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terça-feira, 10 de junho de 2014

Retratos de saudade(I) - A feira - Por Marcos Pinto


Quem nunca acordou assediado por "Sintomas de Saudades", arrancando dos confins da memória cenas e imagens que marcaram a infância e a adolescência vividos em sua cidadezinha do interior ?. E aí, como num filme reprisado no mais profundo do nosso espírito, ressurgem imagens das ruas, das casas e casarões assobradados, das fisionomias de pessoas que marcaram a nossa geografia humana. No meu caso o assédio sentimental atrela-se à leitura e releitura do consagrado livro intitulado "Cento e Sessenta e Cinco Coisas" escrito pelo meu parente e conterrâneo Antonio Noronha Pinto, que é o mesmo TOM do nosso bem-querer. Existe coisa mais nostálgica e contagiante ? Já dizia o poeta que "Recordar é viver novamente".

Assiste plena razão ao amigo-parente TOM, quando afirma: "Acho que a memória só se realiza na sensibilidade". Contam renomados historiadores, que os Povoados, Vilas e Cidades tem suas origens em dois fatores: O espiritual, com a simbologia cristã da primeira cruz fincada em frente à Casa de Oração, (Pequenina Capela de barro e madeira) popularmente denominada de "Cruzeiro"; e o fator econômico, com ajuntamento dos primitivos habitantes, que colocavam suas mercadorias à venda sob frondosas árvores, geralmente aroeiras e timbaúbas gigantes. Nascia assim as populares "Feiras Sertanejas". Até hoje há cidades conhecidas como redutos de grandes feiras como Apodi, Pau dos Ferros, Umarizal etc.

Aos arrogantes que costumam fazer referências menosprezantes às cidadezinhas do interior, costumo adverti-los de que "o Universal é apenas um avanço das forças do Provinciano", ou seja, ninguém, por mais famoso que seja, sempre terá, por seus antepassados, sua origem em cidade interiorana, em modestas casas e humildes modos de vivência, tanto alimentar quanto de vestimenta. Nesse contexto de humildade sertaneja, costumamos frequentar as "Feiras" , revivendo cenas e revendo pessoas de nossas acontecências sentimentais. Assim é que sempre faço essa contagiante caminhada no dia da "Feira" de minha amada Apodi (Dia de Sábadp). E como sinto-me feliz vendo meus queridos(as) conterrâneos(as) ainda adotando o antigo costume sertanejo de chegar perto de sacos de farinha, abertos, e sacudir um punhado de farinha na boca (Coisa que ainda faço!) para saber se está devidamente torrada e não está azeda. Após essa verificação, segue-se a compra para compor os mantimentos alimentícios a serem consumidos durante a semana.

Em frenesi de saudades, segue-se a contagiante caminhada entre as humildes barracas de madeira, distribuídas em fileiras aos lados do Mercado Público Municipal. É grande a agitação no processo econômica da compra e da venda de gêneros alimentícios, com a marcante presença de pessoas vindas da zona rural. Observo pessoas comprando frutas e verduras, empregando a velha tática da verificação da qualidade e maturação do produto. E assim, vejo uma pessoa levantar um ovo de galinha contra a claridade para ver se não está choco. Mais na frente outra pessoa a acocorar-se para bater em uma melancia com o dedo médio superior para ouvir o som definidor de que a mesma esta madura, no ponto de ser gulosamente degustada, para logo a seguir apalpar uma banana constante de uma "penca",

Quem nunca acordou bem cedinho, ouvindo o pai afirmando: Vou alí na "Pedra do Mercado" comprar uma "palha de peixes" ?. Enquanto que nas grandes cidades compra-se peixes por quilo, nas feiras interioranas se compra por "palha", o que barateia o produto. A referência deve-se ao fato de que os pescadores costumam prender os peixes uns aos outros enfiando uma palha seca da folha da carnaubeira nas guelras. Geralmente a "palha de peixes contém cinco a seis peixes. Observe-se que no meu tempo os peixes eram pescados na nossa Mãe-Lagoa de Apodi.

Tenho o salutar costume de ficar perambulando pela feira de minha terrinha amada, objetivando alimentar os "olhos da alma" e reencontrar velhos amigos e amigas, que há muito não os via. Esse novo avistar reflete uma indescritível e alvissareira acontecência que, não raro, descamba para uma farra etílica alí pelo bar de Fernando de Chico Guarda e lanchonete do amigo Luar de Salviano, farra essa regada pelo contar dos "causos" que ficaram bem guardados nos CONFINS DA RETINA DA SAUDADE.

Por Marcos Pinto - historiador apodiense.

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