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terça-feira, 27 de maio de 2014

Moacir de Lucena - educador


Professor, tipógrafo, juiz, advogado, músico, jornaleiro, poeta, normalista, chefe escoteiro, esportista, animador cultural, educador itinerante. 

Em sua trajetória de 100 anos de vida pelo Rio Grande do Norte, o oestano filho de Martins, Moacir de Lucena, procurou ser, acima de tudo, um servidor na luta pelo progresso social das pessoas.

Desde cedo entendeu que esse progresso social só chegaria pela via da Educação. 

Neste campo, de forma inovadora criou um método próprio de alfabetização com resultados concretos junto aos estudantes.

Método que depois foi empregado com estardalhaço por Paulo Freire. Mas, Moacir de Lucena chegou antes, sem estardalhaço, sem propaganda, mas com a luminosidade das coisas feitas e da transformação extraordinária do analfabeto em alfabetizado.

Entre as tentativas de definir Moacir de Lucena, seu filho Liacir dos Santos Lucena, Ph.D em Física pela Universidade de Boston, Estados Unidos, professor emérito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em reportagem de sua autoria na Revista Oeste, traz um conceito que mais se aproxima do, sobretudo, grande educador: “semeador de escolas”.

Enveredar pela vida desse semeador de escolas dá um entendimento de que o comodismo, a burocracia e o apego ao conforto, existentes hoje em excesso no âmbito da Educação e do desenvolvimento, servem como anteparas inconsequentes e hipócritas que atrasam o progresso verdadeiro do povo.

Moacir de Lucena alcança 100 anos de idade, nasceu em 5 de junho de 1912, sem se acomodar em nenhuma circunstância e sem buscar zona de conforto, mas, tendo enfrentado com constante regularidade, sem se dobrar, perseguições de poderosos pelo simples fato de procurar ser um educador de verdade.

Escola Normal de Mossoró, anos 50 (azougue.org)

Após concluir o curso na Escola Normal de Mossoró em 1933, ao lado de nomes como Lauro da Escóssia e Eliseu Viana, Moacir de Lucena abraçou a causa de ser um professor itinerante levando a alfabetização e o conhecimento pelo oeste afora e interior do Rio Grande do Norte.

Naquela época, a maioria da população morava nas áreas rurais dos municípios. Foi nessas áreas que Moacir de Lucena decidiu trabalhar como professor primário.

“Inspirado nos ideais da Escola Normal de Mossoró, Moacir de Lucena tornou-se um educador em sentido amplo, em sintonia completa com a arte de ensinar, usando todo o seu talento e inteligência. Executava sua função no magistério como uma missão que procurava cumprir com responsabilidade, com o corpo e a alma, com a mente e o coração”, conta o professor Liacir dos Santos Lucena. 

A dedicação ao trabalho de ensinar, buscando sempre a eficiência, despertava a desconfiança dos chefetes políticos locais que, na prática, não desejavam o povo alfabetizado, nem consciente, nem que o progresso finalmente chegasse. 

Esses chefetes e os influentes dos municípios queriam, e parece que isso não mudou muito, a permanência do quadro de ignorância na população para a manutenção de seus próprios privilégios via poder público. 

Moacir de Lucena estimulava os alunos, os pais de alunos, e as pessoas das comunidades próximas às escolas, a pensarem. Se ainda hoje isso significa um sério problema para os poderosos do interior, imagine esse cenário no atrasado sertão norteriograndense dos anos 30.

Ele praticava um tipo de educação que não se limitava às salas de aula, nem aos assuntos puramente didáticos. Compreendia que as dificuldades para implantar uma boa educação eram resultantes de descasos nas áreas administrativas e políticas e partia com ações concretas buscando mudar o quadro. 

Os poderosos viam isso como uma séria ameaça, por isso não conseguia permanecer muito tempo em um município. O grupo político dominante local pedia ao governador ou ao secretário estadual de Educação, o seu afastamento do município. 

Dessa maneira se viu espalhando sua luta contra a ignorância em muitos lugarejos e comunidades do Rio Grande do Norte. Por onde passava deixava um rastro significativo: aumento de matrícula nas escolas, melhoria no nível de aprendizagem, organização de bibliotecas, construção de novos prédios escolares, fundação de ginásios, compras de laboratórios de ciências, fundação de escolas comerciais. 

“Ele atuou essencialmente como um agente de transformação, um catalisador de progresso, um guerreiro em prol da educação. Agia sem omissões, apoiando as boas propostas, incentivando as pessoas a pensarem. Sua contribuição mais relevante talvez tenha sido a de despertar a consciência de um grande número de pessoas para a importância de proporcionar aos filhos uma educação de qualidade”, destaca Liacir dos Santos Lucena.


Liacir de Lucena, professor emérito da UFRN

Quando avançar na Educação é prejudicial 

Sua trajetória começa na Vila da Independência (atual município de Pendências) em Macau. Em 7 de março de 1934 foi nomeado como professor das Escolas Reunidas da Independência pelo Interventor Mário Câmara. 

Mesmo agradando a todos por seu desempenho, e ao próprio interventor Mário Câmara, teve sua transferência pedida pelos chefetes políticos macauenses. Na visão deles, Moacir de Lucena “estava se destacando muito”. 

O interventor Mário Câmara atendeu aos chefetes de Macau, mas promoveu Moacir de Lucena, de professor de 4ª classe para professor de 3ª classe. Dessa forma, Moacir sai de Macau para as Escolas Reunidas “Tito Jácome” da Vila de Augusto Severo, em setembro de 1935.

No ano de 1936 foi removido de Augusto Severo para o município de Portalegre. Em 1938, Moacir de Lucena é promovido pelo interventor federal Rafael Fernandes e vai lecionar na Escola Antonio Carlos, município de Caraúbas. No mesmo ano é removido para Martins e depois para a cidade Flores (município de Florânia). 

No ano de 1939 é removido para o município de Apodi. Em 1941 solicita transferência para Alexandria. No ano de 1942 retorna para Apodi e lá permanece até 1945. 

Durante sua presença em Apodi, o ensino primário tem novo impulso e acontece a construção das novas instalações do Grupo Escolar. Vários dos estudantes dessa época do Grupo Escolar de Apodi vieram a ser juízes, desembargadores e médicos. 

Em 1945 é transferido para Mossoró. Na principal cidade do Oeste fica até o final de 1946, quando é mandado para o município de Papari.

O educador na mudança do nome de Papari para Nísia Floresta 

Transferido para Papari em 18 de dezembro de 1946, Moacir de Lucena é designado diretor do grupo escolar em 3 de março de 1947. Logo no início, ao perceber que o prédio da escola era pequeno, começou uma campanha por um novo prédio. Campanha que se revelou bem sucedida anos depois. 

Em Papari, Moacir de Lucena percebeu uma grande insatisfação das pessoas com o nome da cidade. As comunidades de municípios vizinhos faziam piadas com Papari, envolvendo principalmente as mulheres: “Pra onde você vai? Você vai pra parir?”, perguntavam em tom jocoso. 

Moacir de Lucena, como era seu estilo, começou, de imediato, uma campanha para mudar o nome do município. O Grupo Escolar já tinha o nome de uma educadora ilustre, reconhecida nacional e internacionalmente – Nísia Floresta. 

Com a ajuda de um pequeno proprietário rural, Fernando Isaias, do agente do IBGE, Lourival Carvalho, e de vários educadores, começou a visitar os lugarejos e levar a proposta de mudança do nome de Papari para Nísia Floresta. 

Com a concordância de todas as comunidades, redigiu o projeto para mudança de nome que, apresentado na Assembleia Legislativa, foi aprovado. Papari passou a se chamar Nísia Floresta. 

Mesmo com os avanços em Nísia Floresta, e até por isso, Moacir de Lucena é mandado, em 1949, para lecionar no município de Taipu, região do Mato Grande, e depois para Natal. Na capital, leciona no Grupo Escolar João Tibúrcio, bairro do Alecrim, e depois passa a dirigir a Escola Rural Modelo Dr. Manoel Dantas, na Avenida Alberto Maranhão, bairro do Tirol. 

No ano de 1951 volta a trabalhar em Nísia Floresta. Em 1952 é transferido para Jucurutu. A ida para Jucurutu aconteceu de forma diferente. Moacir de Lucena apresentou um projeto ao prefeito do município, Pedro Tomaz de Araujo, para o desenvolvimento de um trabalho visando a implantação de uma escola normal ou, possivelmente, de um ginásio escolar. Aceita a proposta, ele solicita transferência para Jucurutu. 

A Escola Normal do Seridó vira realidade 

O ensino do município melhorou e novo prédio para o grupo escolar começou a ser construído. Entretanto, Jucurutu ainda não apresentava condições para a implantação de uma escola normal ou de um ginásio. 

No ano de1953, tendo que dar prosseguimento aos estudos de dois filhos concluintes do ensino primário, Moacir de Lucena solicita transferência para o município de Caicó, onde estava o Ginásio Diocesano Seridoense. 

Em Caicó, buscou de todas as formas implantar uma escola normal regional. Muitos não acreditavam e o governo dizia não ter recursos. Com o apoio do padre José Celestino Galvão, professor do Ginásio Diocesano, conseguiu convencer o então prefeito de Caicó, Ruy Mariz, a ceder uma das salas do prédio da prefeitura.

Estava então criada, em caráter independente, a Escola Normal Regional. Um conjunto de professores foi imediatamente recrutado e o padre Galvão assumiu a direção da nova escola. 

“A Escola Normal Regional de Caicó causou um grande impacto na região. Além dos reflexos positivos no Ensino Primário, algumas das pessoas ali formadas conseguiram posteriormente concluir o curso superior e serviram de base para a implantação do campus da UFRN em Caicó”, lembra Liacir de Lucena. 

No ano de 1954, diante das dificuldades financeiras enfrentadas para garantir sua sobrevivência e os estudos dos filhos, Moacir de Lucena solicita o retorno ao município de Jucurutu. No município, retoma o objetivo antigo e consegue implantar o Ginásio Comercial de Jucurutu, mantido pela prefeitura. 

Curso de Direito 

Paralelo aos esforços desenvolvidos na área educacional, Moacir de Lucena presta exame vestibular no ano de 1952 para Direito e aprovado para a Faculdade de Direito de Maceió. No ano de 1956, Moacir de Lucena cola grau ao lado de norteriograndenses como Ticiano Duarte, João Batista Cascudo Rodrigues e Jessé Pinto Freire. 

Entre 1957 e 1958 vai para Mossoró exercer a profissão de advogado de forma paralela ao seu trabalho de professor na Escola Normal. Nesta época cria, ao lado de Jerônimo Vingt-un Rosado Maia, Manoel Leonardo Nogueira e João Batista Cascudo Rodrigues, o Instituto Cultural do Oeste Potiguar. 

26 anos após ter dado os primeiros passos em nome da Educação pública, no hoje município de Pendências, Moacir de Lucena faz concurso para juiz de Direito e é aprovado. Atuou como juiz nas comarcas de Macaíba, São José de Mipibu, Parnamirim, Monte Alegre, Augusto Severo, Mossoró e São Rafael. 

Após aposentar-se tratou de escrever livros. Já publicou 05 livros e, aos 100 anos de idade, busca escrever o sexto. 

Escotismo e música 

Moacir de Lucena criou grupos de escoteiros em suas passagens por Apodi e Alexandria. Ele via o escotismo como um complemente da escola, onde os jovens aprendiam na prática, noções de solidariedade e de civismo, praticavam exercícios físicos, adquiriam os bons hábitos da saúde, e recebiam orientações de como sobreviver num ambiente inóspito. 

Moacir de Lucena, o poeta, sempre levou a música para as escolas onde lecionou. “Ensinava canto orfeônico, organizava corais, compunha hinos para escolas e músicas para as datas festivas. Incentiva o aparecimento de novas bandas de música e promovia shows musicais com a participação dos estudantes”, lembra Liacir de Lucena. 

Filho de Martins 

Moacir de Lucena é filho de Antonio Galdino de Lucena (Dato) e de Antonia Francisca Xavier, nascido em Martins no dia 5 de junho de 1912, casado com Natália Queiroz dos Santos desde dezembro de 1940, e pai de 10 filhos.

Por Isaias Oliveira, Revista Foco.

Um comentário:

Marcos Pinto. disse...


Na serra do Apodi há um assentamento agrícola vinculado ao INCRA, que tem o seu nome como patronímico, cujas terras tinham o nome anterior de sítio "BOCA DA MATA". Os que fazem o escotismo Apodiense devem-lhe um tributo criando um grupo de escoteiros com a denominação de GRUPO DE ESCOTEIROS MOACIR DE LUCENA. Fica a sugestão.