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domingo, 6 de julho de 2014

Um orador da terra

No ambiente da paisagem humana do Apodi, cidade pequena, onde se conhece a vida de todos e de cada um, convivem pessoas das mais diferentes tendências e manias. 

Assim é que, neste convívio, existem os que aspiram coisas que não podem alcançar, e os que tentam posições para as quais não estão devidamente preparados. Às vezes, o fazem por mero estado de excitação, por manias, sem ambições premeditadas. 

O nosso popular Tião do Bombo, ex-músico, dono de algumas profissões durante o trajeto de sua vida, hoje comerciante, não perdia oportunidade para um discurso de improviso. Fosse qual fosse o ambiente, se lhe dessem oportunidade, lá estava Tião na tribuna discursando. 

Certa vez foi bastante infeliz, num dos seus discursos, quando saudava o padre Raimundo Leão, numa festa de Malhada Vermelha. O povoado de Malhada estava no auge de sua fama social, econômica e política, no tempo em que ali imperava o político Chico Ferreira, dono daquelas terras. 

A Banda de Música do Apodi, da qual Tião fazia parte, animava uma festa religiosa naquela localidade, e, na oportunidade, fazia uma manifestação ao vigário da paróquia, recém-chegado na terra. 
Sensibilizado, com aquela manifestação de apreço à sua pessoa, o padre Leão usou da palavra, exaltando as qualidade da velha charanga do Apodi, que tinha na pessoa de Porfírio Generoso Dantas, seu dedicado maestro. 

Ao agradecer o discurso do padre, naquele instante, Tião lembrou-se de uma frase que ouvira num júri, em Apodi, quando um advogado, dirigindo-lhe ao promotor, dizia “Excelentíssimo senhor Promotor, Nobre Órgão da Justiça Pública”. 

Tião achou bonita aquela Frase, e na introdução do seu discurso, dirigindo-lhe ao novo vigário da Paróquia, assim falou: “Reverendíssimo Padre Leão, Nobre Órgão da Justiça Pública”. O padre riu, mas, Tião ingenuamente continuou na sua oração que, não obstante o disparate inicial mereceu palmas no fim. 

Terminada a homenagem prestada ao vigário, o músico Tião foi advertido por um colega, que lhe explicou: “Tião, a expressão: nobre órgão da justiça pública, é para promotor. Não se aplica ao padre”. 

Tião olhou o colega, mediu o tamanho do seu erro, encabulado, e fez esta observação”Não posso mais olhar para esse padre”.
Fonte: "Histórias e Vultos de Minha Terra" - Válter de Brito Guerra(1985). 

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