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domingo, 1 de junho de 2014

Leito minado - Manoel Georgino

No infinito horizonte ergue-se a Matriz
Tudo é belo como o nascer do Sol.
No início, a imensa torre em sinal de poder.
Ao seu redor, casarões dão abrigo à paz.

Surge assim a vila, nasce uma nova história
Sobre a argila vermelha passeiam crianças
Que brincam à margem do imenso leito
Leito que dorme e que sonha fazendo história

Entre verdes barreiras correm as águas
Águas cristalinas que escondem a areia
E escorregam límpidas em direção ao infinito
O infinito mar que tempera e alimenta o lar

Sobre as duas faces espalha-se o verde
Verde que reflete a esperança e abriga vidas
Vidas que se alegram vendo o nascer e o por do sol
E que desfrutam no tempo os mistérios da noite

São viveres que constroem a felicidade
E que apostam no brilho da vida futura
Mas que representam as emoções de um tempo passado
Passado que sofreu sucessivas agressões

Agressões de um ontem que não pensou no hoje
Um antes que se deixou levar pela exploração
E que se fez refém das emoções da irracionalidade
E hoje, depois de tudo, sou o que sou

Velho e cansando, levo nas costas toneladas de problemas.
Problemas que o tempo não foi capaz de administra-los,
Acumulados há séculos e provocados pela sociedade humana
A verdadeira sociedade humana desumana

Antes estimulei a paz e me deram a agonia
Antes ofertei flores e me retribuíram com a angústia
Traduzi o amor e o transformaram em ódio
Me fiz morada dos desvalidos e me deram o desprezo.

Criei a diversidade em torça do nada
Dei o aroma das flores e me deram o odor do lixo
Ofertei o alimento na mesa em troca de lama
Saciei a sede da biodiversidade e me deram esgotos

Banhei os nativos com água limpa e sujaram meu leito
Me fiz a paisagem colorida e me cercaram de casas
Dei o peixe na ceia em troca de vermes,
Vermes que me comem incansavelmente

Fui a alegria de muitos e me tornaram triste
Fui a harmonia e a sinfonia dos viveres e me desafinaram
Também fui o relâmpago, o trovão e o silêncio das noites,
A mensagem da liberdade e do respeito às diferenças.

Fui a filosofia dos eleitos e o grito dos oprimidos
Fui a teimosia dos ativistas e a esperança dos que clamam
Também fui o desespero e a angústia em noites de cheias,
Mas fui a calma, a tranquilidade e a reflexão dos arrependidos

Durante séculos, fui morada de uma natureza viva
E o que represento hoje são apenas restos
O resultado da degradação ambiental
Sou mais um paraplégico que aposta na recuperação.

Sou um mar... um mar de lama entre ruínas
E um depósito de águas paradas. O desequilíbrio
Sou a ânsia... o anúncio do fracasso e da morte...
Da morte que me persegue no tempo e no espaço

A cada dia uma luz se apaga dentro de mim
Mas ainda me resta a energia de uma fonte que se esgota
E que luta contra os efeitos da economia de impacto ambiental
E que tenta preservar o ciclo da vida num espaço turbulento

Se abrirem os olhos, serei o centro das atenções
E recuperarei dezenas de quilômetros fluviais,
E banharei teus filhos, teus netos, teus descendentes,
E salvarei mil gerações alimentando a vida

Promoverei as mais variadas relações entre os seres
E tudo voltará à normalidade com a vida à serviço da vida
Reflorestarei todo o sertão deserto e controlarei os ventos,
E me tornarei o filtro e o pulmão do espaço.

Se me derem uma chance, serei o recomeço de um paraíso
De um paraíso que derramou o sangue da ecologia
E serei mais um laboratório natural para reproduzir células
As células que poderão salvar todo o imenso universo

"Ensaios Poéticos" - Manoel Georgino

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