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sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Uma professora leiga futurista - Por José Lopes de Oliveira

UMA PROFESSORA LEIGA FUTURISTA

Por JOSÉ LOPES DE OLIVEIRA¹

O Brasil é o país líder mundial no fenômeno da mobilidade social da sua população, antes predominantemente rural, hoje majoritariamente urbana, conforme estudos publicados e divulgados na revista Veja. Os atuais empreendedores seja na área privada ou na área estatal, nos mais diversos ramos de serviços, são oriundos das classes sociais mais baixas. Estas conquistaram largos espaços; galgaram muitos degraus na pirâmide social; foram agentes de transformação social e econômica deste país. 

Neste contexto se assenta a professora leiga, titular de uma escola rural do Município de Apodi, Estado do Rio Grande do Norte, que veio ao mundo com a missão de vencer barreiras, o que fez com maestria. Era considerada por seus alunos e por quem a conhecia: “a mais adiantada mestra da região”. O que significava um professor adiantado? Era o educador capacitado, bem instruído, que ensinava bem; seus alunos aprendiam.

Diziam os educadores da sede urbana de Apodí: os alunos vindos daquela escola rural, em que pese autorizada a lecionar somente até o 3º ano primário, chegam bem preparados, recebem ensinamento além do conteúdo exigido para o 3º ano; eles não têm dificuldade para continuar os estudos na cidade. Concluem facilmente o curso primário e quando querem prosseguir nos estudos ingressam sem obstáculo no curso ginasial.

Para os que não sabem, até os idos dos anos de 1960, o curso primário só se completava com o 5º ano. Era a primeira fase do hoje ensino fundamental, que, àquela época, se dividia no curso primário (cinco anos) e no ginasial (quatro anos). Eram nove anos, sem contar o período de alfabetização, tudo para concluir o que se chama hoje de ensino fundamental, para em seguida ingressar, no segundo grau, este hoje denominado de ensino médio.

Essa professora, bem formada no seu curso primário, procurava transmitir todo conteúdo que aprendeu, mesmo lecionando somente da alfabetização ao 3º ano primário. Por isso seus alunos andavam bem no 4º e 5º ano primário nas escolas da cidade. Por isso, essa professora, que concluiu o velho curso primário na década de 1940, era elogiada pelos professores da urbe. Tem um particular: quando ela fez o 5º ano primário, naquele mesmo ano, houve o encurtamento do referido curso que antes só se encerrava no 6º ano. Mais adiante já se concluía o primário no 4º ano; ao final, como é hoje, o primário se fundiu com o ginásio integrando o 1º grau passando a se concluir este na 8ª série.

A seguir, uma síntese da origem e da trajetória desta professora rural leiga, a senhora MARIA ANÁLIA DE OLIVEIRA, principalmente no período compreendido na segunda metade do século passado nas escolas rurais dos Municípios de Caraúbas e Apodí no Estado do Rio Grande do Norte, conforme a seguir.


A senhora MARIA ANÁLIA DE OLIVEIRA nasceu em 20/10/1928, no Sítio Campos, hoje distante cerca de dois quilômetros da sede municipal da cidade de Umarizal/RN; filha de JOSÉ ANTONIO VALDEGER e ANÁLIA ALCIDIA DE OLIVEIRA; era a primogênita das 22 gestações que a sua mãe teve, das quais nasceram 16 filhos que chegaram à maioridade.

Como a primogênita da numerosa família, logo recebeu a incumbência de ajudar a administrar a casa e a criar os seus irmãos mais novos, sendo compreensiva a delegação recebida, pois eram muitos filhos para ficar apenas por conta dos seus pais, na verdade, da mãe, nossa avó. Em conseqüência começou a ser construída sua personalidade: uma mulher forte, ética, rígida, decidida, trabalhadora, patriota, religiosa e muito honesta. Dos bens materiais só lhes interessavam aqueles adquiridos com o seu próprio suor. Muitos dos seus irmãos, até hoje, reclamam das punições físicas que recebiam daquela irmã mais velha, não sendo diferente com os seus próprios filhos. Uma mulher simples, do meio rural, que viveu no século 20 com uma visão muito a frente, do terceiro milênio. Sempre foi adiantada no lugar e no curto tempo que aqui permaneceu.

Apesar das enormes atribuições que recebera ainda criança, não se descuidara de freqüentar a escola, tendo estudado até o 3º ano primário em Umarizal, onde foi colega de classe, só para ilustrar, do ex-senador JOSÉ DE SOUZA MARTINS, que a tratava pelo apelido de Bilía. Fez o 4º e o 5º ano primário na cidade de Martins/RN, por não existir habilitação da escola de Umarizal para ali concluir o curso primário. Morou de favor na cidade de Martins. Recompensava a recepção logística prestando serviços domésticos à família que lhe acolheu. Dizia que não desperdiçava tempo para estudar. O fazia até a noite, aproveitando o claro natural da lua. É de se imaginar que naquela época nem luz elétrica existia em Martins/RN.

Terminou o curso primário aos 15 ou 16 anos, como visto acima, na aprazível cidade de Martins/RN. Confessava a frustração, por seus pais, pobres e com tantos filhos, não possuírem meios financeiros para ela cursar o ginasial, à época, existente somente nas cidades de Mossoró e Natal. Seus pais justificavam que precisavam alfabetizar os demais filhos e não podiam custear seus estudos em Mossoró, cidade, aquela época, considerada muito distante de Umarizal. 

Certamente naquele tempo, ou seja, na primeira metade do século XX, faltavam estradas para os quase inexistentes e precários transportes motorizados, restando como alternativa mais comum o lombo de animais de carga (tropas de burros) ou dos transportes puxados por estes (carroças, carros de boi) ou viajar a pé. Era difícil se deslocar de Umarizal para Mossoró e muito mais distante ficava Natal. 

Hoje o governo proporciona o transporte escolar no meio rural; o que é censurado é a falta destes em alguns lugares ou a qualidade dos referidos transportes noutros. Quanta evolução em tão pouco tempo comparadamente àquela difícil época, de quem, como Maria Anália, desejava alcançar os mais altos níveis da educação ministrável e foi impedida pelo atraso, pelo subdesenvolvimento, pelas dificuldades naturais daquele período, etc.

Impossibilitada de continuar com os estudos formais, ou seja, freqüentando a escola, não largou a sua principal determinação, vocação, que era a educação. Se não tinha mais acesso os bancos escolares para ampliar seus conhecimentos, foi dividir o que adquiriu com quem não o possuía. Então, partiu para lecionar.

Na primeira oportunidade que teve, deixou a casa dos pais. Foi residir no Sítio São Geraldo, na região de várzea do Rio Apodí, no Município de Caraubas, hospedando-se na casa do senhor conhecido, se não me falha a memória, por TIÃO NORONHA, onde passou a lecionar. Morando no Sitio São Geraldo lecionou também na escola do Sítio Boagua na região do açude ou da lagoa do apanhapeixe.

Foi no Sitio São Geraldo que conheceu o jovem e determinado trabalhador rural JONAS LOPES DE OLIVEIRA, analfabeto, operário do senhor SILVÉRIO MARINHO, com quem se casou no dia da festa de São Sebastião, em Caraúbas, no ano de 1950. Foi um casamento surpresa, apelidado, à época, de casamento americano. Devia ser uma forma mais moderna, dado o nome (americano). Tratava-se de casar sem avisar aos pais. 

Naquela época, o normal, seria pedir aos pais a mão da moça para casamento. O seu Jonas a pediu apenas para namorar. Olha, precisava até pedir autorização para namorar! O casamento americano, certamente era mais vantajoso, mais econômico, pois deixava de oferecer e custear festa, começando desde então à vida disciplinada e de economia do seu Jonas Lopes e dona Maria Anália, para proporcionar o melhor para a família que paulatinamente construiriam com o nascimento dos filhos.

Nasceram seis filhos. Só cinco se criaram, ou seja, chegaram à idade adulta. Destes, nasceram no Sitio São Geraldo: o primeiro que viveu cerca de um mês; o segundo ou o primeiro sobrevivente, o autor deste relato, JOSÉ LOPES DE OLIVEIRA e o segundo sobrevivente, JULIMAR LOPES DE OLIVEIRA, hoje domiciliado na cidade de Pimenta Bueno, no Estado de Rondônia, onde é servidor público federal, do quadro do INCRA.

De São Geraldo a jovem família foi morar no Sitio Língua de Vaca, ainda no Município de Caraúbas e na região da várzea do Rio Apodi, não muito distante de São Geraldo, por na localidade ter a época um grupo escolar, onde dona MARIA ANÁLIA foi destacada para lecionar. Seu JONAS continuou operário do senhor SILVÉRIO MARÍNHO. No sítio Língua de Vaca, nasceu a primeira filha do casal e terceira na linha sucessória dos vivos, ANTÔNIA MARLY DE OLIVEIRA  hoje residente na cidade de Cacoal, no Estado de Rondônia, onde é funcionária pública Estadual, no quadro do Tribunal de Justiça.

O casal trabalhava muito, pois o seu JONAS passava o dia para várzea do Rio Apodí, como operário do senhor SILVÉRIO MARINHO. No período chuvoso, quando tinha inverno, o seu JONAS laborava na agricultura. Já no verão, cortava palha de carnaúba e fazia todas as demais atividades de beneficiamento do produto até chegar à apuração da cera de carnaúba, uma árvore nativa, da família das palmáceas, donde se aproveitava tudo (pó, palha, talo e caule) e já foi muito importante na economia daquela região no século passado.

A professora MARIA ANÁLIA, por outro lado, lecionava no grupo escolar de Língua de Vaca, cuidava dos três filhos pequenos e ainda confeccionava roupas para ambos os sexos e idades. Também era exímia fiadora e tecelã, ou seja, uma artesã de primeira. Construía peças de tricô, bordava, etc. Era quem fazia todo o enxoval dos filhos durante o período de gravidez. Com exceção da MARLY, todos os demais filhos nasceram assistidos exclusivamente por parteira, a sua mãe, a nossa avó Anália.

Com o árduo trabalho campesino, ao final de cada ano, seu JONAS, ao fazer o encontro do serviço prestado com as contas objeto de fornecimento de viveres ou adiantamento em dinheiro obtido do patrão SILVÉRIO MARINHO, sempre tinha saldo. Com este, comprava um animal, seja uma novilha bovina ou uma cabra (caprina) boa de leite. Assim o seu JONAS e a dona MARIA ANÁLIA começavam a criar os filhos e, com muito trabalho e economia, a formar um singelo patrimônio material para o futuro, visando à formação intelectual dos filhos.

Mas como nem tudo são flores, no ano de 1958 teve uma das maiores secas do nordeste brasileiro, oportunidade em que a família perdeu as duas vaquinhas de leite que tinha. Uma, a vaca chamada Fortuna, morreu chifrada por outras disputando Chique Chique e Cardeiro queimados, que eram servidos como alimento aos famintos animais, em face da horrenda seca. Essas cactáceas serviam de alimento até para os humanos. O miolo do Cardeiro, assado, tem ligeiro sabor de macaxeira, é o que lembro quando o experimentei ainda criança. A outra vaca, que não lembro o nome, morreu em conseqüência da mordida de uma cobra cascavel. Mas o importante é que a família sobreviveu àquela seca. Na oportunidade o seu JONAS prestou algum serviço nas frentes de emergência; recebia como pagamento do serviço de cassaco: Feijão Preto, Farinha, Jabá, etc., lembra muito bem o autor deste escrito.

Em 1960 é que tem início a saga da professora MARIA ANÁLIA e sua família no Município de Apodí. Seu marido, o seu JONAS, fora convidado pelo proprietário de terras na Chapada do Apodí, o senhor ABILIO SOARES DE MACEDO, conhecido por todos pela alcunha de Mestre Abílio, para ser vaqueiro do mesmo e para que a dona MARIA ANÁLIA lecionasse naquela longínqua localidade, distante 21 km da sede do Município de Apodí. 

O seu JONAS substituiria o senhor PAULO DE MANÚ que se despedia da função de vaqueiro de Mestre Abílio e, a dona MARIA ANÁLIA, substituiria a esposa do vaqueiro que saia, a senhora conhecida por JÚLIA de PAULO, que atuava como professora naquele lugar, denominado Sítio João Pedro, sede da Fazenda de Mestre Abílio, localizado a uma légua e meia de distância do Sítio Soledade e há três léguas e meia da cidade de Apodí.

Foi em 20 de janeiro de 1960, também no dia de São Sebastião, que a família, transportada num Caminhão Chevrolet modelo 1948, de propriedade de JOÃO DE ARTUR, conduzido por ALDECÍ DE MARTINHA, pai do apodiense hoje professor de educação física ALDECÍ BEZERRA JUNIOR conhecido como JUNIOR DE ALDECI, mudou-se para o sítio João Pedro, no Município de Apodí, para atuar nos sobreditos ofícios (vaqueiro e professora).

A professora Maria Anália, comprometida com seus desígnios, acabara de chegar às terras apodienses, para lecionar naquela isolada localidade rural. Afirmava dona Maria Anália que alguns dos anos que lecionou nas localidades anteriores, no Município de Caraubas, não teve remuneração, uma prova de que a sua missão estava acima dos bens materiais. Foram nove anos prestando serviços ao Município de Caraubas, sem nomeação, somente como prestadora de serviços.

Quando veio para o sítio João Pedro, apesar de que já passara por ali e lecionara a senhora JULIA DE PAULO, a escola ainda não se encontrava formalmente criada. Mas, não demorou muito, por empenho do patrão Mestre Abílio, o Estado oficializou a criação da escola com o nome de Escola Isolada Sítio Soledade, apesar de localizada no sítio João Pedro e, a localidade de Soledade ficar há uma légua e meia de distância dali. Deve ter havido algum equivoco na denominação, mas, o importante, é que a escola foi criada, e a professora fora contratada pelo Estado do Rio Grande do Norte. 

Acabara, portanto, de ser criada uma escola estadual numa longínqua localidade, na Chapada do Apodí, que todos que desconheciam a denominação de qualquer local naquela região, generalizavam chamando apenas de: a serra. A família foi morar e trabalhar na serra. Maria Anália começou a lecionar logo que chegou, antes de ser nomeada. Deve ter trabalhado sem remuneração por algum tempo aguardando a nomeação.

A população residente no sítio João Pedro, principalmente da circunvizinhança, especialmente da localidade conhecida por Quixabeirinha, era um povo simples, de costumes antigos, normalmente casados entre parentes, cujo patriarca era conhecido como JOÃO DE ZEFA. Povo ordeiro mais bastante primitivo. 

Aquelas famílias descendentes ou parentes do senhor JOÃO DE ZEVA viviam mais de atividade extrativista, ou seja, da caça, da extração de madeira, da coleta de mel silvestre, etc. Cultivavam pouco e quase só para subsistência. Não plantavam frutíferas, ou seja, não tinham pomar. Sequer plantavam verduras para tempero como: cebola, coentro, etc. Não tinham o hábito de criar pequenos animais (galinha, guinê, peru, pato, porcos, caprinos, etc.). Ainda existia fauna silvestre àquela época como: o veado, o porco do mato, o gato maracajá, etc., para suprir a dieta alimentar daqueles moradores primitivos da serra, ou seja, da Chapada do Apodí.

Diante dessa vida de economia extrativista da população local, quando a professora e sua família chegaram ao Sítio João Pedro, era dito por todos que o senhor Mestre Abílio arrumara um vaqueiro e uma professora ricos, pela simples razão de que trouxeram na mudança: uma cabra boa de leite, um saco de farinha, um saco de açúcar, um saco de rapadura, uns sacos de feijão, uma lata de 20 litros de querosene jacaré e alguma mobília como cristaleira, mesa com cadeiras, tamboretes, talheres e outros. Ficara para traz, vindo em outra oportunidade uma novilha bovina filha daquela vaca Fortuna, aquela vaca que morrera disputando chique-chique e cardeiro queimado. Em homenagem a mãe a filha também recebeu o nome de Fortuna. Escapou da seca de 1958, uma fortuna para seus donos.

Os simples habitantes da região, quase todos, não possuíam móveis. Quando eram visitados ofertavam as redes ou tocos (cepos) de madeira para o povo sentar. Não possuíam o costume de guardar viveres para os dias vindouros, ou seja, não acumulavam quase nada. Os filhos de muitos andavam nus até os 15 ou 16 anos de idade. Era o modo de vida deles e que todos respeitavam e com quem a professora lidou para promover radicais mudanças através do ofício educacional.

Uma das grandes missões da professora MARIA ANÁLIA, além de combater o analfabetismo na região, foi estimulá-los a criar galinha, guiné, etc. Foram muitas e muitas vezes doando casais de pintos para as donas de casa, para que as mesmas começassem a criar. Das primeiras vezes não funcionou. Como todo ano as mulheres ficavam grávidas, logo que os pintos cresciam, ficavam franguinhos, o matavam sob a alegação de que tiveram desejo de tomar um caldo de galinha e, que, se não o fizesse abortavam. Lá ia a dona Maria Anália doando mais uma ave doméstica para suprir a que fora abatida, quando não tinha que doar novamente um casal das referidas aves.

Quanto a fruteiras, na casa da professora tinha pés de mamão, banana, seriguela, horta de verduras, etc., e ninguém cultivava isso. Foram vários anos para que começassem a adotar esses novos costumes. Vale registrar o costume de alguns da comunidade da quixabeirinha dividir a caça (tatu, peba, jirita, tamanduá, etc.) com a professora, em troca de que ela fornecesse o tempero (sal, nata de leite, pimenta do reino, etc., e também farinha). Era o sistema primitivo de troca, comum na antiguidade e presente nos costumes daquele povo em pleno século XX.

Tudo que havia de moderno e acessível às condições econômicas da professora e do seu marido foram adquiridos e trazidos para região em primeira mão pelos mesmos. Na localidade de João Pedro, o primeiro Rádio de Pilha, foi adquirido pela professora, por volta de 1961 ou 1962, um rádio da marca SEMP, adquirido em Apodi na loja do finado João de Deus. Aos domingos a casa da professora recebia dezenas de visitas dos que vinham somente assistir o rádio. Sentavam perto do aparelho e ficavam de olho fixo no mesmo, como se querendo enxergar quem estava falando no interior do rádio. Olhos brilhantes e inocentes sem compreender como que acontecia aquele milagre tecnológico das ondas magnéticas. O programa mais assistido aos domingos a tarde era de uma Rádio de Limoeiro do Norte/CE, através do qual as pessoas ofereciam músicas para homenagear amigos, familiares, namorados(as), aniversariantes, etc. Ouvi muito, dentre outras, as músicas: o baile da tartaruga; a escolinha do carequinha; rancharia; etc., no programa dominical daquela Rádio. Também, ouviam-se muito os programas dos repentistas: Antonio Nunes e Juvenal Evangelista; José Pereira e Justo Amorim; João Liberalino e Elizeu Ventania; e, etc. 

Em 1966, a professora e o seu marido, com o fruto de seis anos de muito trabalho, às vezes de até 18 horas por dia, colhidos pelo pagamento de um bezerro a cada quatro que nascia na Fazenda de Mestre Abílio (chamado de tirar a sorte, significava que de cada bezerro que nascia o vaqueiro tinha direito a um quarto e essa era uma das formas de remuneração por tratar do gado bovino, o salário do vaqueiro), mais a venda diária de leite na cidade de Apodí, conduzido pelo seu JONAS, por muitos anos de bicicleta e, por ultimo, quando progrediu mais, num Jeep, adquiriram o foro de uma propriedade rural, vizinha ao Sítio João Pedro, com área de 200 hectares, até hoje pertencente aos seus filhos.

Naquela oportunidade, a família deixou de ser sem terra e o vaqueiro passou a cuidar dos seus próprios animais e da recém adquirida terra, sem qualquer ajuda de programa oficial de reforma agrária, ao contrário do que existe hoje. Nesta propriedade é que a professora trouxe a primeira televisão para região, funcionando a bateria. Não existia eletrificação rural na época Em seguida, outros adquiriram televisão.

Foi no sítio João Pedro que nasceram seus dois últimos filhos: JONAS LOPES DE OLIVEIRA JUNIOR, hoje servidor público federal do INCRA em Natal/RN e, MARLICE LOPES DE OLIVEIRA, a única residente em Apodí, graduada em Ciências Contábeis e hoje ocupando o cargo de Secretária Municipal de Finanças do aludido Município.

Foi o filho primogênito da professora quem primeiro saiu da escola rural para completar os estudos na cidade. Inicialmente terminando o curso primário em Apodí e, logo em seguida, foi para Mossoró, onde se graduou em Engenharia Agronômica no ano de 1976. Foi a partir da saída dos filhos da professora Maria Anália para continuarem os estudos que os filhos do patrão também seguiram o exemplo, como é o caso de FÁBIO SOARES LINS e CLAUDINA SOARES LINS, todos graduados, dentre outros que galgaram a academia tendo sido alfabetizados pela professora MARIA ANÁLIA.

Também a professora abrigava em sua residência filhos de parentes e amigos, que vinham para ser alfabetizados e estudarem até o 3º ano primário. Só para citar um exemplo, tem o senhor JOSÉ WANDILSON DE OLIVEIRA, sobrinho do seu JONAS, que dentre vários, passou por essa experiência com àquela mestre. Hoje o senhor JOSÉ WANDILSON é vereador no Município de Felipe Guerra/RN, já na terceira ou quarta legislatura.

Em 1980, para fazer companhia a filha caçula MARLICE, para que a mesma desse continuidade nos estudos iniciados naquela escola rural, a professora fixou residência na cidade de Apodi. Nessa época, o seu filho mais velho já se encontrava em Rondônia, para onde se mudou em 1977. A professora ainda prestou serviços em colégios da cidade de Apodí até conquistar a aposentadoria.

Maria Anália, por onde passou, sempre se firmou com a sua capacidade natural de ensinar e liderar. Não foi diferente na cidade de Apodí. Procurava participar de tudo, sempre ansiosa por aprender mais, apesar de já muito prendada. Não perdia cursos de bordado, para se aperfeiçoar no que já fazia há muitos anos. Fazia cursos de pintura. Já havia terminado o segundo grau e pretendia ingressar na faculdade.

Logo no primeiro ano de residência na cidade, com sua dedicada atuação na comunidade católica, assumiu a organização denominada Legião de Maria, e participava de vários eventos, inclusive no interior do Município, auxiliando as atividades da Paróquia de Apodí. Era a demonstração da liderança que sempre teve, onde quer que estivesse, inclusive na família. A última palavra na família era sempre a dela. 

Voltando a sua dedicação pela religião, teve um sonho não realizado. Pretendia que pelo menos um filho se ordenasse padre, o que não ocorreu. Esse desejo deve ter surgido na época em que morou na casa de uma família na cidade de Martins, quando foi concluir o primário. Um dos filhos desta família ordenara-se padre. Era o padre Militino, segundo ela.

Como guerreira, educadora, mãe exemplar e esposa que foi, quis o destino que saísse desse plano mais cedo, vindo a falecer precocemente no ano de 1984, com apenas 56 anos, sem ter conseguido o sonho de mudar com o restante da família para o Estado de Rondônia, logo após formasse a filha caçula. Foi servir a Deus, diretamente no Céu. Não teve tempo de curtir os nove netos que os seus quatro filhos casados lhe deram, uma descendência familiar muito menor do que a deixada pelos seus pais que tiveram vivos 16 filhos. Já tem dois bisnetos que somados aos netos ainda não alcança o número de filhos deixados por seus pais.

A escola que fundou em 1960, instalada inicialmente no sítio do patrão Mestre Abílio e, posteriormente, no sítio da família, aquele adquirido em 1966 do senhor JOÃO BENÍCIO, funcionava sempre na própria casa em que a professora e seus familiares moravam, cujo cômodo, durante o dia servia a escola, e a noite se acomodavam os filhos para dormirem. 

A professora que a substituiu na escola rural a partir de 1980, ainda se encontra ali lecionando. Foi aluna da alfabetização até o 3º ano primário da professora MARIA ANÁLIA. Concluiu o Ginásio na sede do Município, Apodí. Trata-se da professora RAIMUNDINHA, conhecida como Raimunda de Zé dos Toucos. Foi pelo esforço da professora MARIA ANÁLIA que a escola não fechou quando a mesma mudou para cidade. Brigou junto aos dirigentes políticos e conseguiu que a sua ex-aluna fosse contratada para que aquela comunidade continuasse se servindo daquela tradicional escola rural.

No ano de 2004, aquela escola foi descoberta pela imprensa. No dia do professor a rede globo mostrou em horário nobre, ou seja, no Jornal da Globo, no interior do Estado do Rio Grande do Norte, no Município de Apodí, a escola rural funcionando debaixo do alpendre da casa sede do sítio.

Em razão da matéria da Rede Globo de Televisão, o poder público resolveu por construir o primeiro prédio escolar para abrigar a referida escola que por 45 anos funcionou sempre na residência da professora, conforme foi demonstrado na reportagem.

Ali, até hoje, uma só professora, leciona da alfabetização ao 3º ano primário, o que não é pedagogicamente recomendável, mas este fato continua a ocorrer em várias localidades deste país. Apesar de pedagogicamente reprovado atualmente, foi dessa forma que a Professora MARIA ANÁLIA, com muita sabedoria e determinação lecionava da cartilha do ABC até o 3º primário para uma média de 35 a 45 alunos, todos ao mesmo tempo. Muitos dos seus alunos venceram estas carências e se graduaram e até Pós graduaram, como é o caso do autor deste texto.

Há ex-alunos daquela modesta escola, alfabetizados e instruídos até o 3º ano primário pela professora Maria Anália, que moram em longínquas regiões do país. Fazem questão, até hoje, de visitar a localidade da escola que lhe oportunizou sair do analfabetismo. Demonstram muito orgulho do aprendizado que aquilataram daquela professora leiga. 

Estes ex-alunos quando ali retornam se emocionam. Regam aquele solo com lágrimas. Agradecem a oportunidade que tiveram de servirem-se do saber transmitido por aquela magistral professora rural. Para citar apenas um, tem o senhor Pedro Virginio, que há anos migrou para as regiões sul e sudeste do país. Atualmente vive no Estado de São Paulo. Sempre que vem visitar os familiares no Rio Grande do Norte vai até a escola, visita a atual professora (RAIMUNDINHA) de quem foi colega na mesma escola; ele faz reflexão do seu passado; se diz feliz por viver bem, sentir-se cidadão, etc. Diz que rememora e repassa um filme da sua vida pretérita. É um dentre as dezenas que adquiriram a dignidade indispensável à pessoa humana; que não ficaram para engrossar as filas dos sem terra, sem teto e das bolsas esmolas; conseguiram migrar para a classe média, no fenômeno da mobilidade social anunciado no início deste texto.

São de brasileiros ou de brasileiras da estirpe da professora Maria Anália que temos de nos orgulhar e de registrar sua memória para posteridade num país que, apesar dos avanços, ainda teima em cultivar grandes desigualdades sociais. Por isso, além de ser seu filho, grato por ela e meu pai ter me oportunizado conquistar a verdadeira cidadania, dediquei algum tempo para buscar na memória e registrar essas lindas lembranças, homenageando minha mãe Maria Anália, e também, sem esquecer de exaltar a figura do grande Pai, o senhor Jonas Lopes, todos verdadeiramente família.

Porto Velho, 20 de julho de 2010.

2. Graduado em Engenharia Agronômica no ano de 1976 pela Escola Superior de Agricultura de Mossoró; Engenheiro Agrônomo do INCRA/RO desde abril de 1977. Bacharelado em Direito pela ULBRA de Porto Velho/RO em 2008. Advogado em 2009. Filho mais velho da Professora.

JOSÉ LOPES DE OLIVEIRA
Email: lopes.oliveira@pvo.incra.gov.br
Email particular: lopesoliveira12@yahoo.com

2 comentários:

Marcos pinto disse...

Relevante trabalho de cunho histórico e pedagógico de suma importância para os anais da HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO NO MUNICÍPIO DE APODI.

MARCUS VINÍCIUS LOPES DE OLIVEIRA disse...

Marcus Vinícius Lopes de Oliveira, 24 anos, formado em Sistemas de Informação, pós graduado em Gestão de Pessoas e Consultoria Empresarial, funcionário público federal aprovado em concurso publico na caixa economias federal, exerce hoje cargo de confianca na mesma empresa, filho de Julimar Lopes de Oliveira e neto de MARIA ANÁLIA e JONAS LOPES. A educação que ela sempre quis passar, meu pai me passou a importância. Todos os conceitos éticos e filosofia de trabalho com honestidade também foram repassados a mim por intermédio de meu pai Julimar Lopes de Oliveira e por quem me orgulho muito de ser filho. Pretendo tambem concluir o curso de administração ao qual estou na metade e galgar outros cargos de relevante importância. Fico feliz por ler tal relato de meu tio/padrinho José Lopes que tambem tenho imenso orgulho. Amo essa Família e me orgulho muito da história da mesma. Esperamos prosseguir dando orgulho e honrando o nome dessa família dentro da história. Grande abraço e que o Pai Celestial abençoe a todos nós.