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segunda-feira, 2 de junho de 2014

Devaneios - Manoel Georgino

Chuva de lágrimas nos olhos desponta
Puro semblante de agonia atura
Vida sofrida que num sonho conta
Sua triste sina: devaneio, loucura

Das pétalas foge o doce perfume
Da alva rosa que enfeita o canteiro
Sobre o escuro lago passa num vaga-lume
Com luz que reflete na água o terreno

Esquecer veredas, picos, cachoeiras
Salvação, refúgio, gotas velejantes
Entre vida e paz cinzentas barreiras
Traçando o perfil em olhares distantes

O doce expulso da vida, a amargura
Circulando o pátio em brisa vagando
Distante, confusa sobra da brancura
De um lugar distante se aproximando

Temeroso brilho rápido aparece
Raios intrigantes cortam a noite escura
Sonolentos prantos no rosto, padece
Vida, machucando bela formosura

Os trilhos cortando as matas em fúrias
Infinitas linhas nunca se encontrando
Pensamentos fogem devolvendo injurias
Prolongando a vida, sono aprofundando

Das árvores, o frêmito vai soando atento
Ventilando, a brisa impõe solidão
Sussurrando, as folhas obedecem ao vento
Nos olhos dormentes repousa o clarão

Fulminantes raios matam a escuridão
Repouso profundo disposto a sonhar
Repica o sino, ribomba trovão
Transpassando o tempo, o inverno a chegar

Os rios transbordam em gotas descendo
Nos tristes sertões ao longe olhando
Inocentes almas, a vida padecendo
Em noites tristonhas foge delirando

Instigante volta sossegando a alma
Em cinzas procura sentimento oculto
Cai o orvalho, as folhas, vem a calma
Contraindo os músculos se desfaz o vulto

Sarcásticos impunes em secular tristeza
Espólios costumes com paladar em fel
Guardando na alma a “fiel beleza”
No cálice amargo com gotas de mel

Num piscar de olhos refletidos em raios
Revelando jorra o saboroso espanto
Cintilantes em rios o escuro manto
Transformam em rios o escuro manto

Nas frestas cobiças encenam a prosa
Espertas infâncias voltam a se encontrar
Em última sentença fatal, mas morosa
Reforçam a paixão no tempo a rolar

Murmurando em toques, as cordas respondem
Na escuridão fria com vozes gemidas
Vindas do infinito que por trás escondem
Paixões delirantes nunca esquecidas

Pensantes abraçam o coração vazio
Dominado em símbolo  põe rosto a chorar
Envolvido em véu um forte calafrio
Devolve a calma, volta a delirar

Em coros, mil vozes com suave harmonia
Planos, acordes invadem a janela
Em luzes cadentes, sonolenta espia
Vagando distante a imagem tão bela

O lindo arco-íris ornando a paisagem
De fronte o mar, a areia, o tufão
As águas banhando estranha mensagem
Nas rochas escuras fica a solidão

Estrelas flutuantes nas águas cruzando,
Caminham esquecidas sem norte, sem lar
Ao lado as sombras com os pés afundando
Vão se afogando prá não mais voltar

Velozes jangadas as águas cortando
Misturas de cores, aves a voar
Profundo e sereno vagueio sonhando
Em mundo sublime não vou acordar

Sob sombras que voam pintando espaços
Entre dois abismos me esquivo ao passar
Expressando a fúria, deixando em estilhaços
Restando amargura retorno a sonhar

Confusas imagens na neve escura
Formando sereia, caminha girando
Cinzenta fumaça libera a brancura
Sumindo às escuras e se dilacerando

Em espaços retângulos, prostrados dormentes
No túnel escondida vibrante agonia
As vozes em enredos das matas ausentes
Em sono profundo devolve a harmonia

Entre flores brancas procura esconder
O rosto em prantos de perfil jubilante
As carnes tremendo, veias a ferver
Aguardam caladas paixão em flagrante

Perfeitos cadáveres ali repousando
Escondem da vida a triste utopia
Viventes revezam cadeiras velando
E outros se amando de noite e de dia

Pássaros choram, gorjeiam emoção
Rolando na relva estão a cantar
Lindas borboletas cobrem a plantação
E belas roseiras vão nos perfumar

Sacis, pirilampos – dimensão do mito –
Tonteiam com o vento, galhos balançando
Em repouso macio silenciando o grito
Rituais mistérios vão se confirmando

Ponteiros se cruzam, Sol vem clareando
Orvalho caindo, riachos correndo
Cavalos relincham, sabiá cantando
Flores perfumando e aos poucos morrendo

Em perfeitas forma bela margarida
No néctar abelhas, ramalhete em cor
Das pétalas o perfume embeleza a vida
Desfrutando o cume da paixão, o amor

No jardim rubras rosas em tom multicor
Jogadas em sarjetas, calmas ressonando
Coração rompe o peito, a angústia e a dor
Natureza gemendo, alma se afundando

Palpando mãos frias voltei entalado
Por caminhos que levam a campos além
Mexendo o corpo, meio desconcertado
Acordei cansado, não vi mais ninguém

"Ensaios Poéticos"  - Manoel Georgino

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