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quarta-feira, 28 de maio de 2014

Jonas Lopes de Oliveira - empreendedor

A TRAJETÓRIA DE UM EMPREENDEDOR

JONAS LOPES DE OLIVEIRA é natural do Município de Apodi/RN; nasceu em 05 de junho de 1920 (apesar de registrado, equivocadamente, como nascido em 20 de março de 1922) no Sítio Juncal, localizado na várzea do Rio Apodi. É o 6º (sexto) de uma prole de 12 (doze) filhos de JOAQUIM LOPES DE OLIVEIRA e QUITÉRIA MARIA DA CONCEIÇÃO.

Morou na localidade de nascimento até os anos 40 (quarenta) do século XX. Naquela mesma década saiu da companhia dos pais e fixou domicílio no Sítio São Geraldo onde foi laborar para o senhor SILVÉRIO MARINHO, este, um dos proprietários e dos fundadores daquela localidade, hoje um próspero distrito do Município de Caraúbas/RN.

Ante as dificuldades do seu tempo não foi alfabetizado, fato que não o impediu de ser um cidadão atualizado, sempre antenado com os fatos sociais, políticos e econômicos do país, um empreendedor dentro dos seus limites.

Mesmo sem acesso a educação formal (escola) e tendo como profissão a lide rural, na qual se dedicou com afinco enquanto a disposição física permitiu, era um homem cordial, respeitado e respeitador, tinha muitos amigos, um homem educado.

Com tais predicados e por ser reconhecidamente muito trabalhador, cidadão de boa índole, conquistou a jovem professora primária leiga, recém chegada no Sitio São Geraldo no final dos anos 40, a senhorita MARIA ANÁLIA VALDEGER, natural do Sitio Campos (localidade rural hoje pertencente ao Município de Umarizal/RN), com quem logo namorou.

A jovem professora, recém concluinte do Curso Primário, diplomada na cidade de Martins/RN, fora convidada e topou exercer o magistério naquela comunidade rural do Município de Caraúbas, sendo recepcionada na casa do senhor TIÃO NORONHA, onde morou até se casar.

Em 20 de janeiro de 1950 o jovem JONAS, no ano que completaria 30 anos de idade, casou com a também jovem professora (22 anos), na paróquia de Caraúbas/RN, passando ela a assinar como MARIA ANÁLIA DE OLIVEIRA. O casamento civil só ocorreu em 06 de novembro de 1954, registrado sob o número 1347 no 2º Cartório Judiciário de Caraúbas/RN.

Continuou morador e trabalhador de senhor Silvério Marinho, residindo numa casa pertencente ao patrão, localizada de frente a capela da localidade de São Geraldo, construção existente até hoje.

Laborava com afinco no extrativismo da palha de carnaúba (cortava e batia palha para retirar a matéria prima da produção da cera). No refino da cera de carnaúba também trabalhava em todas as etapas da produção, na fabrica (prensa) que ficava vizinha a residência do seu JONAS. Já a sua jovem esposa lecionava na escola do Sitio Boagua.

Em São Geraldo nasceu os três primeiros filhos. O primogênito faleceu ainda bebê. Em 1953 nasceu o segundo filho, o primeiro que sobreviveu: JOSÉ LOPES DE OLIVEIRA; e, em 1955, nasceu JULIMAR LOPES DE OLIVEIRA; todos naturais do Sítio São Geraldo.

Em 1956 a família se mudou para o Sítio Língua de Vaca em decorrência de a Professora MARIA ANÁLIA ter sido designada para ensinar no Grupo Escolar daquela localidade, deixando a escola do Sítio Boagua. O seu JONAS permaneceu trabalhando com o Patrão, na época já seu compadre (Silvério e sua esposa Guiomar eram Padrinhos do seu filho mais velho JOSÉ LOPES, conhecido na época como ZEZITO).

Morando no sitio Língua de Vaca JONAS deslocava-se diariamente para São Geraldo, saindo na madrugada e só retornando a noite, de segunda a sábado, religiosamente, percurso que fazia a pé. O autor desse relato não via quando o mesmo saía pela manhã, mas, costumava presenciar a sua chegada a noite. Aliás, a sua chegada era anunciada de longe, pois costumava vir assoviando ou cantarolando músicas do Luiz Gonzaga (Cigarro de Palha), do Dorival Caymmi (Maracangalha), etc. Seu Jonas tinha bom gosto até para a música.

No Sitio Língua de Vaca morava numa casa de propriedade do Município de Caraúbas, um incentivo para a professora se domiciliar na localidade que demandava pela importante mão de obra, tão carente na época (anos 50 do século passado). Maria Anália lecionava da alfabetização até o 3º ano primário.

Atualmente só existem pequenos sinais dos escombros, tanto da Casa quanto do Grupo Escolar, na localidade de Língua de Vaca, conforme conferiu o autor do texto há dois anos, quando localizou e visitou a senhora quase centenária, a viúva do seu MARIANO, dona MAROLA, que ainda mora no mesmo lugar, e seu filho LUIZ indicou o local onde existiu a casa e a escola.

Morou com a família no Sitio Língua de Vaca de 1956 até janeiro de 1960. Ali nasceu a primeira filha do casal, a senhora ANTONIA MARLI DE OLIVEIRA, a 3ª descendente da prole dos cinco filhos que se criaram. 

O senhor JONAS LOPES e sua esposa ainda são lembrados com manifestação de saudade e carinho dos antigos, ainda vivos, das comunidades rurais de Caraúbas onde residiram por mais de uma década, conforme pode atestar o autor ao conversar com o senhor LULILA em São Geraldo e com a senhora MAROLA em Língua de Vaca, em setembro de 2012, dentre outros. Era estimado pela família: bom filho, excelente irmão, pai, esposo, genro, cunhado, etc.

Laborou para SILVÉRIO MARINHO por mais de dez anos, sempre fiel e responsável, muito controlado economicamente. O patrão também era um amigo, pois se tornaram compadres cruzados, em dose dupla. O casal Marinho era padrinho/madrinha do filho mais velho do seu JONAS, que por sua vez, JONAS e sua esposa eram padrinhos do filho caçula de SILVÉRIO, hoje Engenheiro Agrônomo SILVERINHO, que trabalha em CARAÚBAS.

Da sua responsabilidade e controle econômico destaca-se: trabalhava com SILVÉRIO MARINHO e só faziam a prestação de contas anualmente, quando sempre tinha haveres, o que o orgulhava muito, pois nunca ficava devendo ao patrão, regra que manteve durante toda a sua vida, enquanto trabalhou de empregado.

Do saldo que apurava anualmente, costumava comprar uma garrota bovina, iniciando a formação da sua poupança. Infelizmente enfrentou a grande seca do ano de 1958, perdeu as duas vaquinhas que possuía, restando a filha de uma delas.

Em que pese a boa relação laboral com SILVÉRIO MARINHO, eis que surge uma oportunidade de se tornar vaqueiro de uma Fazenda na Chapada do Apodi. Casualmente, em Dezembro de 1959, soube que o Senhor MESTRE ABILIO (ABILIO SOARES DE MACEDO) estava precisando de um Vaqueiro e de uma Professora para a localidade denominada Sitio João Pedro, no Município de Apodi.

Assim, JONAS e a sua família, no dia 20 de janeiro de 1960, deixam o Sitio Língua de Vaca localizado no Município de Caraúbas, para habitar na Chapada do Apodi, iniciando a saga da família em terras do Município onde nasceu. Saiu da Várzea do Rio Apodi para instalar-se na Serra do Apodi.

Logo assumiu o ofício de Vaqueiro da Fazenda de Mestre Abílio e a esposa assumiu a escola rural do Sítio João Pedro. Ele substituiu o vaqueiro que saia, o Senhor PAULO DE MANÚ. Ela assumiu o lugar da Professora JULIA, esposa do PAULO.

De vaqueiro, literalmente, na verdade, o seu JONAS nada tinha. Era um gerente trabalhador, empreendedor, poupador. Não se destacava em pega de gado, não era exímio na montaria de um cavalo. Quando necessitava desse tipo de serviço, recorria à VADEMIRO de JOÃO DE ZEFA.

Ele se destacava em tratar o rebanho bovino, fazendo-o crescer e dar renda para o patrão e para ele, tanto com o nascimento de bezerros como com a extração e venda do leite. A relação laboral consistia em cuidar do rebanho bovino. Parte da sua remuneração recebia em bezerros. 

De cada quatro bezerros que nascia ele tinha direito a um, fruto que só veio a aparecer no ano de 1961, uma vez que não teve direito aos bezerros nascidos das vacas que já se encontravam prenhas, cobertas antes dele iniciar o curto contrato laboral verbal.

Outra renda vinha do leite: no período chuvoso ele só tinha direito a metade do leite que colhia; já no verão, no período seco, como o vaqueiro tinha de patrocinar a alimentação do gado (torta de algodão, macambira, etc.), tinha direito a 100% do leite. Plantava algodão em terras de Mestre Abílio como meeiro. Já as culturas anuais (milho, feijão, etc.) plantava para subsistência e não pagava renda.

Para complementar a capacitação na cadeia produtiva da pecuária bovina, o seu JONAS, que até então não sabia andar de Bicicleta, teve de aprender o ofício, pelo fato de ser mais rentável vender o leite na cidade de Apodi que fazer e vender os queijos. 

Adquiriu logo uma bicicleta e, antes de domar a mesma, quem se encarregou de transportar e vender o leite foi o filho mais velho do patrão, o jovem LUCAS SOARES LINS, que também o ajudava na ordenha das vacas pé duras que produziam em média 2 litros de leite por ordenha. As vacas eram ordenhadas duas vezes ao dia (na madrugada e a tarde). O leite da tarde era convertido em queijo.

Logo assumiu mais um ofício. Além de cuidar do gado, tirar o leite, agora também o transportava de bicicleta e o vendia em Apodi (o leite). No sábado a carga de bicicleta ficava mais pesada, transportava os queijos para vender na cidade.

Assim, o senhor JONAS, na Chapada do Apodi, tem uma jornada de trabalho hercúlea, sobre-humana, levantando-se entre uma e duas horas da manhã para tirar o leite, pedalar diariamente 21 (vinte e um quilômetros) até a cidade de Apodi a partir das cinco horas da manhã, mais 21 km para retornar, só chegando em casa por volta das onze horas da manhã, sob sol escaldante.

Foram 18 anos na Chapada do Apodi laborando cerca de 16h a 18h por dia, sem Domingo nem Feriado, salvo quando tinha inverno forte e as estradas vicinais impossibilitava transitar bicicleta, momento em que era obrigado a transformar o leite em queijo, livrando temporariamente de pedalar mais de 40 km por dia.

Trabalhava muito, mas, a atividade se apresentava rentável, uma vez que os invernos foram muito bons na primeira metade dos anos 60. Ocorre que nem tudo são flores. Quando em 1966 iniciava a realização do seu grande sonho, tornar-se proprietário de terra, faleceu a esposa legítima do patrão Mestre Abílio, vieram as questões dos herdeiros, o que desestruturou a fazenda. Em conseqüência, foi dispensado como Vaqueiro.

Assim, em 1966, tendo adquirido um quinhão de terra do senhor JOÃO BENÍCIO, terra vizinha a Fazenda de Mestre Abílio, toda em mata, sem um palmo de cerca, tem inicio a labuta do seu JONAS como autônomo, ou seja, vaqueiro dele mesmo. Além de criar animais de grande e pequeno porte, plantava algodão, milho, feijão, dentre outras, além do pomar com algumas fruteiras. Esse Sítio hoje se encontra incluso no perímetro de desapropriação pelo DNOCS.

Para adquirir a terra vendeu algumas reses ganha na parceria de herdar um quarto de cada bezerro que nascia na Fazenda João Pedro. Restaram poucas reses. Teve de desmatar e cercar as primeiras tarefas de terra para plantar em 1967. Ficou morando nas terras de mestre Abílio, na casa em que funcionava a escola sob a batuta do seu cônjuge, até que construísse a sua própria casa.

Com muito esmero via crescer o seu rebanho bovino e caprino, além de criar aves e sempre ter um porco na engorda para consumo próprio. Assim, por volta de 1974 aposentou a bicicleta, comprou um JEEP, aprendeu a dirigir, passando a transportar o leite em veiculo motorizado. Como dito antes, foram 18 anos de labor.

Mais uma dificuldade. Em 1975, JONAS foi acometido de uma enfermidade no joelho direito. Ficou em tratamento em Natal por volta de 90 dias. Operou e ficou com a perna permanentemente imobilizada, sem articular o joelho. Mesmo assim, voltou a exercer o mesmo ofício, inclusive dirigia o JEEP com aquele membro inferior avariado.

Como não tinha previdência social contou com importante apoio do Doutor Dalton Cunha, vizinho de propriedade, parece que na época Deputado Estadual, que viabilizou a internação do seu JONAS em Natal, numa unidade de saúde onde hoje é o Hospital Universitário.

Mais uma vez o senhor JONAS LOPES demonstrou empreendedorismo e espírito de sobrevivência. Pois bem, foi internado e tinha uma modesta quantidade de dinheiro no bolso. O que ele fez seria impossível hoje. Vejam: comprava maços de cigarro e vendia no varejo (unidade de cigarro) dentro do hospital. Ele fumava muito pouco. Em resumo, tinha uma freguesia grande entre os internados na ala de ortopedia. 

Pasmem! Até as enfermeiras compravam cigarro dele. Essas mesmas enfermeiras ou outros funcionários do hospital faziam o favor de adquirir os maços de cigarro para ele. Resumo da ousadia: quando recebeu alta tinha mais dinheiro no bolso do que quando se internou. O meu pai era um super herói, um empreendedor.

Na chapada do Apodi, além de adquirir a autonomia econômica, ainda nasceram os dois últimos filhos: JONAS LOPES DE OLIVEIRA JUNIOR e MARLICE LOPES DE OLIVEIRA, encerrando ai a prole de cinco filhos, todos ainda vivos.

Não dá para esquecer, que, esse grande homem juntamente com a sua guerreira mulher, não se descuidaram da educação dos filhos. Estes estudavam até o 3º ano primário com a mãe professora na escola rural, depois eram mandados para a cidade para continuar os estudos.

Assim, em 1964, o filho mais velho (autor do presente relato) foi mandado para Apodi, onde concluiu o curso primário; ato contínuo, em 1966, foi deslocado para Mossoró onde deu continuidade aos estudos graduando-se em 1976 em Agronomia. Todos tiveram oportunidade de estudar. Concluíram pelo menos o segundo grau. A filha caçula também se graduou – em Ciências Contábeis.

Em suma, o empreendedor JONAS LOPES DE OLIVEIRA, agricultor, vaqueiro, leiteiro, trabalhador rural sem terra, depois proprietário rural, terminou seus dias residindo na cidade de Apodi, para onde se mudou em 1980. Faleceu em maio de 2002, aos 82 anos, viúvo da sua inesquecível companheira que faleceu precocemente em 1984 com apenas 56 anos. Cumpriu bem a sua missão nesse plano e, sem dúvida, está bem acomodado no plano superior, encaminhando energias positivas para todos nós.

O seu JONAS faleceu e só não conseguiu realizar um de seus grandes sonhos: ter um poço artesiano na sua propriedade. Não faltaram promessas dos políticos que ele sempre apoiou. Infelizmente, esse desejo não dependia só dele. Se o fosse teria conseguido, como conquistou autonomia econômica e conseguiu dar boa formação aos filhos, todos estruturados, situados na classe média.

Tenho muito orgulho de ser filho desse homem de fibra, e também da minha mãe. “In memorian”.

Por: JOSE LOPES DE OLIVEIRA
Eng. Agrº e Advogado

APODI/RN
MAIO DE 2014.

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