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quarta-feira, 28 de maio de 2014

O último adeus - Manoel Georgino

Vejo, embora ao longe, a chave da eterna cela
Que sempre corre sereno como as águas do rio
Numa viagem sem volta mirando para a janela
Trazendo junto com ela meu último desafio

Vejo que uma bola de fogo se aproxima
Vermelha como uma brasa e quente como o sertão
Tem raios como uma estrela trazendo a luz divina
Que a cada dia ilumina cada recanto do chão

Sinto que já é hora da última despedida
Que só uma palavra explica o resultado final
Sei que juntinho a mim o jasmim e a margarida
Enfeitarão a partida para o lar celestial

Vejo uma pequena luz lá no túnel se apagando
Amigos e a família aguardando o último adeus
Dois lindos olhos afogados em gotas estão chorando
De vez em quando enxugando as lágrimas dos olhos meus

O sangue esfria nas veias que impedem a passagem
Sobre sim passeia a neve e o silencio me acalma
Já não percebo o som, a cor e a paisagem
Somente escuto a mensagem de despedida da alma

Meu rosto traz solidão, a dor vem do infinito
Levo comigo a paz, deixo a angústia e a maldade
Já não transitam as lágrimas, mas com saudade eu fico
De um amor tão bonito cravado na eternidade

Vou para uma cidade calma que não tem perturbação
Nela mora o fidalgo, o filósofo e o plebeu
Ali todos serão pó e para sempre serão
Memória de um cidadão que nesta terra viveu

É a cidade do silêncio, do medo, da sepultura
Tem ruas que não tem casas, vizinhos que não passeiam
Quem mora aqui só tem paz e livra-se da amargura
Sem destruir a cultura daqueles que a semeiam

Comigo não veio luxo, riqueza e nem rancor
Aqui eu moro sozinho, não tem mais intrigado
Agora vou repousar pelo tempo que passou
E aguardo quem me explorou durante todo o passado

Agora eu sou matéria sofrendo transformação
Numa morada escura, não posso ver mais ninguém
Sei que alguém quer me ver mas estou preso num porão
A sete palmos do chão, meu destino é o além

"Ensaios Poéticos" - Novembro de 2002 - Manoel Georgino 

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