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sexta-feira, 13 de junho de 2014

Bravo sertão - Manoel Georgino

Vou te contar uma história vivida
Que se passou lá no meu sertão
Com uma família honesta dividida
Em fome, sede, miséria em vão
Zelando o gado, o cavalo, a vida
Enterrando a semente no chão

Desde criança foi crescendo e vendo
Trabalho forçado e exploração
Gente sofrida, aos poucos padecendo
Submetida a muita humilhação
Suando exposto ao Sol, fervendo
Em brasa por todo esse torrão

Lá no casarão, bem cedo
Acordavam ao som de um peão
Cantando canções sob um juazeiro,
Amansando boi no mourão
Vestido em couro, ficava amontado
No seu bonito cavalo alazão

E no alpendre sempre ao seu lado
Alguém estremecia o seu coração
De mãe que acalantava o seu filho amado
Buscando paz e consolação

Logo em frente o roçado em mata
Ao lado, erguido o velho galpão
Estribo, cela, rédea pendurada
Arreio em prata enfeitava o porão
E com uma cadeira velha já cansada
Repousava em silêncio o velho casarão

E na noite com a brisa
A lua nova mostrava seu clarão
Enquanto aquela gente amiga
Contava à todos adivinhação

A noite, assavam espigas nas fogueiras
E no alpendre, à luz de um lampião,
Adolescentes faziam brincadeiras
No berimbau, outros soltando pião
Enquanto os pais sentados nas cadeiras
Faziam a debulha do feijão

Pensavam em planos, embora frustados,
Com o que sobrava da venda do algodão
Depois ficavam em casa admirados
Com o pouquinho que restou da produção
De tantos meses de trabalhos cansados
Só dava pra comprar um mísero calção

E a sua filha crescendo
Na paz, no amor, no perdão
Mas as esperanças aos poucos morrendo
Sem prosperar nada no sertão

Desesperada, aos dez anos saiu
De casa para bem longe trabalhar
Sem um destino planejado seguiu
Para enfrentar a incerteza distante do lar
Na hora, somente um casaco pediu
Mas seus pais não tinham para dar

Na madrugada subiu num pau-de-arara
E em cinco dias no Pernambuco chegou
Depois de dias e noites cortando estrada
Que levava todos ao interior
Quando chegou, num canavial foi jogada
Na noite fria sem nenhum cobertor

Sozinha, longe de casa
Sentindo falta de seus pais, do amor
Do cafezinho feito no fogão de brasa
E das histórias lindas do avô

Levanta cedo e o facão amola
Pra o dia todo a cana cortar
De Sol a Sol por uma esmola
Sem agasalho e fome a rolar
E ainda sentindo falta da escola,
Do seu irmão e das horas de brincar

Passado um ano, doente e explorada,
Mal alimentada sem poder crescer
Faltando roupa, um lar e cansada
Sem a família poder esquecer
Nervosa, fraca, meio debilitada
Já estava condenada a morrer

Seus pais já velhos e acabados
Sem mais coragem para vencer
Escrevem uma carta em papéis amassados
Dizendo: filha, vem ver sua mamãe morrer!

Vivendo “um inferno” muito distante
Onde pagava para comer e beber
Dormindo em cima de uma estante
Para jamais voltar a dever
Pois aquela vida triste e humilhante
ao permitia seus pais esquecer

Cortando cana no final do dia
Na lama quente, passava a lembrar
Da cachoeira pertinho de sua tia
Onde, ao amanhecer, ia se banhar
Com os pés descalços sobre a pedra fria
Ali, vendo a natureza, podia sonhar

Só que no roçado isolado por cerca
Se via milho, feijão e algodão crescendo
Mas, lá pra nós, chegava uma nova seca
E muitos ficavam tristes vendo a plantação morrendo

A vaca presta mansa, chamada baraúna
Ali rapava o capim seco em vão
E na gaiola já não cantava o graúna
Porque morrera o velho alazão
Lá no curral não tinha nem espuma
Do leite, pra alimentar o filho Bastião

Já em ruínas, a cacimba do Sul
Pássaros em volta disputando em briga
Gado caído, ossos, urubu
Saciando a fome em vaca desvalida
E na cozinha o papai Dudu
Com água e farinha engana a barriga

Ela, ao chegar, sente o abandono  
De governantes rudes inconsequentes
Que lá em cima desfrutam do Trono
E aqui em baixo desprezam os doentes

O filho Bastião, de sorriso ausente,
Vai, aos cinco anos, cortar macambira  
Sob uma árvore seca e sem semente
Desce o facão enquanto o mundo gira
Desequilibra o corpo de repente
E em dois pedaços vê sua mão partida

Ainda criança, sem perder a razão
Da dura vida que o mundo deu
Consola o pai com a outra mão:
“Perdi uma parte, a outra não morreu”
E o outro pedaço que caiu no chão
Plantou no riacho mas nunca nasceu

E assim, durante anos, viveram provando
Do cálice amargo que o patrão lhes deu
Podres poderes ainda estão ganhando
Mas há uma esperança que ainda não morreu

Para aqueles que apostam numa fácil vida
Acumulando bens às custas da exploração
Que acabam o verde e a paz tão merecida
Gerando a classe social de pés no chão,
Lembrem-se que um dia essa gente desvalida
Lutando, alcançará, enfim, a libertação

"Ensaios Poéticos" - Manoel Georgino do Carmo 

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