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quarta-feira, 11 de junho de 2014

Retratos de saudades(II) - O jardim - Por Marcos Pinto


"Eu não sei porque a gente cresce, se não sai da mente esta lembrança". (Ataulfo Alves).

Ao mergulhar no mar das sublimes recordações, sinto-me assediado por estranha transcendentalidade, deixando-me no olfato da alma o inconfundível cheiro do passado, tocante e nostálgico. Não tenho dúvida de que as coisas autenticamente antigas não envelhecem. Vivi uma época em que as pessoas se faziam respeitar pelas atitudes honradas e pela rigidez de caráter. É certo que tenho mais medo do moralismo mofado do que o imoralismo sem talento. Hoje, vive-se o perigo máximo da fusão da libertinagem com a inteligência. Conforta-me a constatação de que tenho amalgamado em meu ego a identidade e a vida intensa do meu universo provinciano. Detesto a retórica inconsistente do liberalismo desenfreado como afirmação de conceitos, ou seja, hoje os pais não estabelecem limites aos filhos, o que lhes faculta confundirem liberdade com libertinagem.

Feitas essas análises comparativas entre o passado e o presente, compete-nos adentrar no tema dessas despretensiosas linhas. O referencial JARDIM diz respeito à praça central da nossa amada Apodi. Toda cidadezinha do interior que se preza tem na sua praça o ponto ideal para encontros noturnos, quando então ocorre a atualização dos fatos que marcaram a cidade durante o dia, principalmente do interesse e conhecimento dos adolescentes. Até a década de 70 do Século passado (1970-1979) ainda predominava o referencial JARDIM em relação à Praça Getúlio Vargas. O Jardim foi construído no ano de 1953, pela gestão do Prefeito Dr. José da Silveira Pinto (Dr. Zé Pinto), quando trouxe um arquiteto

de Recife de Pernambuco. É dele a autoria do Croquis (Planta) da Praça, fazendo constar a construção de um belo Pavilhão (Coreto) em formato redondo, cujo teto feito em laje com cimento armado em ferro servia como palco para exibições artísticas e/ou solenidades cívicas. Os postes confeccionados em Recife eram de cimento armado e ostentavam lustres, cujas lâmpadas proporcionavam admiração iluminação pública. Os bancos eram de alvenaria, simples, sem encosto. Ao tempo de minha infância, o Jardim tinha um areal em seu entorno, sendo certo que a pavimentação à paralelepípedo restringia-se ao perímetro do entorno da Igreja-Matriz.

A atividade frequencial no Jardim dava-se nos finais de tarde e após a celebração das Santas Missas, quando a juventude descia para o Jardim, após circularem várias vezes ao redor da Igreja, no afã de colher flertes que culminariam em namoro. No Jardim adotava-se a mesma estratégia empregada ao redor da Igreja, onde desenrolavam-se as paqueras e namoros após várias voltas na calçada do Jardim. Esses entreveros sentimentais nasciam dos rodízios feitos pelos jovens em sentidos inversos, de forma que proporcionasse o entrecruzar frente à frente, quando então os olhares faíscavam de ardentes desejos, demonstrando identificação sentimental, que às vezes terminavam em namoro e casamento.

Durante a década de setenta, a ornamentação vegetal do Jardim resumia-se a roseiras silvestres, pés de girassóis e pequenos pés de algarobas, que plantados ainda pequenos, juntinhos e em fileiras, de forma que ao cresceram até um metro eram podados, formando assim uma espécie de parede vegetal. Dava até para servir de esconderijo para encontros libidinosos, proporcionados com o apagar da iluminação pública, fornecida pelo motor da Usina Elétrica do município. A iluminação pública e residencial era encerrada invariavelmente às 21:45 h. Contou-me, certa vez, o abnegado vigia municipal Nenen de Zacarias, que vez por outra encontrava calcinhas por trás do muro vegetal composto pelos pés de algaroba.

Após peripécias dos olhares provocantes, os enamorados retornavam para a calçada do monumento ao bicentenário da Paróquia, encravado no largo defronte à Igreja-Matriz. Esse monumento foi impensadamente demolido durante a segunda gestão do médico José Pinheiro. Observe-se, também, que o Coreto do Jardim foi demolido por ordem injustificada do então Prefeito Valdemiro Viana. Nesses últimos dez anos, a cidade de Apodi tem sido desfigurada em sua exuberância arquitetônica de suas casas e casarões centenários, vítimas da irrefreável gula imobiliária. Tal cenário desperta-nos para a necessidade de se cobrar aos Srs. Vereadores a elaboração e aprovação de Projeto-de-Lei que proteja e sejam tombados todos os imóveis antigos que contam a história da evolução urbana através de suas belíssimas arquiteturas.
Memória e identidade: Lembranças, silenciamentos e esquecimentos - O passado em cena. 

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