 

É indiscutível poder afirmar que foi a maior guerra em solo brasileiro, sobre o qual brasileiros matam brasileiros, em exacerbada insânia do patriotismo. Analisando-se minuciosamente todos os atos que fizeram história, verifica-se que os seus principais protagonistas eram pessoas dotadas de invulgar carisma. 

Num sertão desassistido pelo governo, entregue à própria sorte, só restava aos seus esquálidos e famintos habitantes o apego aos mistérios da fé. Eis que surgiu o carismático Antônio Conselheiro, trajando inconfundível vestimenta, representada por um camisolão azul, sem presilha na cintura. nas mãos levava um cajado, como os profetas, os santos, os guiadores de gente, os escolhidos, os que sabem o caminho do céu. 

Dentre as 15.000 pessoas que morreram em combate, destaca-se um caraubense, de tradicional linhagem, o alferes João Mafaldo de Oliveira Praxedes. Terceiro filho do segundo consórcio do Cel. Vicente Praxedes Benevides Pimenta, nasceu em 26.01.1864, na residência de seus pais, em Martins –RN. 

Verificou praça em Natal, no 34º Batalhão de Infantaria, no posto de Cadete, em virtude da alta patente que seu pai exercia na Guarda Nacional durante o regime monárquico, onde serviu durante anos em completa paz naquela guarnição, sendo estimado por seus superiores e admirado por seus subalternos, dada sua correção, nobreza, sinceridade de caráter e bondade de coração. 

Eclodindo a revolução no Rio Grande do Sul, foi transferido para o 27º Batalhão de Infantaria, que servia naquele Estado, e, como tal, teve de seguir para incorporar-se às forças que ali se achavam em operações de guerra. Pela performance com que se conduziu nessa campanha, e pela honradez com que se portou no ofício de militar, foi elevado por atos de bravura para o posto de Alferes, tendo por tal forma captado a confiança e a estima dos seus superiores hierárquicos. 

Por tais atributos, mesmo depois da pacificação, continuou naquela guarnição, não tendo que voltar a incorporar-se ao seu batalhão – o 3º de Infantaria em Natal. 

Quando, mais tarde, rebentou a Guerra de Canudos, João Mafaldo já pertencia à guarnição do 30º Batalhão de Infantaria, o que o fez bater-se, mais uma vez, pela pátria e pela República, em defesa dos quais faleceu no memorável  combate do dia 18 de julho de 1897. Fazia parte da quarta e última expedição ao arraial de Canudos, comandada pelo general Artur Oscar de Andrade Guimarães. 

No dia em que morreu João Mafaldo, o jornal “O País”, do Rio de Janeiro – um dos principais da então capital federal –, publicou, numa referência a Antônio Conselheiro, em que se lia: 
“O Monstro, ao longe, nas profundezas do sertão misterioso, escancara as guelras, insaciáveis, pedindo mais gente, mais pasto de corações republicanos, um farnel mais opulento de heróis...”

João Mafaldo compunha a força avassaladora de 5.000 homens, reunidos para vencer os sertanejos de Canudos. Depois de um mês de combate, dos 5.000 soldados, 900 estavam fora da luta, mortos ou feridos. Por conta própria, e ao risco de cair nas numerosas armadilhas dos sertanejos – como de fato muitos caíram, os soldados organizavam grupos para caçar bodes ou o que houvesse para comer. 

Há duas faces da história de Canudos: de um lado a paixão patriótica dominada pela insânia, em que soldados praticavam a degola, levando homens de braços atados para trás, como criminosos..., indefesos, para a seguir levantar-lhes pelo nariz a cabeça, como se fora a de uma ave, e cortar-lhes o pescoço, deixando cair a cabeça sobre o solo, como se fora um ato nobilitante. Por outro lado, o irredentismo dos “fanáticos” sertanejos, beatos feito jagunços, travados na defesa do quase indevassável reduto da fé, amalgada pelo perturbador da história do Brasil. 

Diante da realidade do Brasil – de Canudos, de cem anos atrás e do Brasil de hoje, resta-nos uma certeza: a de que continua a existir dois Brasis – o dos pobres(nordeste brasileiro) e o dos ricos (estados do norte e sul) pelo menos até provar o contrário. 

Por Marcos Pinto – historiador, advogado e Presidente da Academia Apodiense de Letras(APOL).

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