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segunda-feira, 23 de junho de 2014

Retratos de saudades(IV) - O emblemático "Pau dos Amor" 01 - Por Marcos Pinto


Madrugada chegando e eu aqui ruminando saudades, num salutar e gostoso regurgitamento de pedaços de sonhos e ilusões, que um dia povoaram a cabeça de um rapazote provinciano. São imagens oriundas das esquinas do tempo, me espreitando pela janela do enlevo. Num colorido de sublime emoção, revejo o aprazível "Pau do Amor 01", palco de imensuráveis momentos de aconchegos incendiários da libido. Nessa espécie de território sentimental, os adolescentes do meu tempo espraiavam seus anseios e desejos nos ardentes beijos e abraços da ninfeta amada.

Esse Oásis sentimental era representado pelo espaço físico da calçada acolhedora, construída com a altura de meio metro, nas laterais e parte traseira daquele prédio situado logo atrás da nossa amada e sagrada Igreja-Matriz de São João Batista e Nossa Senhora da Conceição. São raros os adolescentes que, durante as décadas de 60 (1960-1969) e 70 (1970-1979) não tenha tido sua aula inaugural de namoro nesse reduto do amor.

Nessa memorável calçada (infelizmente já demolida) sentia-se um quê de mistérios e vulnerabilidades emotivas. Os encontros descambavam invariavelmente para a sensualidade incentivadora do que conhecemos popularmente como sendo um "sarro", que nada mais é do que o frenesi de dois corpos grudados "se roçando" assanhadamente. Não raro, essa caliente pressão emocional e física passava a constituir prática do cotidiano, logo na primeira semana decorrida. O que no início era timidez, em pouco tempo tornar-se-ia em fogo e paixão.

Predominava uma atmosfera reinante impregnada de perfumes e odor oriundo de suores, elementos instigantes da sensualidade dos corpos colados, em voluptuoso frenesi. O papel do olfato, em seres humanos, é inegável. Basta olharmos a milionária indústria dos perfumes. Entretanto, parece claro que as relações humanas são governadas por muito mais do que sinais químicos. Assim, o papel dos feromônios nas relações entre homens e mulheres tem sido alvo de grande controvérsia entre os pesquisadores. 
Nas jovens, desenrolavam-se emoções perturbadoras e conflitantes com as severas recomendações dos pais, preocupados com a manutenção da virgindade até o matrimônio, resquícios de arraigado conservadorismo. Muitas jovens se repreendiam intimamente diante a sensação da violenta excitação
que percorria seus corpos arfantes e carentes.

Ali, naquele palco de emoções nasceram muitos casamentos, mostrando aos enamorados que, tanto o medo quanto a desconfiança no entregamento total eram infundados. Quando não se tinha uma visão clara dos objetivos do rapaz, observavam-se olhos e olhares marcados por profundas inquietações. Muitas vezes os pais das moçoilas flagravam-nas em intensos "amassos", trazendo expressões graves no rosto, como uma espécie de advertência e reprovação. A franqueza e a honestidade do compromisso estavam entre as qualidades que granjeavam afeição, rumo a um iminente e célere matrimônio. Raramente ocorriam casos particularmente vexatórios, em que o desvirginamento não era seguido e reparado através do competente casório. O prédio do "Pau do Amor 01" sempre pertenceu ao nobre Apodiense e líder político Francisco Paulo Freire (Sêo Chico Paulo), e depois sediou a lojinha comercial denominada de "Apodi Center".
A estadia no "Pau do amor 01" era apenas um preâmbulo, uma vez que, terminada a missa noturna, os namorados desciam no rumo do "Jardim" (Atual Praça Getúlio Vargas), situado no largo defronte à Igreja-Matriz. Nesse desiderato, havia sempre referência metafórica a um segredo.

Por Marcos Pinto - historiador apodiense.

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