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sábado, 19 de julho de 2014

Um ex-vaqueiro pau pra toda obra

Proprietário de terra no Sítio “Barro Branco”, homem de bons costumes, o Velho Chagas Pequeno pediu ao barbeiro para executar depressa, o trabalho de higiene pessoal que estava necessitando. Tinha sério compromisso naquela noite – não podia faltar. 

Mestre Chico virou o surrado travesseiro que estava sobre a antiga cadeira de barbeiro, colocou-a de frente para o espelho pregado na parede, e ligou o ventilador. Ajeitou a tolha branca resguardando, sobre a esparsa e grisalha cabeleira do ancião, a afiada máquina de cortar cabelo. 

Arrisquei uma pergunta, para saber a idade daquela interessante máquina de uso manual, que Mestre Chico manejava com admirável habilidade. “Foi comprado em 1940, é de marca alemã, não se acaba”, respondeu o barbeiro, orgulhoso de possuir aquele instrumento de trabalho, importado de nação estrangeira. 

Sessenta e sete anos de idade, quase cinquenta de profissão, Mestre Chico não evoluiu na arte de cabeleireiro. Seu sistema é o mesmo, antiquado, não acompanhou a moda. Adota o mesmo modelo de quarenta anos atrás, no corte de cabelo. Possuindo uma numerosa freguesia, quase toda ela é constituída de pessoas idosas. Pelos serviços prestados, cobra de acordo com as possibilidades financeiras do freguês. Calmo e atencioso, Mestre Chico tem prestado, ao longo de sua atividade profissional,  valioso serviço à gente pobre de sua terra. 
Cabelo cortado, barba feita, Chagas Pequeno mostrava-se, realmente, menos velho. Mestre Chico agarrou o vaporizador abastecido de álcool, e preparava-se para borrifar o rosto do seu mais assíduo e pontual freguês, quando este falou: Álcool não, queima demais. Minha pele não aguenta mais esse danado queimador”.

De fato, pessoa arruivada, pele pigmentada de sardas, o velho tinha razões de sobra, para recusar o álcool naquele instante. Mestre Chico quis justificar, dizendo que o “álcool é medicinal, mata os micróbios”. 
Com melhor aparência pessoal, após o caprichoso trabalho do competente barbeiro, o velho Chagas mostrava, ao mesmo tempo, mais nítidas, as inúmeras rugas que cobriam seu rosto de figura octogenária. 

Mestre Chico abriu um fiteiro já estragado pelo tempo, retirou alguns vidros de perfume, mostrou ao estimado freguês, explicando: “Cheiro da melhor qualidade – Ama de Flores – chegado de São Paulo. Vendo em retalho, também por medida(dedal), para quem vai dar uma volta, por aí, é bom usar. As mulheres gostam até demais”. Chagas Pequeno pegou um dos vidros, olho-o com muita atenção e curiosidade, encostou o frasco no nariz vermelho, e mandou encher uma medida com perfume, pela quantia de mil cruzeiros. 
A uma pergunta sobre sua idade, o proprietário de Barro Branco abriu um riso desconfiado, mostrando uma dentadura miúda e estragada, respondeu ironicamente: “Completa oitenta anos em fevereiro. Fui vaqueiro durante muitos anos. Peguei tempo bom, vi muita fartura, comi bem, muito queijo, muita coalhada, leite e carne seca. Nunca tive doença, não bebo nem fumo. Por isso, graças a Deus, sou forte ainda, “pau pra toda obra”. Justificava o velho Chagas, com esses argumentos, sua propalada forma física, na qual poucos acreditam. 
Não obstante sua idade avançada, Chagas Pequeno ainda executa trabalhos pesados, limpando de enxada, arrancando toco, etc. 
Na ribeira onde habita e é conhecido, tem fama de mulherengo, fogoso, farejador de quintais nas horas mortas da noite, sem risco de erra a cancela procurada. 
O ex-vaqueiro saiu pra calçada da rua, olhou o tempo, como se estivesse indagando a hora, e sentiu que se aproximava o momento do compromisso assumido. Rumou em direção ao “Bar das Almas” e seguiu pela rua larga e comprida, certamente para mais uma aventura amorosa naquela noite. 

Fonte: Histórias e Vultos de Minha Terra - Válter de Brito Guerra(1985). 

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