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sábado, 9 de agosto de 2014

Tipos populares de minha amada Apodi(I) - Edite Pêi-Pôu - Por Marcos Pinto

Edite Pêi-Pôu
"Os tipos populares das cidades interioranas representam a alma das ruas em perene interação com as imagens cotidianas" (Marcos Pinto).

Na expansão da coletividade surgem, não raro, situações esdrúxulas e hilárias personificadas em pessoas que trazem consigo diferenças comportamentais, que os destacam no contexto do desenrolar de fatos que marcam o cotidiano, de forma indelével. Tais protagonistas são comumente conhecidos como sendo os famosos "Tipos Populares", contagiantes do espírito integrante da coletividade. Costumo dizer, de forma reiterativa, que toda cidadezinha do interior que se preza tem em seus exóticos personagens, referenciais inconfundíveis em termos de assédios sentimentais. São figuras exponenciais que se destacam por suas ligações nostálgicas em homens e mulheres que, de uma forma ou de outra, marcaram o ócio bem-aventurado da nossa infância.

No contexto dos ditames psíquicos das tradicionais famílias sertanejas, há fatos amalgamados na tradição oral atestando que vetustos componentes enveredaram por liames comportamentais nada recomendáveis em termos de conduta personalística. Não raro, atribuíam-se a distúrbios psíquicos que fugiam às severas regras das convenções sociais. No caso da nossa personagem, atribui-se à predominância familiar de inúmeras incidências de componentes que caíram numa depressão de espírito que tocava as raias da loucura.

A nossa saudosa EDITE LEITE NORONHA, popularmente conhecida como EDITE PÊI-PÔU descendia de duas famílias tradicionais do rincão Oeste potiguar - FERREIRA LEITE e NORONHA. Essa certa nobreza proporcionou-lhe o usufruto das condições peculiares à chamada classe média. Edite foi registrada como sendo EDITE LEITE NORONHA. Nasceu naquele casarão senhorial onde residiu o Sr. TIÃO PINTO, à rua Nossa Senhora da Conceição, a 28 de Agosto de 1913, filha legítima do Sr. Frutuoso Américo de Noronha, antigo carcereiro público e funcionário público municipal, e de Maria dos Anjos Ferreira Leite. Contam prezados conterrâneos octogenários, que a Edite quando adolescente infligira vários martírios físicos à sua genitora, tais como picá-la com uma agulha de costurar, e queimaduras com pontas de cigarros, sofrimentos impossíveis de serem contidos pela sua mãe devido seu adiantado estado de senilidade (Caduquice). Acredito que esse inconcebível comportamento da Edite já era reflexo de sua falta de sanidade mental. Era tia materna de Tião Pinto, ou seja, era irmã da avó paterna de Klinger Pinto.

O falecimento dos seus genitores acentuou-lhe os assédios da loucura, levando-a a vagar pelas ruas do famoso "Quadro da Rua", que é aquela parte do centro da cidade que compreende as casas que ladeiam a Igreja-Matriz e a Praça Getúlio Vargas. Era comum vê-la falando sozinha, altas horas da noite, imersa na escuridão e no silêncio sepulcral da então pacata cidade de Apodi, como também em noites de lua cheia. Naquela época, o tempo parecia ser medido em conta-gotas, tão grande era a tranquilidade reinante. Dizia-se que até se podia andar pelado depois da meia noite que ninguém dava notícia, pois não havia viva alma transitando nas ruas. E por falar sobre esse saudoso tempo, me vem à lembrança um fato pitoresco protagonizado pelo primo Itamar Maia, cujo fato me fora relatado pelo meu saudoso pai Geraldinho de Aristides Pinto. No início do ano de 1952 o meu pai estava recém-casado com minha autora dona Santina, quando por volta da meia noite acordaram sobressaltados com a voz alta de Itamar, muito embriagado, que se fazia acompanhar por uma mulher de vida livre (prostituta) determinando à mesma que marchasse em cadência de desfile militar na calçada da residência: Atenção ! Marche ! um, dois, um , dois, um dois !. Movido pela natural curiosidade, meu pai abriu um pouquinho a porta da frente e pode ver o primo Itamar Maia apontando o revólver para a assustada mulher, que estava totalmente despida. Ocorre que minha mãe também quis ver a estranha cena e seus protagonistas, ocasião em que meu pai advertiu-a para que não visse, pois se tratava de Itamar bêbado com uma prostituta totalmente pelada, e desfilando sob coação de uma arma de fogo apontada para ela. Satisfeito em sua presepada, o Itamar logo partiu para outro destino.

A Edite Noronha tinha a matraca sempre presente em seu conhecido tumulto sonoro, repleto de palavras de baixo calão. A origem do apelido PÊI-PÔU atrela-se a um fato ocorrido por volta do ano de 1955. Como habitante das ruas desertas imersas na escuridão da noite, a Edite perambulava pela Rua Tiradentes, aí por volta da meia noite, sem emitir qualquer palavra. Ela estava na hora errada, no local errado. Ocorre que o motorista do Caminhão do Coronel Lucas Pinto, Sr. Abel Medeiros, popularmente conhecido como Abel Pé-de-Quenga, havia chegado de viagem há cerca de duas horas, e após jantar, postou sua cadeira do tipo "Espreguiçadeira" na calçada, para usufruir do frio da noite. Era ele natural da cidade de Remígio-PB, onde tinha muitos desafetos, conforme sempre afirmava. Ao ver um vulto caminhando em sua direção, temeroso perguntou quem era, recebendo um silêncio como resposta. De imediato sacou do seu revólver e fez um disparo de alerta, apontando para os tijolos da sua calçada, que não era cimentada. A bala ricocheteou no tijolo e foi alojar-se na virilha da doida Edite , sendo certo que ao ser atingida a Edite prostrou-se no chão, ao mesmo tempo em que gritou : Abel, você me baleou. Ao reconhecer a voz da Edite, o Abel jogou o revólver sobre a "espreguiçadeira" e foi socorrer a Edite, deixando-a sob os cuidados de sua esposa, tendo ido imediatamente à residência do Coronel Lucas Pinto, onde após narrar o incidente, conduziu o caminhão para sua residência, e de lá seguiu para Mossoró, onde a Edite foi submetida a cirurgia bem sucedida, sem correr riscos de morte.

Como tudo que acontece de estranho/ pitoresco nas cidadezinhas do interior passa a ser referencial nas conversas de esquinas, logo a doida Edite passou a sofrer achincalhes de gaiatos e de meninos traquinas, que ao vê-la passar resmungando palavras desconexas, de bate-pronto lhe perguntavam:

- Pêi-Pôu, cadê Abel ?.

- Tá no rabo da rapariga sua mãe sêo fresco ! respondia a doida, profundamente irritada, continuando o palavrório esculhambatório. Esses achincalhes e provocações acabaram por levá-la a mudar sua residência para Mossoró, onde após vagar cerca de um ano pelas ruas, foi internada por parentes no Abrigo de idosos Amantino Câmara. Como era fervorosa eleitora de Aluízio Alves, só andava vestida com roupas verdes. Em Mossoró passou a ser conhecida como "Perereca". Faleceu em Mossoró por volta do ano de 1989.

Por Marcos Pinto - historiador e Presidente da Academia Apodiense de Letras  (08.08.2014).

Um comentário:

Antônia Marli de Oliveira disse...

Parabéns Marcos Pinto! A matéria sobre Edite Péi Pôu, ficou perfeita. Você conseguiu colocar tudo que, realmente aconteceu e como ela reagia!Um abraço.