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quinta-feira, 10 de julho de 2014

O coveiro feroz


Feroz era o apelido de um velho coveiro, que viveu na cidade de Apodi entre os século dezenove e vinte. 

Dessa pouca invejável profissão, Feroz auferia pequena renda, levando vida difícil,  enfrentando problemas financeiros, queixando-se a Deus e ao mundo do reduzido números de mortes em Apodi. 

Outra situação, não menos incômoda para o antigo coveiro, era enfrentar os canalhas da cidade, apelidando-o, insistentemente, para vê-lo despejar palavrões. Um velho e tradicional costume da terra – apelidar pessoas, o que não é muito agradável. 

Assim vivia, revoltado com aquela situação de pobreza, desrespeito a sua pessoa, desejando a morte para todos. Costumava dizer que o “cemitério é o meu roçado. Vivo dele. Portanto, não posso penalizar-me de ninguém”. E enfatizava: “Desejo uma mortandade, para ganhar dinheiro e pagar minhas dívidas.

Certo dia cortaram-lhe o crédito na venda. Depois de repetidas tolerâncias, o patrão  alegou excesso de compra. A medida foi para o inditoso coveiro um duro golpe, trazendo-lhe maiores vexames. 

Enquanto isso, o índice de mortalidade no município continuava baixo, não permitindo a Feroz condições financeiras para saldar seus compromissos. 

Reaparecendo um dia na venda do seu patrão João de Deus, Feroz trouxe uma notícia para ele (Feroz) alvissareira. Certa pessoa rica do município estava às portas da morte, desenganado pelo médico, que viera de Mossoró exclusivamente para examinar o doente. E quando o tal médico desenganava um enfermo, podia encomendar o caixão. Satisfeito com o infortúnio alheiro, Feroz já havia estipulado o preço da cova – dez mil réis (moeda antiga). Dinheiro suficiente para saldar o débito do mau coveiro. 

Abriram-lhe novo crédito. Em função da notícia que, se agravada o coveiro Feroz, aos outros, não. Comprou algumas mercadorias e aguardou, ansiosamente, o grande momento. 

Como fazemos um plano e Deus faz outro, a pessoa que estava para morrer, desenganada, recuperou-se milagrosamente frustrando os planos e esperanças do antigo enterrador de defuntos que, dias depois, era defunto também. Morreu. Ficou no caderno a conta que ele não pôde pagar. Antes de morrer, justificava: “O manicipo é grande, mas, com um defunto por semana não posso pagar a conta. 

Fonte: Misturas de Frases e Palavras - Válter de Brito Guerra(1998). 

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