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quinta-feira, 29 de maio de 2014

A situação do camponês - Manoel Georgino

Vamos a terra mudar
De forma bem dividida
Pra produção aumentar
E melhorar nossa vida
Precisamos instalar
A reforma agrária já
Como ponto de partida

Ela é a melhor saída
Em favor da plantação
Que vai sustentar a vida
De qualquer um cidadão
Que quer terra dividida
E uma produção merecida
De orgulhar uma nação

Empresa agropecuária
Não serve para ajudar
Por isso reforma agrária
É bandeira de lutar
Pois classe minoritária
Só muito dinheiro encalha
Não desenvolve o lugar

Por isso, caro leitor
Podemos observar
Como o pobre agricultor
Muito sabe trabalhar
Sem técnica, o trabalhador
Põe sua enxada com amor
Pra família sustentar

Construindo-se uma horta
Dá verdura a bom sabor
Veja como se comporta
O pequeno agricultor
Que nunca uma ajuda aborta
Só batem na sua porta
À procura do eleitor

Com a terra cultivada
E boa adubação
Simplesmente irrigada
Sem qualquer complicação
Você vê multiplicada
A safra e selecionada
Na casa do cidadão

Mas é preciso implantar
A cultura planejada
Pra melhor incentivar
A nação que está cansada
De tanto ouvir discursar
Quem nunca quis ajudar
À plantação irrigada

Tendo o financiamento
Destinado à irrigação
Liberado no momento
De fazer a plantação
Só nos traz melhoramento
E o desenvolvimento
Toma conta da nação

Governo tem que apostar
Com muita desenvoltura
Num programa, pra aumentar
A nossa infraestrutura
Garantindo em seu lugar
Quem só sabe trabalhar
No ramo da agricultura

Mantendo a produção
Os preços irão baixar
Na mesa do cidadão
Nunca mais irá faltar
A base da alimentação
E com isso a inflação
Não vai poder aumentar

Depois pegue o excedente
E comece a exportar
Mas só depois que a gente
Terminar de avaliar
Para liberar somente
Uma parte da semente
E a outra armazenar

A nossa água é sadia
Está embaixo do chão
Só precisa melhoria
Pra cavar cacimbão
Até que o governo um dia,
Saia do “banho-maria”
E construía a irrigação

Quando o milagre aparece
O problema vem surgindo
O bolso do patrão cresce
O do pobre vai sumindo
Sua metade não esquece
Nunca uma ajuda aparece
Pra quem está produzindo

Quando chega a produção
O feijão está seguro
O milho solta o pendão
E o melão tá maduro
Metade vai pro patrão
E a cata do feijão
É bem rachada no duro

Um pouco é escolhido
Pra poder armazenar
Resultado de um sofrido
Trabalho que faz casar
Um bocado é vendido
Pra comprar um só vestido
Pra mulher poder andar

Quando sente a obrigação
De um remédio comprar
Vendo o resto do algodão
Para uma doença curar
E o tempero do feijão
Ficará para o patrão
Quando quiser emprestar

Agricultor é tratado
Como homem preguiçoso
Na rua fica jogado
Como um crédito duvidoso
Se latifúndio privado
Invadir é castigado
Na lei como criminoso

Nunca vi um fazendeiro
Fincar a enxada no chão
Mas possui o mundo inteiro
Pra explorar o cidadão
Muita roupa e jardineiro
Grande mansões, biscateiro
Às custas dessa nação

Ele detém o dinheiro
usa ouro no pescoço
Tem milho, algodoeiro
E o feijão sem esforço
Leite e carne, vende inteiro
E o pobre biscateiro
Pra ele só resta o osso

Da carnaúba, vem o saldo
Que só sobra para o ricão
Nem pro filho educado
O livro não sobra não
O pai sai aperriado
E os papeis compra fiado
Na bodega do patrão

A conta vai esticando
Como corda de viola
Na parede vai pregando
Por enquanto a fome assola
Outra safra vai chegando
E o pobre vai pagando
E termina de esmola

Com toda essa aflição
Pobre vai esmorecendo
Pra contas não tem perdão
E de fome vai morrendo
Foge dessa região
Pra sofrer humilhação
De fome, sede e veneno

No centro, já quem se forma
Não consegue trabalhar
Avalie quem sai da norma
Do livro do bê-a-bá
Os seus filhos sem escola
Vão viver só de esmola
Sem ter casa pra morar

Aí gera um caso bruto
De “menor abandonado”
De pés descalços – absurdo
É um sofrimento danado
Vive dentro de um reduto
Ou sob um viaduto
Doente e explorado

É preciso amizade
Estudar pra descobrir
O sentido, sem vaidade,
Do que escrevo a seguir
Pra ver na realidade
Qual o fundo de verdade
Do abandono daqui

Assim fala a burguesia
“Pobre só sabe brigar”
Mas pra quem tem mordomia
Fica mais fácil julgar
Mesmo assim eu gostaria
De unir classes um dia
Pra fazer tudo mudar

O menor abandonado
Não é fruto da preguiça
Mas de um país governado
Por burguês capitalista
Com o capital controlando
Explora o assalariado
E envia o resto a Suíça

Um governo que é contra
A reforma desta terra
Pro proletariário é afronta
E ao agricultor que enterra
O legume que apronta
E deixa todo na conta
E ali a coisa emperra

A classe minoritária
Mudou a constituição
Deixou apenas migalha
Pra toda a população
Emperrou reforma agrária
Lascou classe proletária
Enfim, todo o cidadão

Como pode o agricultor
Produzir mais do que tem
Se tudo é pro senhor
Que todo o poder detém,
Se entregar o que restou
Lá na conta do doutor
Desse jeito não convém

O governo abusou
Do poder da ditadura
Espalhou todo um pavor
Ameaçando a cultura
Reprimiu o educador
E enganou ao agricultor
Com farinha e rapadura

Usou arbitrariedade
Enganando ao cidadão
Comprou lá na Soledade
Terra para irrigação
Mas o pobre, na verdade
Só sonhou com a vontade
Mas nunca viu a plantação

As terras são pra plantar
Frutos de outra região
Pra bem mais caro ficar
Arroz, milho e algodão
Pois fruta de outro lugar
Vai plantar para exportar
Pra longe dessa nação

Não tenha vida animada
Com o plano de irrigação
Aquela área não serve não
Ela vai ser explorada
Multi-americanizada
Pra fazer exportação

Desse jeito o boia-fria
Mais uma vez é enganado
Sofre de noite e de dia
Com governo aburguesado
Que nunca perde a mania
De só gozar mordomia
Às custas do explorado

Por isso, homem pacato
Procure se organizar
Através de um sindicato
Que vai por você lutar
Não fique no anonimato
Filie-se no canto exato
Se não você vai dançar

Sindicato verdadeiro
Que falo em poucas linhas
Não é “galo do terreiro”
Que manda em todas galinhas
Muito menos ser espelho
Do governo ou fuxiqueiro
Pra fazer suas traminhas

Um sindicato entendido
Tem sua autonomia
Pra fazer o sócio amigo
Lutar pela melhoria
Do trabalhador sofrido
Que tudo seu tá perdido
Pros homens da burguesia

Hoje o camponês já sabe
Terra já é um direito
Pra produzir de verdade
Pra ninguém botar defeito
Ter legume em quantidade
Conquistar dignidade
Saúde, roupa e respeito

É preciso seu doutor
A assistência nos dar
Assim diz o agricultor
Que gosta de trabalhar
Nesse vale cheio de amor
Pra dar tudo a bom sabor
Pra todos nós sustentar

Para falar sobre vales
Preciso lhe avisar
São cinco mil hectares
De terras pra se plantar
Dar pra sustentar milhares
De pessoas potiguares
De famílias a migrar

Saindo por um cantinho
Deixando a terra boa
Da várzea, ande um pouquinho
Que você encontra uma crôa
À esquerda do caminho
Parece um lagozinho!
Mais é uma grande lagoa

Tem cinco léguas com água
Há séculos está servindo
Pra plantas e até estrada
Que sempre estão construindo
Ela está ameaçada
Tá quase toda aterrada
E suas águas sumindo

É preciso ter na mente
O que se diz repartir
O sofrimento que sente
A Lagoa do Apodi
Preste atenção minha gente
De maneira consciente
O que escrevo a seguir

Tente racionalizar
A água que cai do céu
Pois, homem pra trabalhar
Precisa de água e chapéu
Pra nosso Deus respeitar
E mais fartura mandar
Em forma de pão e mel

Não gaste água atoa
Não vá se precipitar
Pois ela é coisa boa
Nós precisamos poupar
Preserve sua canoa
Pra que esta lagoa
Não venha logo a secar

Um problema está havendo
Na Lagoa do Sertão
Até você está vendo
Preste bem mais atenção
Cada vez que está chovendo
Vemos a lagoa morrendo
Devido a poluição

Mantendo limpa a cidade
Logo vai contribuir
Pra lagoa em liberdade
Poder voltar a existir
Pois chuva com raridade
Traz água com qualidade
Pelas ruas do Apodi

Por isso o povo estudado
Pede uma consideração
Cumpra um novo recado
Para o bem do cidadão
Pague bem ao empregado
Que você ver bem tratado
Cada recanto do chão

Se o gari é enganado
Nada pode realizar
Por este torrão amado
E por todos do lugar
Pois o mal alimentado
Tem o suor consumido
Sem mais poder trabalhar

A lagoa poluída
Nunca vai nos ajudar
Quem está perdendo a vida
É o peixe que lá está
E essa gente sofrida
Vai vendo desvalida
Sem ter mais o que pescar

A lagoa dá sustento
A uma grande multidão
Tem planta, desenvolvimento
Peixe grande e camarão
Capim abóbora e coentro
Planta que cura, alimento
Água por gado e feijão

O assunto da lagoa
Poderíamos prolongar
Acho que você não enjoa
Se a história continuar
Sei que ela é muito boa
Mas vou descer da canoa
Pra de outro assunto tratar

Subindo um pequeno alto
Poderemos encontrar
A estrada com asfalto
Ruas, casa pra morar
À distância de um salto
É a vila do planalto
Da serra que vou chegar

"Ensaios Poéticos - Novembro de 2002 - Manoel Georgino 

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