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sábado, 27 de setembro de 2014

Chico Santino, Quincas Amarelo e Zé Messias

A narrativa de entreveros travados nos sertões oestanos daria para constitui um inédito filme de faroeste. Em certos momentos assumem contornos de tragicomédias, em que se misturam arremedos de valentia e lances hilariantes. Não raro, as imagens cotidianas são “quebradas” em sua mesmice, com incautas manifestações de atos oriundos de personagens tipo “treme-terra”. 

Sequenciando a descrição de atos eivados de coragem, esposados nas pessoas de Deca Cavaco e Zé Messias, faz-se necessário fazer inserção, neste mesmo contexto das pessoas de Quincas Amarelo e Chico Santino, o primeiro residente, à época na zona urbana do Apody; e o segundo, residente ainda hoje no Sítio “Santa Rosa”, do mesmo município.

Coronel Benedito Saldanha 
Após a contenda de Zé Messias e Benedito Saldanha, por questão de compra de ouro das moças celibatárias, restou configurado o rancor que o famigerado Saldanha passou a nutrir em relação a Zé Messias. Após tal incidente, Zé Messias passou a residir na várzea, ao lado de uma estrada que começa em Caraúbas e ramifica em direção Apody e Felipe Guerra, á época denominada “Pedra das Abelhas”, reduto do senhor Tilon Gurgel e de toda Gurgelada hoje espalhada. 

Era costume de Benedito Saldanha transitar pelas várzeas do Apody, em seu automóvel conhecido como “baratinha”, dirigido por um dos seus capangas/jagunços. Não satisfeito com a humilhação sofrida, eis que Benedito resolve investir sobre Zé Messias. Sabedor do exato local da residência do mesmo, determina que o motorista da “baratinha” siga na direção da casa de Zé Messias. Chegando lá, encontra-o tirando o couro de um bode, tarefa que estava a concluir. Estacionado o veículo de Benedito, em cujo interior encontravam-se três capangas/jagunços, ato contínuo Zé Messias é convocado à presença de Benedito, que, faustosamente aboletado, solicita que o mesmo entre no automóvel. Desnecessário dizer que atitude de Benedito resumia-se em testar, mais uma vez, a valente de Zé Messias, que, sem mais “perrepes”, limpa a faca, amoladíssima, aliás, com a qual abatera o bode, sangrando-o, tirar o couro do bode, entrando no veículo do seu desafeto. 

Tornar-se necessário, pois, frisar que a argumentação usada para a convocação de Zé Messias era de que o mesmo ensinasse uma nova estrada, que supostamente Benedito pretendia percorrê-la. Ao sentar no banco traseiro do veículo, foi-lhe apontado um lugar entre dois jagunços, o que não atingiu em nada a conduta impassível de Zé Messias. 

Percorrido o trajeto, deliberou-se parar, de inopino, o automóvel. Demonstrando admiração por Zé Messias, resolve Benedito confessar que realmente reconhecia nele (Zé Messias) um legítimo cabra macho, pois em nenhum instante temera ser trucidado pelos capangas que o ladeava, ouvindo como resposta que nunca temera a nenhum “pantim”, partisse de onde partisse. 

Chico Santino 
Seu Chico Santino, quando jovem, vendia louça (panelas, bules, xícaras – todos feitos de barro trabalhado artesanalmente), sendo certo que no dia da feira em Caraúbas para lá dirigia-se tangendo seu burro com os caçuás cheios de louça. Certa feita, ao se dirigir àquela cidade, eis que surge, repentinamente, na curva da estrada, a famosa “baratinha” de Benedito Saldanha. Como vinha em acentuada velocidade, não teve como evitar a colisão com o burro, carregado de louça, que se quebrou toda.
Chico Santino ficou irado com tal incidente. Ao ver parar o veículo causador do estrago com seu material, decidiu resolver, a sua maneira, o inusitado acontecimento. Saca de seu revólver, e sem hesitar, encosta o cano da arma na cabeça de Benedito. Ante tal imprevisto e, não tendo outra saída, resolve Benedito pagar o prejuízo causado, cumprindo assim sua obrigação.

Ao chegar no Sítio “Água Fria”, precisamente na casa de Enéas Barbosa, é este inquirido por Benedito sobre se o mesmo sabia informar “quem era um cabritinho vermelho, atrevido, que vendia louça, e que ousara apontar-lhe um revolver”. “Seu” Eneas responde tratar-se de um parente seu, muito esquentado, apesar da pouca idade. 


“Seu” Quinca Amarelo exerceu várias funções – de alfaiate a sapateiro, de sapateiro a coveiro, esta a atividade que exercia ao falecer, por volta de 1955. O apelido deve-se ao fato de que, quando jovem, foi para os seringais do Amazonas, onde contraiu a famosa maleita ou malária, o que lhe deu coloração amarelada no rosto de homem trabalhador, de mãos calejadas. 

Como toda cidadezinha do interior que se preza tem os seus famosos rapazes “presepeiros”, Apodi não deixou a desejar. Conta-se que dois rapazes daquela urbe, sabedores da famosa valentia de seu Quinca – quando moço - , resolveram testar essa valentia que tanto se alardeava pelo Apody. 

Àquela época, a iluminação elétrica era oriunda de uma usina de força e luz. Costumeiramente, a energia cessava às 22 horas, ficando a cidade entregue à claridade dos lampiões e lamparina, isto no âmbito das residências. 

Adredemente preparados, eis que os jovens esconderam-se perto de uma vereda que passava entre matapastos, na perifeira da cidade, aguardando a passagem do seu Quinca. Sob escuridão total, ou semitotal, surge seu Quinca, assobiando calmamente. De reente os rapazes acossam-no com supostas facas, ao mesmo tempo que perguntam ao ancião onde ele quer que comecem a furar. Sem pestanejar, seu Quinca responde que comecem a furar no c... da mãe. Desde esse dia, nunca mais duvidou-se da outrora valentia de seu Quinca, posto que ele, depois de velho, ainda a conservava em sua índole. 
Dentre os bravos apodyenses, fica o exemplo de Quinca Amarelo, Chico Santino, Zé Messias e Deca Cavaco. 

Por Marcos Pinto - historiador, advogado e Presidente da Academia Apodiense de Letras.

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