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domingo, 13 de julho de 2014

O último sonho pra camelo

O jogo do bicho em Apodi teve sua fase áurea, nos anos de 1934 a 1939. João Siqueira, vindo de Caraúbas, foi o banqueiro naquela época. Era realmente contagiante o jogo do bicho em Apodi naquele tempo. Todos jogavam: homens, mulheres e meninos. Todos faziam sua fé. Podia faltar o alimento na mesa, para a família, mas, o dinheiro para jogar, sempre aparecia.

No meio dos infortunados do jogo do bicho, havia os felizardos, os privilegiados da sorte e dos sonhos, que acertavam e ganhavam dinheiro. Entre estes estava Domingos Tito, que tinha sonho certo para camelo, o que lhe proporcionou polpudos prêmios. Sonho que se tornara conhecido na região, ambicionado por todos. 

Certa noite, numa fase de aperto financeiro, Domingo teve o sonho. Pela manhã, na hora do café, com ar de quem estava mais disposto e esperançoso, Domingo perguntou discretamente à sua mulher: 
- Você tem algum dinheiro aí? 
- Não, respondeu a mulher. 
- Você teve o sonho? 
- Tive. Vou arranjar dinheiro para jogar, o sonho foi muito claro... é o camelo. 

A notícia logo se espalhou pela vizinhança. “Domingos teve o sonho”, diziam uns. “Vou arranjar ao menos duzentos reais para jogar no camelo”, comentavam outros. 
Naquela manhã esperançosa, chegavam muitas pessoas na casa de Domingos, entregando-lhe dinheiro para jogar no camelo. Finalmente, dirigiu-se à cidade. Ao passar na frente de uma residência, a dona da casa lhe perguntou: “Vai à rua Domingos? Disseram-me que você teve o sonho. Não mando jogar porque o dinheiro que tenho aqui é de Santo Antônio. São esmolas que deram os festejos do dia 13”. 
Uma pessoa que estava presente e ouvia a conversa, entrou no assunto e sugeriu: “Se fosse eu, tomava esse dinheiro emprestado a Santo Antônio e jogava no camelo, porque o sonho de Domingos não falha”. 

Induzida pela sugestão daquela pessoa e confiante no sonho, a mulher entregou certa importância a Domingos. E lá se vai ele rumo à cidade. Ao chegar à rua, encontrou o primeiro cambista, que logo lhe perguntou? “Vai jogar Domingos? Teve o sonho”? 
“É, mas não precisa alarmar, para não dar azar”, respondeu Domingos. 
E despejou todo o dinheiro que levava, dele e dos outros, no camelo. Era dia de quarta-feira, dia de loteria federal, em que o povo tinha mais confiança. Confiança pelo fato de ser federal. 

À tarde, como de costume, na frente do prédio dos Correios, muita gente reunida. Esperando o telegrama do Rio de Janeiro, comunicando o bicho sorteado, que logo foi entregue ao banqueiro. Momento de expectativa, de emoção. Sisudo, calmo, o homem foi desdobrando o telegrama e leu para os presente: “Camelo. Milhar: 1.532”. 
Tarde de alegria no arraial de Domingos, no outro lado da lagoa. Onde chegava a confortadora notícia:” Deu o camelo”. Mas o destino havia reservado para aqueles apostadores uma manhã infeliz, de tristeza. 
No dia seguinte, ao deparar-se com o cambista, este deu a Domingos a fatídica notícia: “Não encerrei seu jogo, houve um lamentável engano. Não incluí seu jogo na lista”!

Inacreditável. Não podia... Era um sonho o que Domingos ouvia naquele instante. estava em jogo sua dignidade, sua honra. A confiança que muitos lhe haviam depositado!  O que ia ele dizer a dezenas de pessoas que lhe haviam entregue dinheiro para jogar no camelo?  E o dinheiro de Santo Antônio, jogado no camelo? E o que tomara emprestado, também para jogar? Todas essas conjunturas atravessavam o cérebro de Domingos como se fosse um terrível pesadelo. 
Acabrunhado, triste, Domingos voltou pra casa, ouvido dos vizinhos palavras de conforto: “Você não teve culpa, vamos aguardar outro sonho”. Sonho que nunca mais voltou. 

Fonte: Histórias e Vultos de Minha Terra - Válter de Brito Guerra(1985). 

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