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quinta-feira, 24 de julho de 2014

Retratos de saudades(V) - O emblemático "Pau do Amor 02" - Por Marcos Pinto

"Algumas pegadas são imunes às poeiras do tempo, mesmo quando sacudidas pelo 
vento da morte" (Antonio Noronha Pinto - TOM PINTO.).

É inquestionável o fato de que o cenário das ruas, becos, vielas, casas, casarões, prédios comerciais, igrejas e monumentos deixam rastros impregnados nas veredas da alma da infância e da adolescência. É assim que, revela-se no filme do inexorável tempo a imagem do monumento construído no ano de 1966, em comemoração alusiva ao bicentenário da criação da Paróquia de Apodi, fato histórico ocorrido a 03 de Fevereiro de 1766. Inobstante o fato de que o dito monumento nunca foi concluído, dava-lhe um aspecto até certo ponto rústico, com seus pilares a requererem um maior e mais refinado acabamento. É fato notório que seu espectro despertava um certo fascínio nos jovens que viveram a contemporaneidade dos anos de 1966 a 1980. Sentei-me muitas vezes naquele espaço histórico-sentimental, silenciosamente pensando na vida.

Quantos(as) jovens do meu tempo ficavam ali polarizados e intrigados, como se estivessem diante de um abissal mistério ?. É certo que o monumento estava encravado no mesmo local onde, no ano de 1856 fora edificado um imponente Cruzeiro em alvenaria, atualmente existente apenas nas fotografias antigas. Será que o mistério circundante das noites de silêncios ecoantes seriam oriundos do fato de que os antigos habitantes eram sepultados ao redor desse venerado Cruzeiro ?. No ano de 1966 foram feitas as escavações para feitura dos alicerces do monumento ao bicentenário da Paróquia, ocasião em que foram encontrados grande quantidade de ossos humanos, o que confirma o fato de que os antigos habitantes eram realmente sepultados no entorno do dito Cruzeiro. A existência desse vultoso número de ossos humanos foram-me relatado pelo então Mestre de Obras Caboclo de Manu, ainda vivo, lépido e fagueiro .

Essa espécie de monstrengo feito em cimento e ferro, passou a receber a denominação, por parte da juventude, de PAU DO AMOR 02. Era uma espécie de sucursal do amor oriundo do PAU DO AMOR 01, de onde afluíam os jovens para usufruírem do encosto dos pilares, que proporcionavam maior capacidade de aconchego para os braços e abraços instigantes da libido. A saudade dos meus namoros juvenis parece querer me puxar para esse passado, como se lá tivesse uma das pontas do meu cordão umbilical. Esse recordar compõe um mundo que não se acabou, mas que se prolonga na minha vida porque foi profundamente absorvido por todos os meus sentidos.

As inesquecíveis cenas de aconchegantes namoros protagonizados no âmbito do já famoso "Pau do amor 02", faz com que eu reconheça traços de uma geração afeiçoada daquele tempo, que sentia medo, se queixava, disputava, magoava, mas que também abraçava e agasalhava na hora da febre das precisões. Os momentos vividos foram todos absorvidos pela juventude inquieta, cheia de virtudes e significados. Nesse tempo de vida vivida nos meandros das nuances provincianas, não havia como se esquivar de inspirações que se realizavam na mais pura e sublime sensibilidade.

Há que se observar a minudência de que, até os últimos anos da década de 60 (1960-1969) a nossa amada e nunca esquecida Apodi era, ainda, a cidadezinha do interior onde o tempo parecia ser medido por um conta-gotas. E isso a tornava mais encantadora e mais atraente em seus mistérios oriundos da mesmice das imagens cotidianas.

No contexto desse embriagante painel de saudades, o monumento/ PAU DO AMOR 02 permanecerá em nossas memórias como luminosa estrela no horizonte de nossas maviosas lembranças.

 Por  Marcos  Pinto - historiador e advogado apodiense(23.07.2014). 

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