Pesquisar neste blog

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Retratos de saudades(VI) - A Bacurinha - Por Marcos Pinto

                                                         
       A  antiga popular cigarreira "Bacurinha"
                                                            
EVOCAR O PASSADO DA MINHA TERRA É VER CADA CONTERRÂNEO(A) NA GERAÇÃO DA ALMA DO TEMPO. 

     
Tinha plena razão o grande pensador VICTOR HUGO quando afirmou que " A alma da terra passa para o homem". Nós, apodienses, somos famosos como empedernidos bairristas. Colocamos nossa alma por inteiro no combate à críticas que venham a ser objeto de menosprezo ao nosso querido torrão natal e à nossa amada gente. Somos um povo que traz na alma esperanças infindas, vontades sem nomes e anseios sem fim.

O processo de evolução de uma cidade passa por memoráveis etapas, que vão desde a ampliação da sua fisionomia física e estrutural, pelas suas edificações de imóveis residenciais e comerciais, até a simples construção de um humilde quiosque construído com madeiras da região. Nesse contexto envolvente, surge nas espirais do passado o aspecto simples do diminuto quiosque, fruto da laboriosa iniciativa de dona Francisquinha de Chico Tonico, isto por volta do ano de 1965. Confesso que não lembro se sua feitura foi efetivada no mesmo local onde até hoje se encontra, ou se foi feito em outro local e transportado até o seu destino final, onde foi devidamente instalado no canteiro central, ali em frente à casa de Sêo Altino Dias e à casa onde residia o velho Rodolfo Gama. O certo é que está emblematizado como uma das imagens que marcam o dia-á-dia da nossa amada cidade. Numa cidadezinha do interior, onde as movimentações populares resumiam-se à conversas nos tamboretes e cadeiras postados nas calçadas, logo o pequeno quiosque passou a ser o foco principal de afluência, principalmente da moçada, que para lá se dirigia com o intuito de comprar cigarros, confeitos (A elite chama de balas!) e chocolates. Procuro nos confins de minha memória e não consigo lembrar-me quem foi o(a) pioneiro(a) na exploração e venda nesse quiosque. O que sei é que tinha a referência inicial como sendo "A Cigarreira de Francisquinha de Chico Tonico".
       
Mexendo e remexendo o meu baú de saudades, encontro as imagens de outrora impregnadas na história de "A Cigarreira", integrada no ambiente e na vida cotidiana dos dias correntes dos anos de 1966 à 1974. Aí por volta do ano de 1967/1968 a "Cigarreira" foi alugada ao Sêo Raposinho e seu filho Olavo, que mandaram pintarem-na na cor azul-anil (ái novo hein!). Este último sempre foi inteligente e arguto na minudente observação das coisas do cotidiano. Eis que o Olavo, observando o diminuto tamanho do imóvel que estava sediando o seu empreendimento comercial, resolveu batizá-lo com o sugestivo nome de "A BACURINHA", cujo nome mandou pintá-lo no frontispício, com tinta-óleo de cor vermelha, dando, assim, um destaque todo especial. A maior afluência ao redor da "BACURINHA" dava-se, principalmente, durante os momentos que antecediam a exibição do filme no CINE ODEON, cujo acesso dava-se pela casa de Sêo Altino, situada exatamente em frente. Predominava um clima de completa interação naquele pedaço de venerado chão. Éramos habitantes de astrais realmente invisíveis, testemunhas de paixões, amores, alegrias, solidões encravadas nos escaninhos da sonsidão, desconfianças no amor, retraimento e indiferença pela vida alheia e própria. É bem verdade que, vez por outra, nos deparávamos com pessoas que tinham "pauta com o cão". O cenário era completava-se pela existência de um banco de cimento que dava para acolher e acomodar duas pessoas.

As cenas cotidianas desenvolvidas ao redor da "BACURINHA" assumem contornos sentimentais contagiantes. Ali, muitas despedidas emocionais selaram um amor sem fim no aconchego de um abraço, sob a proteção do escurinho reinante por tás da "Bacurinha". Naquela época, era pouca a luminosidade oriunda das lâmpadas da posteação pública, cujos postes eram todos de madeira da região, como carnaubeira e aroeira. A energia domiciliar e para a iluminação pública era fornecida pela USINA ELÉTRICA MUNICIPAL, cujos motores eram acionados e mantidos pelos abnegados Srs. Raimundo da Luz, João de Felipe e Zé da Carritela (José Soares de Macedo, nobre assuense, mais apodiense do que mesmo muitos que não zelam pelo nome da terrinha !). Geralmente, a "Bacurinha" só era aberta à noite, aproveitando a afluência dos que iam assistir às películas cinematográficas exibidas no CINE ODEON, em preto e branco e em Tecnicolor, como muito bem frisava Sêo Altino no alto-falante postado em cima da fachada de sua residência.

Há dois fatos que marcaram os anais existenciais dos que viveram a contemporaneidade do auge da cigarreira "A BACURINHA": Todos os anos, havia uma comemoração à festa do Judas (À meia noite da Sexta-Feira Santa para o Sábado), quando então faziam um estardalhaço danado para a consumação da condenação e enforcamento do boneco que encarnava o Judas Iscariotes. Esse espalhafatoso evento dava-se com o encerramento durante a madrugada, quando então fincavam um tronco de carnaubeira exatamente ao lado ou atrás da "Bacurinha", em cujo tronco era enforcado o traiçoeiro Judas Iscariotes. O clarear do dia trazia, junto com o Judas pendurado e enforcado, um misto de espanto e admiração aos meninos que residiam no famoso "Quadro da Rua". Havia o diferencial de que o boneco que simbolizava a figura do Judas Iscariotes era confeccionado de forma caprichosa, com o corpo gordo e bem vestido, à rigor, com um vistoso paletó preto, camisa com mangas compridas e gravata no pescoço. Lembro-me que havia ano em que exageravam na comemoração, posto que eram disparados tiros de revólveres "nos peitos" do inditoso boneco/Judas. Após a condenação do Judas, era lido um testamento, ocasião em que o defunto Judas deixava bens em nome de alguns dos festejantes. que eram por demais engraçadas.

Para nós, que vivemos aqueles bons e antigos tempos, resta a certeza de que a felicidade não está onde a procuramos, mas na simplicidade das pequenas coisas ao nosso redor. O segundo fato consiste em que, alguns astutos garotos da minha época deixavam para comprar seus confeitos e chocolates somente à noite, quando a "BACURINHA" estava sob o comando de Sêo Raposinho. Tal estratégia ligava-se à realidade de que, pela adiantada idade, estava "com as vistas curtas", o que facilitava o ludibrio para "passar notas de duas cabeças", (cédulas de dinheiro) que era pagar com uma nota remendada com pedaço de outra nota, devidamente colado com um pedaço de fita adesiva incolor de nome Durex. Só que, às vezes, essa estratégia "não colava", pois Sêo Raposinho sacava o óculos de grau (Lentes grossas) do bolso da camisa e verificava atentamente a integridade da cédula de dinheiro. Quando constatava que a nota era remendada com pedaço de outra nota, devolvia ao portador e dizia: "Menino, vá pegar outra nota, pois essa aí não serve, pois tá truncada". Tempos depois, a "BACURINHA" foi alugada ao amigo Ivan Nogueira, atualmente funcionário da Caixa Econômica Federal.
      
" Todo nós temos uma chave, só nossa, que abre e fecha as portas da alma e do espírito, do nosso equilíbrio, sentimentos, segredos, relacionamentos e interior". Costumo dizer que é preciso viver o cotidiano com a magia dos girassóis. Todos nós APODIENSES somos incomparáveis e únicos. Nossos olhos são seletivos. Buscamos, de forma contínua, termos atitudes e iniciativas que possam ir de encontro às coisas boas. Enxergamos com os olhos do coração, com a certeza de que o preço da honestidade é a eterna tranquilidade da consciência. INTÉ MAIS VER !.

     Por Marcos Pinto. (08.09.2014).

Nenhum comentário: