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segunda-feira, 16 de junho de 2014

A rosa que eu sempre quis - Manoel Georgino

Amada rosa da noite
A quem darei reverência
De longe sentindo a essência
Quando a escuto cantar
Na janela debruçada
Me irando rumo ao norte
Só a enxergo por sorte
Vendo teu rosto brilhar

Tua língua é a doce gula
Que conquistou teus amores
És rosa com todas as cores
Lutando para se encantar
Tu és bonita, declaro,
Na madrugada ferida
Por esse amor dou minha vida
Só para te conquistar

Do Céu você é o azul
Da rosa é o perfume
Da noite é o vaga-lume
Brilhando na noite escura
Como as estrelas e a Lua
No alto como uma princesa
Com toda a sua beleza
Na voz e na formosura

Tu és princesa amorosa
Precisa sempre reinar
Para um dia encontrar
A tua real paixão
Que não dá pra esconder
Pois ainda tenho você
Aqui no meu coração

Antes eu vivia distante
Daquela terra esquecida
E já julgava perdida
Aquela rosa cheirosa
Pois nunca tinha a visto
Mas toda noite eu sonhava
E na lembrança guardava
Aquela mulher formosa

Um dia pensei viajar
Sai de casa bem cedo
Embora com muito medo
De não mais a encontrar
Mas antes fui ao açude
Me banhar com água fria
E sempre pensando um dia
Aquele amor encontrar

Lá pras três da madrugada
Celei um lindo cavalo
Antes do cantar do galo
Pra bem mais cedo chegar
Botei arreios de prata
E pra ficar bem macio
Pus um capacho de fio
Pra sobre ele montar

Vesti meu terno de linho
Peguei o melhor chapéu
E apontei lá por Céu
Pedindo a graça divina
Para uma longa viagem
Por um estreito caminho
À noite quebrando espinho
Só para ver a menina

E assim segui a viagem
Rumo à felicidade
Bem distante da cidade
Onde eu pudesse a encontrar
O seu lugar preferido
E passei por um roçado
Mas meu cavalo cansado
Não pode continuar

Descansei algumas horas
Na sombra de um juazeiro
E o meu cavalo ligeiro
Foi à cacimba beber
Depois de horas correndo
Pelo caminho incerto
Num campo à Céu aberto
Com aquele Sol a tremer

Botei milho na mochila
Para o meu lindo alazão
E fiquei sentado no chão
Ouvindo pássaros cantar
Mas rápido veio a lembrança
Dos longos cabelos dela
Balançando na janela
Como jangadas no mar

A noite se aproximou
O Sol já se despedia
Daquele difícil dia
Já bem distante da rua
Assim foi escurecendo
Com a saudade aumentando
E aquela brisa esfriando
Enquanto chegava a Lua

Ali quebrei uns gravetos
Para acender uma fogueira
Como se fosse a lareira
Da minha sala de estar
E com um cobertor de lã
Deixei meu corpo enrolado
E sobre a grama deitado
Pude dormir e sonhar

Os ponteiros se cruzaram
Estrelas, lua clareando
Pássaros no mato cantando
Pra um novo dia raiar
E às cinco da manhã
Preparei um bom café
Batendo com a colher
Pra o pó no fundo sentar

Matei assim todo o frio
E foi chegando a coragem
Pra prosseguir a viagem
E aquele amor encontrar
Arrumei todas as coisas
Joguei em cima da cela
E sempre lembrando dela
Fiquei ali a pensar

Depois de alguns minutos
Continuei a viagem
E uma estreita passagem
Me levou até a estrada
Que era o caminho certo
Para a estrada vicinal
Que ia até o curral
Da fazenda abandonada

Dizem que era do avô
Da morena da janela
Que eu via no rosto dela
O brilho da perfeição
Quando à noite cantava
Com sua voz fascinante
E aquele olhar brilhante
De enlouquecer coração

Achei tudo diferente
Da época que estive lá
Não tinha alguém pra brincar
Como no nosso passado
Todos já tinham família
Só eu estava solteiro
Sonhando o tempo inteiro
Com o coração retalhado

A casa da avô Tiana
Se transformou em ruínas
Não tinha mais as meninas
Que iam lá passear
A fim de trocar olhares
Com garotos da cidade
Cheios de felicidade
Que iam só namorar

A tia estava sozinha
Já não tinha mais marido
Pois ele tinha partido
Pra morada lá de cima
E ela botando luto
Buscava consolação
Como muitas do sertão
Aguardando a paz divina

O verde tinha ido embora
Por causa da estiagem
Que acabou a pastagem
Matando a criação
Até a velha cacimba
Que saciou tanta gente
Não era mis uma vertente
Era só um furo no chão

Vi muitos se acabando
Não se criava mais nada
No campo só tinha ossada
Tudo já tinha morrido
Mas lá estava a tia
Vivendo só com a enxada
Lá na despensa encostada
Como se fosse um castigo

E finalmente cheguei
Na casa da outra tia
Que toda noite ouvia
A canção que me encantou
E o Sol ali já queimava
Por volta do meio dia
Que quase ninguém saia
Pra não enfrentar o calor

Lá tinha uma cachoeira
Que você nem imagina
Parecia obra divina
Escondida num porão
Pertinho de dona Augusta
Bem no tronco da chapada
Naquela rocha lascada
Banhando todo o sertão

Ai fui à cachoeira
Tomar um banho na fonte
Que jorrava lá do monte
Até embaixo chegar
Não é que a encontrei!
E olhei com muito respeito
Mas não gostei do sujeito
Que estava a te esperar

Mas o rapaz foi gentil
Me tratou como um infante
E eu me senti radiante
Pude ficar ao seu lado
Disse só uma palavra
Que saiu lá do meu peito
Chega ela ficou sem jeito
E eu fiquei acanhado

Assim ela me sorriu
E eu fiquei sem receio
Ela sentou-se no meio
E continuou a sorrir,
Olhou-me com atenção
Dizendo: “eu te conheço”
Só eu não sei se mereço
Voltar de novo a sorrir

Eu perguntei o que fizeste
Durante todo esse tempo
Não mais te vi um momento
Para poder te falar
Dessa vez eu não me entalo
Vivo só pensando em ti
E só voltarei a sorrir
Quando com você casar

Esse dia virou festa
No casarão da fazenda
Pra mim foi a maior prenda
Que quis um dia ganhar
Ela então me abraçou
Foi respondendo chorando:
Passei o tempo te amando
E vou pra sempre te amar

Você é beleza rara
Vim pra te levar comigo
Para mim será um castigo
Se não me der teu amor
Nunca dormir sem sonhar
Com tua voz tão singela
Cantando lá na janela
A canção que me encantou

A partir daquele dia
Só se falava em noivado
E o povo foi convidado
Pra festa no casarão
E o pai dela contente
Com aquele resultado
Abateu um boi cevado
Pra toda população

Na data do casamento
Contratei um sanfoneiro
Pra tocar o dia inteiro
E com a noite enrolar
Mas o braço dele inchou
De tanto puxar o fole
E o cantor de boca mole
Não conseguiu mais cantar

Aí eu imaginei
“Mas que cantor esquisito”
Não consegue dar um grito
Pelo menos pra espantar
E olhando a boca dele
Tive pena do coitado
Pois o pobre era desdentado
Que mal dava pra cantar

O baixinho do pandeiro
Tinha o nariz empinado
Tocava desconfiado
Para ninguém perceber
Que o pobre do matuto
Estava encabulado
Por ter o salto arrancado
De tanto a perna tremer

Já o cara do trombone
Tocava só de um lado
Como se fosse aleijado
E não quisesse mostrar
Que dentro da sua boca
Só lhe restava um dente
E se soprasse de frente
Não conseguia tocar

E assim passaram a noite
Na festa do casamento
Pulando como jumento
Sem quase nada tocar
Só que o povo envolvido
Lá com tanta bebedeira
Não percebia a besteira
Da orquestra do lugar

Quando o dia amanheceu
Quase ninguém tava em pé
Só apareceu um “mané”
Para me agradecer
Por ter sido a melhor noite
Que passou na sua vida
Juntinho de Margarida
Sem nenhum gole beber

Muitos já tinham ido embora
Alguns ficaram sentados
Com muito sono e cansados
Não por apenas dançar
Mas por causa da orquestra
Que quase nada tocava
E o povo assim se enrolava
De tanto sapatear

Cedinho foi a despedida
Entre muitos do lugar
Que foram prestigiar
Aquele baile sagrado
Com a orquestra esquisita
E por não saber tocar
Tornou-se tudo engraçado

Também dar pra imaginar
Um bêbado sanfoneiro,
Trombonista trambiqueiro
Que foi lá só pra enganar,
Imagine bem um cantor
De calçola e desdentado
E pandeirista enrolado
Que nunca soube tocar

Só podia dar errado
De música nada entendia
Muito menos de harmonia
Sem nem um tom acertar
E o canto desafinado
Como um cachorro doente
Bastava qualquer demente
Para o defeito notar

O resto foi só alegria
Para um amor verdadeiro
Que levei o tempo inteiro
Para poder reencontrar
A rosa que eu sempre quis,
Que cantava na janela
E eu olhando pra ela
Sem noutra coisa pensar

Deixa eu amar tua alma
Com meu coração sincero
Juntinho à ti eu quero
Viver para sempre a paixão
Nunca expulsarei da mente
A rosa tão adorada
Que vive sempre encantada
No fundo do coração

Mesmo que as provações
Assinem minha sentença
A minha ventura é imensa
E nunca te deixarei
Nunca apagues da mente
Aqueles beijos lascivos
Que esses olhinhos vivos
Nunca mais esquecerei

E assim eu vivo há anos
Com esse amor verdadeiro.
Felizes o tempo inteiro
Vivemos só para amar
Agora temos ao lado
Os filhos com alegria
Só separemos no dia
Em  que o mundo acabar

"Ensaios Poéticos" - Manoel Georgino do Carmo

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