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sexta-feira, 4 de julho de 2014

Fumando na missa

Valentim Marinho, que Deus o guarde em bom lugar, era uma dessas pessoas inofensivas, de bons costumes, gozando de um excelente conceito no meio onde vivia. Ao lado dessas qualidades e virtudes, tinha a vaidade de ser civilizado, falante. E alimentando essa vaidade, tinha às vezes, frases curiosas e interessantes. Residia no Sítio Poço Vermelho, onde criava e plantava. 

Certa feita, o vigário da Paróquia celebrava missa numa casa particular, na zona rural. Assistindo ao Santo Ofício lá estava Valentim. Distraidamente, Valentim fumava junto ao altar improvisado, de tal forma que, a fumaça do cigarro, passava na frente do nariz do vigário. 

Padre Renato de Menezes, pernambucano, era homem temperamental, violento, chegando, às vezes, ao ponto de agredir pessoas. E naquele instante vendo a fumaça passar na frente do Santíssimo ali exposto, abreviou a missa e saiu procurando o autor daquele ato para ele desrespeitoso. Valentim não seria capaz de cometer uma falha daquela natureza, propositadamente. Ninguém informou haver visto o fumante. Todos negaram. Certamente para salvar Valentim, conhecendo o temperamento do Padre que, segundo diziam, era mais fácil faltar-lhe um breviário na mão, do que um revólver 32 no bolso da batina. 

Desanimado com o insucesso da pesquisa que acabara de realizar, procurando identificar o fumante, o vigário preparava-se para retornar à cidade, quando um rapaz, pedindo segredo e falando baixinho, denunciou o nome da pessoa que fumava por ocasião da missa – Valentim Marinho. 

Colérico, o Padre Renato saiu apressado, logo encontrando Valentim. Desabando, num ímpeto de raiva, foi dizendo: “Pensei que você fosse homem de palavra. Perguntei se tinha visto alguém fumando na hora da missa e você respondeu que não tinha visto, tendo sido você”. 

Tomado de susto, ante a aspereza das palavras do Padre, Valentim acalmou-se e respondeu: “Realmente, era eu quem fumava naquela hora, seu vigário. O senhor indagou se eu tinha visto alguém fumando. Como eu não me vejo, não vejo eu, a resposta certa, verdadeira, tinha que ser daquela maneira  - não vi ninguém fumando”. 

O Padre Renato ouviu a desculpa de Valentim, riu, e lhe disse: “Estãs perdoado”. Inteligência ou não, o certo é que, a resposta de Valentim o salvou de coisa desagradável. 

Fonte: Histórias e Vultos de Minha Terra - Válter de Brito Guerra(1985). 

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