Pesquisar neste blog

sábado, 14 de junho de 2014

APODI URGENTE – Trajetória histórica - Manoel Georgino

Eu vou fazer uma homenagem
Ao povo do Apodi
Portanto, esta mensagem
Tem como fim construir
Uma completa listagem
Pra você ter uma imagem do que existe aqui
Do que existe aqui

Pra começo de conversar
Precisamos conhecer
A vida que interessa
A mim, também a você
Da terra que faz promessa
Do povo que arremessa
Cultura, arte e lazer

Apodi é derivado
Desta palavra: Poty
Ou camarão do tribado
Que habitava aqui
Erva de pitum cultivado
Em todo esse roçado
Por potiguares daqui

Manoel Nogueira, “o famoso”
Fundador desta cidade
Traçou um plano invejoso
Contra a comunidade
Foi colono perigoso
Perseguiu índio bondoso
Ferindo a dignidade

1.680
O ano da descoberta
Família chega e esquenta
Mantendo aldeia em alerta
Nativo povo não aguenta
Com arcos, flechas enfrenta
Sonhando, tribo liberta

Apodi refúgio amado
Fundado há muitos anos
Parece ter alcançado
Os primitivos humanos
Pois as marcas do passado
Pintadas por todo lado
São provadas do que pensamos

Esta cidade sofreu
Durante aquele tempo
Transformação que doeu
Que vivemos no momento
Pra chegar ao apogeu
Muito nativo morreu
Ficando no esquecimento

Só que as transformações
Destruíram o paraíso
De um lugar de emoções
Onde vendiam sorriso
Nunca mostraram ações
Só viram muitos sermões
E nenhum plano preciso

Ela viveu toda a idade
Na mais pura tirania
Domínio e promiscuidade
Ferindo a cidadania
Tornando banalidade
A vida desta cidade
Já fora de sintonia

Tirar-lhe da terra amada
Povo, Pátria merecida
Roubando o sossego, a vida
Duma nação respeitada
De cultura preservada
Hoje do mundo esquecida

A tribo que se perdeu
A terra abandonada
O índio que faleceu
Com morte antecipada
Por terra homem gemeu
Por ódio alguém cresceu
Na serra aqui dominada

Nas águas há vizinhança
Nos campos há homem bravo
Na mata há vida mansa
No canavial há escravo
Em cima alguém descansa
Embaixo, falsa esperança
No étnico povo eslavo

Cabelos longos, vistosos
Olhos pretos cristalinos
Na tribo sempre orgulhosos
Com inocentes meninos
Sem saber que audaciosos
Tinham planos perigosos
Contra índios nordestinos

De muitos a despedida
Consumindo o puro lar
Abraços, alma partida
Nunca podia abraçar
Por dentro a desmerecida
Separação entre vida
É distância pra conquistar

Pertences ou não pertences
Só restava-lhes deixar
Pinturas, bocas e dentes
Nas pedras a perdurar
Como restos das sementes
De culturas conscientes
Deixadas neste lugar

Muito tempo se passou
Mas para o povo, porém,
Só sofrimento ficou
Nos separando também
Desprezo tem sido a cor
Que representar a dor
De quem se foi e não vem

Só lembrança tocou forte
Em quem não pôde ficar
Na época, sempre por sorte,
Muitos passaram a migrar
Pelos planaltos sem norte
Pra chegar a algum lugar

Foram jogados na rua
Pelo modo de falar
E pra defender terra sua
Valia a pena voltar
E pedir ao deus da lua
Proteção à vida crua
Pra tudo recomeçar

Vida brava e irreverente
Minava neste torrão
Como sobra da semente
Que germinou neste chão
De luta símbolo somente
É que precisa essa gente
Pra fazer reconstrução

Defender a vida crua
Necessidade sentiu
De gente que nesta rua
Tinha uma vida viril
Reunir a tribo sua
E luta com fina pua
Pela terra varonil

Arco, flecha, pua ou lança
Rústicas armas na mão
Na mata ninguém alcança
Quem mais conhece o torrão
Parece floresta mansa
Mas é arma de vingança
Contra a perseguição

Dança, folclore, folguedo
Por noites a perdurar
Vozes, sinal de enredo
Nas matas passam a soar
Entre espinhos e arvoredo
Correram léguas sem medo
Até o dia raiar

Dias e noites ao luar
Passava-se com frequência
E a vontade de lutar
Tirava-lhe a paciência
Vencer aqui e acolá
É o rumo pra conquistar
Respeito e irreverência

Nas noites, rios e caminho
Incerto a explorar
Como o fruto que dá vinho
Difícil de cultivar
Mas pra quem quer seu vizinho
Lutando junto ou sozinho
Vale a pena lutar

Depois de tanta bravura
Travada pelo sertão
Levando uma vida dura
Em defesa do irmão
Um rio de água pura
Terreno pra agricultura
Surgiu para a plantação

Quando um mês se passou
O inverno foi chegando
O verde se apossou
Do horizonte e foi dando
Vez para o agricultor
Diminuir sua dor
Nova vida começando

Meses depois, o sossego
Na tribo, festa, alegria
Dança, pintura, folguedo
Num sinal de harmonia
Que afastavam o medo
Daquele que, em segredo,
Há muito tempo fugia

Alguns anos se passaram
No rosto pura alegria
E assim logo afastaram
Por algum tempo a tirania
Só que não imaginaram
Que outras tribos lutaram
Contra quem os perseguia

Brasil gigante atento
Caminhava todo dia
Todos num só pensamento
Pra conquistar alegria
Só que chegou um momento
De desespero e tormento
Para quem ali vivia.

Lembrança próxima a chegar
Das tochas que acenderam
Para seu mundo encontrar
A sobra dos que viveram
Não podiam imaginar
Que ali ia chegar
Quem dessa vida esconderam

Maduro, pouco crescido
Sombrio índio chegava
Sangue na veia corrido
Da raiz que lá ficara
Como prova do sabido
Líder, bravo e destemido
Da tribo que liderava

A origem ainda escura
Alguma coisa boiava
Da incerteza, loucura
Que coração dominava
Alma, vitória e bravura
Não sabe se raça pura
No entanto, ali misturava

Naquele exato instante
Foi surgindo uma questão
Mistura é dominante
Fazendo agora a união
Entre o índio e o errante
Pra dar um toque brilhante
A essa nova nação

Já percebendo também
De longe, sangue mistura
Embora vindo do além
Como prova da loucura
Repudiar não convém
Quem só uma vida tem
Embora mostre brancura

Então, a partir dali
Tudo assim se transforma
Tribo não pode dormir
Enquanto uma nova norma
Faça todos se unir
No amor que fez surgir
Revolta de alguma forma

Mas deram tempo ao tempo
Como forma de querer
Aguarda o bom momento
Para isso resolver
Rápido tal qual ao vento
E tirar o sofrimento
De quem cansou de sofrer

Passaram anos, e em instantes
Outros povos se encontravam
Em regiões importantes
Quietos se apoderavam
Enquanto vidas errantes
Iam ficando distantes
Das tribos que habitavam

Um aspecto se admitia
Como forma de acalanto
De repente ali surgia
Sem mais lhe causar espanto
Mistura, hegemonia
De raças que conhecia
Do lugar cada recanto

Língua estranha invadia
Regiões a ponta pé
Mesmo assim, quem não queria
Mudar de fala se quer
Sem querem alguém ouvia
Padre nosso ave-maria
Até tropeçar o pé

Já inteiras multidões
Começaram a se espalhar
Missionários e sermões
Vieram multiplicar
Mistura, cor, orações
Transformando corações
Mestiça raça a chegar

Sofrendo aculturações
Prática mal e desumana
Vinda de outras nações
Europeia, africana,
Tornando-se os cordões
Que faziam ligações
Pra nova raça humana

Portugal, “o navegante”,
Atrapalhou nossa vida
Aculturou num instante
Tornando alma sofrida
Indígena, raça africana
Cultivavam toda a cana
Para a Europa merecida

Vida sofrida minando
Brasil recente, criança
Terras aqui explorando
Riquezas, má vizinhança
Que daqui se apoderando
E a cada dia enricando
Na terra da esperança

Décadas passam apenas
Para o efeito chegar
Novas eram entram em cenas
Histórias pra se contar
Deixando raças pequenas
E lá de fora, centenas
Continuando a explorar

Colonos chegam expulsando
Nativos do seu torrão
Foram logo demarcando
Terras para plantação
E assim foram explorando
E o Brasil se afundando
Nas mãos de outra nação

Pra aquela gente inocente
Mas viva como um condor
Parecia independente
Mas, dependência e rancor
Já cercava novamente
A vida daquela gente
Trazendo o medo, o pavor

Quando agora alguém pensou
Que sua vida era paz
Depois que o tempo roubou
Tranquilidade e bem mais
Do que o seu deus deixou
Como fonte de amor
Pra lutar com capataz

Começa nova invasão
De estrangeiro pirata
Valente como um trovão
Covarde como um panaca
Que corre por este chão
Veloz como um tubarão
Pra se esconder pela mata

Enquanto isso acontece
No outro lado do mundo
De um país que aparece
Hoje como um submundo
O pobre homem padece
E rápido o Brasil esquece
Que sustentou vagabundo

Miséria e exploração
Rodeiam este lugar
Afugentando a nação
Chegando a arruinar
A vida do cidadão
Que anda de pés no chão
Sem teto para morar

Reflexos do social
Que falta neste país
De educação e moral
Que sempre o povo quis
De saúde ambiental
É que falta, afinal
Pra ver o povo feliz

É por isso velho amigo
Que neste mundo, o que vemos
É marca de prejuízo
E natureza morrendo
Exploração sem sentido
De um Brasil esquecido
Que sempre o bem vem fazendo

Quinhentos anos vencidos
De natureza explorada
São cincos séculos esquecidos
De uma Amazônia minada
De piratas inimigos
Disfarçados de amigos
Que levam tudo por nada

Assim caminha a história
Governo entra e sai
Destruição faz memória
E pra frente ninguém vai
Sempre fracasso e vitória
A perda fica notória
E sempre o pobre é quem cai

O novo em época nova
Promessas, rum, fantasia
“Com o pé estamos na cova”
Utópico mundo, ironia
Quem no discurso desova
Milagres? Faz uma ova!
Pro povo: só tirania

Profético, árduo e travesso
Cúmplice, padrão Nordeste
Virando tudo no avesso
Tirano como uma peste
Valente sangue, estremeço
Igual assim não conheço
Pra governar já vieste

Primeiro a boa vontade
E vendendo simpatia
Fúria e simplicidade
Entre todos escondia
Por trás a promiscuidade
Repressão por vaidade
Completa ideologia

No tempo da ditadura
Apodi foi sorteado
Um homem de cara dura
Da capital foi enviado
Pra ficar com a Prefeitura
Delegacia e a fúria
Do fascismo ultrapassado

Pra governar precisava
Patente de coronel
Ser puxa-saco da farda
E respeitar o chapéu
De quem deixava humilhada
Aquela gente jogada
Sob as ordens do cruel

O território foi tido
Como terra de barão
O homem ao ser detido
Era expulso do chão
Pra ser escravo banido
Do habitat querido
E condenado ao ferrão

"Ensaios Poéticos" - Manoel Georgino do Carmo 

Nenhum comentário: