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quinta-feira, 12 de junho de 2014

Retratos de saudades(III) - Antigos coveiros do Cemitério São João Batista - Por Marcos Pinto

FOTO: Tomaz Tito.

"A Morte faz parte da vida, e a vida faz sentido na morte".

Personagens alheios às suas próprias existências e avessos às suas próprias importâncias, conforta-lhes a certeza de que no dia em que sucumbirem à morte não faltará quem lhes cave a cova, com a recomendação antecipada de que a mesma tenha a medida antiga com sete palmos de fundura. Atualmente, as covas não são cavadas no padrão antigo quanto à fundura, medindo menos de um metro.
Todos que visitam o Cemitério no feriado de finados encontram o local bem cuidado, limpo e pronto para receber milhares de pessoas. Essa organização só é possível por causa do papel dos coveiros que garantem a limpeza do espaço. Uma profissão que poucos conhecem e que mexe com os brios de quem está começando.

Na procissão do tempo, encontramos anotados nos confins da memória de antigos conterrâneos octogenários os nomes de todos ou quase todos os coveiros que já passaram pelo trabalho fúnebre no Cemitério São João Batista. O mais antigo tinha o nome de Felicíssimo, e era da família dos Galdino. Por morte, foi sucedido pelo Sr. Raimundo Mulatinho, cujo nome civil era Raimundo José Ferreira, que faleceu a 02.03.1933 aos 65 anos de idade, já viúvo de Maria de Santana. Foi sucedido pelo Sr. José Filomeno, filho de Filomeno Gomes, residente no outro lado da lagoa. Um filho de Raimundo Mulatinho, popularmente conhecido como Bão Mulatinho (João Ferreira Mulatinho) era o coveiro de anjinhos , que eram as crianças recém-nascidas. Bão era casado com Inês Dantas e tornou-se famoso pela acentuada surdez. Esse Raimundo era irmão de Francisca Maria da Conceição, esposa do velho caçador e não menos famoso Velho Bréu (Manoel Fernandes da Silva). O velho Bréu e esposa foram pais de Lucas de Bréu, Vicente de Bréu e Joaquim de Bréu, dentre outros. Baião de Galdino era outro coveiro de anjinhos, sendo certo que os mesmos eram colocados sobre uma telha e cobertos totalmente com um paninho branco, e colocados sobre as cabeças do Bão ou do Baião de Galdino, que os conduzia com maestria até o Cemitério.

E na sequência cronológica encontramos o coveiro José Filomeno sendo sucedido no afanoso ofício pelo Sr. Vitor Jararaca (Vitor Ferreira Lima), filho do velho Joaquim Jararaca. Por morte de Vitor, sucedeu-o o Sr. Tomaz Tito (Tomaz Gomes de Carvalho), pai do dentista Nego de Tomaz, Alfeu, Zé Maria, Alonso , Sula, Núbia etc. Sêo Tomaz era primo legítimo dos Coronéis Lucas Pinto, Francisco Pinto, e meu avô paterno Aristides Ferreira Pinto. O pai de Sêo Tomaz o Sr. José Joaquim de Oliveira Pinto (Zé Tito, o velho) era irmão da mãe dos ditos Coronéis, dona Vicência Gomes Pinto. José Joaquim e Vicência eram filhos do patriarca Tito Joaquim de Souza Campelo. 

Quando "me entendí de gente", já encontrei Sêo Tomaz Tito como o coveiro oficial do Cemitério São João Batista , único da cidade e mantido pela Prefeitura Municipal. Vez por outra eu entabulava conversas com Sêo Tomaz Tito. Em uma dessas confabulações perguntei ao mesmo se ele não sentia tristeza no desempenho de seu papel de coveiro, sepultando amigos e familiares, no que ele respondeu "em cima da bucha": "O choro da morte é igual para todos". Quando Sêo Tomaz aposentou-se, foi substituído pelo Sr. Nô de Cassimiro Valentim. Nô já é falecido, e era o pai de Jeová, que tem um bar na rua Adrião Bezerra.

(FONTE DE PESQUISA: Vide Livro "FLAGRANTES DAS VÁRZEAS DO APODI" - Pág. 512 - Livro VI - Coleção Mossoroense - Série C - Volume DCXXXV - Ano 1991). 

Por Marcos Pinto - historiador apodiense 

Um comentário:

Marcos Pinto. disse...


O Autor do livro é o nosso grande historiador conterrâneo JOSÉ LEITE.