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quinta-feira, 26 de junho de 2014

Adrião Bezerra, um homem teimoso

Evoco, com emoção, neste pequeno relato, a figura de Adrião Bezerra de Menezes, meu avô materno, há muito falecido, com 93 anos de idade. Homem honesto, sério, viveu sem aspirações de riqueza ou de grandezas, morrendo pobre, porém, estimado por todos que privaram de sua amizade. 
Quem o conheceu de perto, há de afirmar e exaltar a grandeza dos seus sentimentos e de suas qualidades morais. 

Em Apodi, exerceu o cargo de Prefeito, Delegado de Polícia, Fiscal e Procurador da Prefeitura, com exemplar desempenho. 

Durante anos foi o médico ortopédico da cidade, emendado braços e pernas quebradas, e usando para essas delicadas operações, gema de ovo e talo de carnaúba. E executava esses trabalhos com perícia admirável, com perfeição, sem deixar defeitos. E sem cobrar qualquer importância pelos serviços prestados. Era o encanador de braços e pernas da região, competente e prestativo. 
Mas, como não há bom sem falta, Adrião Bezerra também tinha a sua. Tinha a fama de homem teimoso, mas teimava sem deixar ressentimentos ou queixas. Sabia protestar sem magoar. E, às vezes, o fazia com sabor de piada ou brincadeira.  

Certa ocasião, ouvia uma conversa entre três pessoas, sobre coisas que incomodam à gente à noite, na hora de dormir. A primeira dizia, que a pior coisa é uma goteira em cima da rede; a segunda opinava, que uma criança choramingando incomoda mais; sustentava a terceira, que pior do que o choro da criança e a goteira, juntos, é um grilo cantando. 

Vendo que o velho observa atentamente aquela conversa, um dos participantes lhe perguntou: “Qual das três coisas Seu Adrião considera a pior?” Ele respondeu: 
“Quanto às duas primeiras, acho que incomodam um pouco. Quando a terceira, não. Só durmo bem, à noite, com um ou mais grilos cantando ao lado da minha rede”. 

Fonte: Histórias e Vultos de Minha Terra - Válter de Brito Guerra(1985) 

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