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sexta-feira, 6 de junho de 2014

No casarão de Cotó - Manoel Georgino

A que saudade eu tenho
Do meu alegre sertão
Das debulhas de feijão
E do cavalo arrumado
Com aquele lindo desenho
Entre o joelho e a mão
Só um bonito alazão
Faz eu voltar ao passado

Aí que saudade da areia
Lá da margem da lagoa
E dos passeios de canoa
Pelos domingos a pescar
Também da bola de meia
Lá no roçado da crôa
E daquela gente boa
Sempre disposta a jogar

Ainda tenho saudade
Do grande rio de Zé Bico
Fim de semana bonito
Com muitos a se banhar
Também na comunidade
Do riacho esquisito
Pertinho de Expedito
Onde podíamos brincar

Olha que história engraçada
Das tardes de bate papo
Fazendo gato e sapato
No “Casarão de Cotó”
Com aquela gente inspirada
Nas histórias do passado
Conversando lado a lado
E o mundo jogando bozó

Ainda lembro as conversas
No “Casarão de Cotó”
Do Senhor Mané Gogó,
Dona Nem, Luis Morais,
João de Cesário às pressas,
Tião de Lúcio, Eudócio
De todos eu era sócio
No discurso e algo mais.

Relembro a sabedoria
Do povo ao conversar
Todos de pernas pro ar
Alegres como vem-vem
A tarde virou mania
Para em política falar
Pra dona Dé reclamar
“Não vendi doce à ninguém”

Aquele lar é o meu passado
Posso dizer que me inspiro
Pois ainda hoje admiro
Quem tem um bom paladar
E até agora aguardo
Todo o sabor que prefiro
Pois nunca vi um suspiro
Que seja igual ao de lá

Naquela sala eu escutava
Que nas margens da lagoa
Viveu estranha pessoa
Chamada “João da Mata”
E admirado eu ficava
Como aquela gente boa
Viveu escondida na crôa
Como se fosse um primata

A criatura era forte
Tinha cabelo comprimo
E parecia temido
Por todos lá do lugar
Até pras bandas do norte
Teu nome era conhecido
Igual a ele, duvido,
Ainda está pra chegar

Mas era um bom cidadão
Nunca fez mal a ninguém
Nunca roubou um vintém
Porque não tinha maldade
Ele era mais um “João”
Entre mil vezes cem
Escondido pelo além
Que nunca foi à cidade

De vez em quando alguém via
A criatura passar
Tentando assim pescar
Lá nos tanques da lagoa
Mas rápido se escondia
Para poder escapar
De quem ficava a olhar
Remando a sua canoa

Assim, um fato criaram
Com sabor de covardia
Que João da Mata, um dia,
Invadiu um quarador
E as lavadeiras contaram
Que o pobrezinho queria
Era olhar pra Maria
Pois nada delas roubou

Mas nada adiantou
Chamaram o delegado
Usando um falso recado
Talvez vindo do patrão
E o delegado juntou
O seu grupo de soldado
Que o levaram amarrado
Como se fosse um ladrão

E o prenderam numa cela
Sozinho na escuridão
Sofrendo humilhação
Com o corpo todo amarrado
Só porque olhou pra ela
Com um pouco de atenção?
Bastava dar-lhe o perdão
E não prender o coitado.

Sem poder se defender
Gritava quando apanhava
De fora o povo escutava
Mas não podia ajudar
Começou a esmorecer
De desgosto se acabava
O João que ali ficava
Esperando alguém soltar

Os dias foram passando
Começaram a lhe esquecer
E o pobre João a morrer
De tanto ser massacrado
Sua alma mergulhando
Em angústia e desprazer
Sem ninguém dizer porque
Permanecia trancado

Com essa situação
Era chegado o momento
De sair do sofrimento
E procurar a outra vida
Fracassou o batimento
E caído no esquecimento
Viu sua alma partida

E morrendo pouco a pouco
Com sua honra em pedaços
Não dava se quer dois passos
Por seu nome recuperar
Foi caindo em sufoco
Com o coração em estilhaços
E amolecendo os seus braços
Pôde em paz descansar

Até hoje não sabemos
Se ele era um primata
Ou mesmo um João da Mata
Como muitos por ai
Só sei que saudade temos
Daquele pobre pacata
Escondido pela mata
Feito um macaco sagui

Só Dona Nem ainda está
Na velha arquitetura
Com toda aquela altura
Sempre cheia de esperança
Só ela pode contar
Quem fazia mais travessura
Naquela casa escura
Da qual eu guardo lembrança

Hoje sim, guardo lembrança
Dos amigos que partiram
E quem sempre à tarde ouviram
Tantas palavras no ar
Desejo só esperança
Àqueles que me admiram
E a todos que se uniram
Pra dar cultura ao lugar

"Ensaios poéticos" - Manoel Georgino 

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