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segunda-feira, 14 de julho de 2014

Chico Rodrigues - exemplo extraordinário de trabalho

Francisco Rodrigues Filho era o seu nome de batismo. Na intimidade atendia por Chico Rodrigues ou Seu Chico. Também era lembrado pelo indesejável nome de Chico Cego. Nasceu no Sítio Boa Vista deste município, transferindo-se depois para esta cidade. 

Pertencia a uma família predisposta à cegueira. Entre os 20 e 25 anos de díade, apagou-se a luz de seus olhos ficando completamente cego, o que representa para ele, um duro golpe para o seu futuro. 
Homem de espírito forte, capaz de enfrentar as adversidades da vida, Chico Rodrigues não se entregou ao desespero, enfrentando com otimismo a dura realidade. 
Com uma incrível força de vontade, procurou vencer aquela situação difícil, continuando a trabalhar com afinco nas suas atividades comerciais, enfrentando sérias dificuldades. Iniciou como comerciante ambulante – comprando, vendendo e trocando mercadorias, para depois se estabelecer com uma bodega no antigo mercado. 
A tenacidade, a persistência e o sendo de equilíbrio de Chico Rodrigues, considerando sua condição de homem cego, representa qualquer coisa de inacreditável. 
Sentando num caixão, em sua bodega, eu observava, com singular admiração, aquele homem gordo, pálido, despachando os fregueses que ali chegavam, só, sem auxílio de ninguém. 
Pesava, media, recebia dinheiro e passava troco; fazia pacotes, efetuava pagamento, e retinha na memória o fiado do dia, para depois mandar anotar no caderno. 

Metódico, de uma assiduidade fora do comum ao trabalho, abrindo e fechando estabelecimento no horário certo, Chico Rodrigues conseguiu uma situação econômica bastante razoável. Comprou propriedade, terrenos na cidade, e dispunha, naquele tempo, de dinheiro para emprestar a pessoas de sua confiança. 
O que causava admiração naquele homem cego, era a incrível facilidade que ele tinha, pelo tato, de conhecer as diversas moedas, de níquel e de prata, e as cédulas(notas) de qualquer valor. E ainda, a esmerada prática de medir e pesar com precisão. 
Nunca recebeu moeda falsas que circulavam na época. Pelo tato, as identificava com espantosa facilidade, devolvendo-as aos que tentavam enganá-lo. Costumava dizer, aos que lhe entregavam moedas falsas: “Esta aqui você vai passar a sua mãe”. 

Tinha a fama de linguarudo e falador. Não tinha papa na língua. Quando queria dizer, não mandava recado. Falava alto para todo mundo ouvir. Era temperamental. E, por isso, às vezes, tinha momentos de afobação. Certa vez, num acerto de contas com um soldado, Chico Rodrigues tentou agarrá-lo no balcão de sua bodega. O policial foi mais ligeiro, escapando dos fortes braços do exigente credor. Doutra feita, surrou impiedosamente uma mulher, por haver ferido sua honra. 

Era casado com Dona Eduvirgens Gomes da Silva. Parteira curiosa durante mais de 50 anos no Apodi, competente e prestativa. Eduvirgens atendia a quases todas as mulheres parturientes da cidade e vizinhanças, no tempo em que maternidade era para nós, nome desconhecido. Quando não estava dando assistências as mulheres que precisavam do seu trabalho, Eduvirgens, dedicava-se a tarefas mais pesadas. Cortava capim na vazante, carregava feixes enormes para o gado, plantava, limpa e colhia. 
Nunca faltou ao casal Chico Rodrigues – Eduvirgens, o espírito de união, o sendo de equilíbrio, o sentido de compreensão mútua, razão do êxito que alcançou no plano econômico-financeiro. 

Chico Rodrigues foi um extraordinário exemplo de trabalho persistente, equilibrado, lutando obstinadamente contra um defeito físico que não o venceu, nem o acomodou – a cegueira. Morreu em 1956, aos 76 anos de idade, depois de prolongada enfermidade. 

Fonte: Histórias e Vultos de Minha Terra - Válter de Brito Guerra(1985). 

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