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quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Retratos de saudades(VII) - O Cine Odeon - Por Marcos Pinto


Eu não sei porque a gente cresce, se não sai da mente essa lembrança". (ATAULFO ALVES).

A Comunhão silenciosa com o passado da nossa terra e com a história de nosso povo conduz a nostálgicas meditações. As conclusões revelam a dura e pungente realidade de que as coisas boas que nortearam o nosso passado, contagiando-o, já não mais existem. Vivemos a idade das recordações e esperanças meeiras no futuro. O indiferentismo da juventude às coisas de outrora revela-se ameaçador às tradições orais, transmitidas de geração à geração. Quando tive o indescritível prazer em assistir, pela primeira vez, uma película cinematográfica (filme), tinha ai por volta de seis a sete anos de idade. A garotada da minha época vivia um ócio bem-aventurado de corpo e alma, sentindo pulsar lento e compassado o coração livre e solto de todo empenho. As nossas ocupações resumiam-se a banhos na nossa Mãe-Lagoa, geralmente de forma fugitiva, sem autorização dos pais, e frequentar a escola, que se resumia a uma só - o Grupo Escolar "Ferreira Pinto", à época instalado onde hoje o Colégio Gerson Lopes desenvolve suas atividades.

O nosso saudoso CINE ODEON foi instalado pelo dinâmico empresário Altino de Paiva Dias por volta do ano de 1966, ocupando o espaço daquele sobrado da Rua João Pessoa, ao lado da casa de dona Armandina Lopes, genitora do erudito professor Robson Lopes. Imagine-se a importância atribuída a empreendimento cultural (Cinema) numa cidadezinha do interior, onde 80% de sua população residia na zona rural ? Onde o maior grau de estudo ofertado na cidade resumia-se ao Curso Ginasial ?. A tranquilidade das ruas era tanta que o tempo parecia ser medido em conta-gotas. Nos dias de Domingo havia matinês com um programa de auditório denominado de "DOMINGO ALEGRE", comandado pelo desenvolto e inteligente José Vandilson Diógenes.

No contexto do desenrolar das cenas urbanas, o CINE ODEON marcava o paralelo entre o mundo de ficção e a realidade provinciana com suas imagens cotidianas, quase sempre monótonas e repetitivas. Guardo na retina da saudade as emoções gravadas na alma do tempo, pelas emocionantes cenas e enredo de dois filmes que marcaram o tenro menino de sete anos de idade. Refiro-me aos filmes "CORAÇÃO DE LUTO", com os atores Teixeirinha e Mary Terezinha, e o não menos famoso filme "O ÉBRIO", protagonizado por Vicente Celestino e dirigido por Gilda de Abreu. Outro que também marcou época foi o filme DIO COME TI AMO, que tem como atriz principal a cantora italiana Gigliola Cinquetti. Todos esses filmes obtiveram retumbantes sucessos de bilheteria. A projeção dos filmes era feita pelo Sr. Gabriel Leite de Amorim, comumente conhecido como "Gabriel Fotógrafo". Quando ocorria a quebra da fita (ruptura) a platéia se assanhava e aja vaias e assobios, seguidos de gritos de exclamação: "Olhe o roubo !... Olhe o roubo !". O burburinho só parava quando o filme recomeçava. Os filmes mais solicitados e exibidos eram os de TARZAN, interpretado pelo atlético ator Johnny Weissmuller ; "O ZORRO" , filme espanhol (1964) interpretado pelo ator Frank Latimore. Havia, também, a predominância da exibição de filmes de Faroeste, destacando-se os filmes interpretados pelo famoso ator Giuliano Gemma: DJANGO , A VOLTA DO VINGADOR; DÓLAR FURADO e DJANGO ATIRA PARA MATAR. Destacavam-se, também, os filmes interpretados por Terence Hill - TRINITY É O MEU NOME, e MEU NOME É NINGUÉM, em que ele tem atuação ao lado da atriz Jane Fonda.

Em 1968 o CINE ODEON foi instalado em um novo prédio que Sêo Altino construiu por trás da casa dele, por onde se tinha acesso ao cinema. As exibições ocorriam a partir da Quinta-Feira. Uma hora antes da exibição do filme, Sêo Altino acionava a radiola rodando músicas de LPs do cantor Nelson Gonçalves e até de Elvis Presley, cantor muitíssimo admirado pelo mesmo, o que motivou que desse o nome de Elvis a um dos seus filhos. As músicas eram transmitidas através de duas potentes "bocas de alto falantes" postadas em cima da fachada de sua casa. As músicas eram interrompidas para o anúncio do filme em tela, cuja divulgação era feita por Sêo Altino, e em algumas oportunidades pelo saudoso Durreco de Sêo Raimundo da Luz. Antes da exibição do filme, os telespectadores aglomeravam-se ao redor da Cigarreira "A Bacurinha", onde compravam cigarros, confeitos, chocolates, saquinhos de pipoca etc.

Já aí por volta do ano de 1973 o CINE ODEON passou a ter a sua terceira e última sede, em um vasto prédio com pavimento superior, construído com recursos próprios de Sêo Altino, situado alí ao lado da quadra de esportes do Clube A.C.D.A. Com a desativação do cinema, esse imóvel passou a sediar a concorrida "Boite Savana". Atualmente sedia a "Central do Cidadão", após ter passado por reformas e ampliação.

A dinâmica iniciativa de Sêo Altino Dias em dotar a cidade de um cinema o projetou ainda mais no conceito dos apodienses, que sempre viram nesse Umarizalense filho de apodiense (Sêo Emídio Dias) com uma Portalegrense (Dona Joana Paiva) um homem de caráter e envergadura moral, alavancador do progresso da cidade e do município. Empreendedor por excelência, instalou fábricas de móveis e de calçados, proporcionando emprego e geração de renda a muitas famílias. Quando empenhava a palavra, empenhava também a honra. Apodi e apodienses lhe devem um tributo de agradecimento pelo muito que dedicou de sua vida ao desenvolvimento da amada terra do guerreiro indígena Itaú.
Somos todos fantasmas do próprio passado. Temos a identidade e a vida intensa do nosso universo provinciano. INTÉ.

                    Apodi  de  São  João  Batista  e  Nossa  Senhora  da  Conceição,  09.09.2014.

Por Marcos Pinto - historiador e advogado apodiense. 

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