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segunda-feira, 17 de junho de 2013

As visitações pastorais (III) - Por Marcos Pinto



Dentre os eventos ecumênicos, as visitações pastorais assumem papel de acentuada relevância e influência junto às populações sertanejas, consolidando o imprescindível processo interativo Igreja-povo. Emblemáticos, os padres visitadores realizavam um trabalho missionário denominado de "DESOBRIGA", que constituíam-se em verdadeiras cruzadas, e tinham um papel civilizador. 

Com essas visitações, os padres criavam vínculos espirituais, estabelecendo relações de compromisso entre a Igreja e comunidades, que, muitas vezes, estas não tinham em relação ao Estado, enquanto poder. O papel preponderante das visitações eram as "Desobrigas" (Hoje quase em desuso) que os missionários faziam em princípio de cada ano aos locais mais remotos do sertão, levando os sacramentos às populações que não dispunham de assistência religiosa regular, devido ao próprio isolamento em que viviam ou à ausência de padres na região. 

O nome "Desobriga refere-se ao antigo preceito da Igreja de que o católico é obrigado ao menos uma vez por ano, a confessar-se e comungar. Nas DESOBRIGAS, além de celebrar missa, o padre fazia confissões, batizados e casamentos em grande quantidade. Os padres missionários, quando chegavam às vilas, lugarejos distantes, para os trabalhos da DESOBRIGA, eram hospedados nas casas dos moradores, num quarto reservado especialmente para eles. Essas DESOBRIGAS/VISITAÇÕES eram objeto de minuciosos relatórios, descrevendo fatos que revelavam a intensidade com que essas experiências foram vividas. Representavam o encontro do universal com o provinciano. Ao mesmo tempo, são relatórios reveladores da maneira como as transforma (As desobrigas) em linguagem oral. Observa-se, nestes relatórios, uma forte presença de um descrever explicativo, cuja característica dominante é o inusitado, o surpreendente, o incomum da experiência vivenciada. O tropo linguístico que predominava nos relatórios era a metonímia, bastante distinta do narrar popular, em que um tom épico está constantemente presente, realçado pelo uso de metáforas e ironias.

Algumas vezes, observa-se nos ditos relatórios, que os PADRES VISITADORES de antigas marcas, criavam em seus relatos uma série de quadros representativos do passado como memória, estabelecendo uma proximidade com os Cronistas. Entretanto, embora se diferenciem dos narradores populares, os padres - como outra categoria de intelectuais - estudados revelam um exercício de reconstrução do passado recomposto. No entanto, essa forma de reconstrução da memória oral não significa que num mesmo relatório não venham a aparecer passagens em que predominem apenas juízo de valor ou avaliações generalizantes. 

As populações sertanejas atribuíam suma importância às VISITAÇÕES PASTORAIS. A prova desta assertiva está configurada na morte súbita da matriarca CLAUDINA PINTO, esposa do Coronel ANTONIO FERREIRA PINTO, ocorrida a 31 de agosto de 1902, aos 55 anos de idade. Ao receber em seu lar, a visita do 1º Bispo do RN Dom ADAUTO AURÉLIO DE MIRANDA HENRIQUES, foi acometida por forte emoção, que ocasionou um infarto fulminante. Os VISITADORES traziam consigo uma missão: Ensinar as camadas populares que os símbolos religiosos oferecem uma garantia cósmica não apenas para compreender o mundo, mas também para que, compreendendo-o, dessem precisão a seu sentimento, uma definição às suas emoções ou lhes permitir suportá-lo, soturna ou alegremente, implacável ou cavalheirescamente. Mas esses que apresentavam-se marcados de sabedorias eternas, souberam, também, colocarem-se no lugar de aprendizes e, como artesãos, moldando suas vidas, as lições extraídas na convivência com o povo. Vejamos a relação dos PADRES VISITADORES À PARÓQUIA DE APODI, segundo o celebrado historiador REINALDO DE LA PAZ, em sua famigerada obra intitulada "A DIOCESE DE MOSSORÓ":

* PADRE INÁCIO DE ARAÚJO GONDIM - Visitação à 01 de Outubro de 1768.
* PADRE DR. JOAQUIM MONTEIRO ROCHA - A 22 de Julho de 1778.
* PADRE DR. MANOEL VIEIRA LEMOS SAMPAIO - A 23 de Fevereiro de 1787. 
* PADRE DIONÍSIO DE SOUZA BANDEIRA - A 19 de Maio de 1795. 
* FREI JOSÉ MARIA DE JESUS - A 21 de Maio de 1795.
* PADRE JOSÉ FEIO DE BRITO TAVARES - A 03 de Fevereiro de 1801.
* PADRE ANTONIO JOSÉ ALVES CARVALHO - A 01 de Novembro de 1806. 
* PADRE INÁCIO PINTO DE ALMEIDA CASTRO - A 24 de Julho de 1809. 
* PADRE MANOEL DA COSTA PALMÉRIO - A 23 de Agosto de 1816.
* PADRE FRANCISCO DE BRITO GUERRA - A 09 de Março de 1838.
* DOM JOÃO DA PURIFICAÇÃO MARQUES PERDIGÃO(Bispo de Pernambuco)A 09 de Outubro de 1839.
* PADRE MANOEL JOSÉ FERNANDES - A 16 de Fevereiro de 1849 e a 15 de Outubro de 1855.
* PADRE FRANCISCO JUSTINO PEREIRA DE BRITO - A 06 de Outubro de 1859.
* PADRE PEDRO SOARES DE FREITAS - A 26 de Novembro de 1885.
DOM ADAUTO AURÉLIO DE MIRANDA HENRIQUES (1º Bispo do RN) - De 29 de agosto a 02 de setembro de 1902.

As viagens encetadas por estes PADRES VISITADORES constituíam-se em árduas caminhadas por precárias estradas, montados em cavalos, onde os ranchos para pousadas ficavam muito distantes um do outro, o que faziam com que passassem por privações de água e alimentação. Neste trabalho evangelizador, semeavam a fé cristã como o único caminho para a salvação eterna.

Por Marcos Pinto - historiador apodiense

Matéria copiada do: Blog Potyline

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