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terça-feira, 25 de junho de 2013

Apodi do meu tempo - Dá uma saudade (III) - Por Marcos Pinto

As nossas trajetórias existenciais são compostas por fatos e pessoas que, de uma forma predestinada, rabiscam as páginas do livro da vida, as quais vão ficando amarelecidas com o passar dos anos. Às vezes, a mão do destino põe à mostra uma certa ironia, esculpida em pinceladas decisivas, rascantes, argutamente postas, celebrando a vida no que ela tem de flores e lama, com todas as virtudes e vícios que páiram sobre as personalidades plurais. O certo é que a vida é uma reflexão sobre essa luta entre o tempo e a memória.

 A memória tentando recuperar o tempo e o tempo apagando coisas. Uma das coisas que mais agride o ser humano em sua trajetória indefinida é o rancor guardado, acumulado, a destilar veneno na alma de quem o cultiva. Todos nós fomos ou um dia seremos vítimas de injustiças, agressões descabidas. Diante deste cenário, quando me perguntam se já perdoei alguém que me machucou de forma injusta e extemporânea, respondo com uma célebre frase do grande intelectual potiguar ELOY DE SOUZA: "A NINGUÉM TIVE O PRAZER DE PERDOAR PORQUE O ESQUECIMENTO EVITOU O PERDÃO".

Vivemos a época do consumismo, do ter, do possuir - o conhecido materialismo dialético. Para alguns imbeciloides, não importa que, se para atingir seus objetivos, tenha que pisar sobre as cabeças dos próprios pais, para atingir o topo de suas incontidas e asquerosas aspirações. Diante toda essa agitação em busca do consumismo, o grande poeta pernambucano ANTONIO MARINHO cunhou a seguinte frase: "A MORTE É DEVORADORA E A TODOS NÓS AMEDRONTA. A VIDA É QUEM BATE O PREGO, E A MORTE É QUEM VIRA A PONTA". Não raro, nos deparamos com alguns sacripantas, reconhecidamente incompetentes, que procuram esconder suas deficiências intelectivas e profissionais, sob a carapuça do orgulho, do distanciamento do convívio social. 

Foi baseado neste contexto que o celebrado poeta paraibano Dr. APOLÔNIO CARDOSO cunhou uma frase que deixa estes sacripantas desnorteados, sem rumo e sem prumo: " DE TANTO VER OS BURROS MANDAR NOS HOMENS DE INTELIGÊNCIA, ÀS VEZES FICO A PENSAR QUE BURRICE É UMA CIÊNCIA". Divagações à parte, volto ao APODI DO MEU TEMPO, e novamente sou assediado por este nobre sentimento chamado saudade,  e só em relembrar me DÁ UMA SAUDADE...

... Dos antigos carnavais na A.C.D.A., sempre bem organizados e ordeiros, sob as batutas dos respeitáveis e respeitados Srs. JOSUÉ CÂMARA e JOÃO CUSTÓDIO. Foram noites memoráveis, em que não havia o menor desentendimento entre os carnavalescos, mesmo entre os mais exaltados no consumo de bebidas alcoólicas. Reinava uma paz e alegria contagiantes. Os casais ficavam sentados nas cadeiras das mesas que situavam-se nos lados do dancing. Os jovens se espelhavam nestes amáveis casais;

... Dos competentes coveiros Sêo TOMAZ TITO (Primo do meu avô Aristides Pinto) e NÔ DE CASSIMIRO VALENTIM, que cumpriam à risca o direito que o defunto tinha de lhes serem destinados os exatos sete palmos de "fundura" das covas. Hoje, até isso mudou, sendo certo que as covas só medem quatro palmos e meio de fundura. Corremos o risco de que vai se chegar o dia em que os cadáveres ficarão quase insepultos, à "flor da terra"; ...
Da notável e competente escrivã MARIA DE ABÍLIA, sempre tratando com zelo e rigorosa probidade os documentos oficiais que julgava ser de interesse para as futuras gerações. Sem alardes, era contumaz na divina prática da caridade. O seu Cartório era instalado em um prédio onde hoje se acha construída a casa do Sr. João Lucas; 
... Dos grandes porres e presepadas do Dr. Amilton, médico radicado em Apodi, fazendo piruetas em seu veículo de marca "Rural Wyllis". Casou em Apodi com Alaíde Silveira, filha adotiva do coronel Lucas Pinto;

 ... Dos concorridos banhos dominicais no "ZÉ PORRÊTA", à época era o melhor local para banhos e piqueniques dos jovens apodienses. O local foi "batizado" como sendo o Zé Porrêta - pelo Dr. Amilton, que tinha uma espécie de secretário particular na pessoa de um rapaz, filho de Sêo Diomédio Paiva, antigo marceneiro que residia na rua de Boré; 
 ...Dos quase intermináveis porres do cabeceiro ZÉ DE BORGES, em um dos quais "saboreou" uma gorda e suculenta lagartixa bobó, capturada quando ele se encontrava deitado, totalmente embriagado, na calçada da casa de meu avô Aristides - na parte traseira, que fica com a rua Margarida de Freitas. Ao abrir os olhos, Zé de Borges viu aproximar-se a lagartixa, no que ele ficou totalmente imóvel, para não espantá-la. Ao ver que já dava para pegá-la, deu um rápido e certeiro bote, imobilizando-a e ao mesmo tempo levando-a para a boca. Segurando-a pela parte da barriga, começou a comê-la com visível sabor, pela parte da cabeça, fazendo a seguinte observação, diante a repugnância dos que presenciavam a esquisita refeição: "É SÓ DO BOM! É MESMO QUE TÁ COMENDO UM PIAU GORDO!. Fui testemunha ocular desta inusitada e estranha comilança. O interessante mesmo é que esta refeição não causou nenhuma indigestão; 

 ... Do velho VÊOITO, admirável galampão em seus dois metros e cinco centímetros de altura, e seu extraordinário e conhecido apetite, tendo consumido de uma sentada só, um bodête pesando 12 quilos, comilança que teve origem em um desafio feito pelo meu avô Aristides, que havia contratado os serviços do VÊIOTO, a serem realizados em sua fazenda de nome "Quadra", situada vizinho ao sítio "João Pedro". Caso o VÊOITO não desse conta do recado, pagaria o dito bodete, mediante desconto no pagamento que lhe seria feito. Após "dar conta" do desafio, VÊOITO ainda consumiu uma rapadura daquelas grandes, preta, bebendo ainda dois litros cheios d' água. VÊOITO era filho bastardo de sêo Emídio Dias, pai de sêo Altino Dias; 

 ...Dos forrós no cabaré de Chico Silvino - o conhecido "Jeep Virado", durante os quais destacavam-se como exímias forrozeiras as "meninas" Maria Grande e Maria Galinha, que faziam a alegria dos rapazotes do meu tempo; 
 ...Dos programas de auditório denominado de "DOMINGO ALEGRE", realizados aos Domingos, no "Cine ODEON", em sua primeira sede, na rua João Pessoa, conhecida no meu tempo como "Rua da Cadeia"; cujos programas eram comandados por Zé Vandilson Diógenes. Em um desses programas ganhei um biotônico Fontoura (dos grandes) por ter cumprido uma tarefa, o que fez com que eu retornasse alegre, lépido e fagueiro pelo sucesso obtido;
... Das moças-velhas MANUELA PATARÁ e MARICOTA, que só andavam de mãos dadas e com os rostos cobertos com pó-de-arroz, lábios pintados com batom vermelho-vivo. Tinham um andar "amatutado". Residiam na rua de Boré;
... Das irmãs BARBOSINHAS - Albaniza, Mariinha e outra, cujo nome me foge à memória, nascidas e criadas no sítio "Água-Fria", as quais tinham uma casa quase vizinha à residência de meus avós paternos Sêo Aristides e dona Nicinha, na Rua São João Batista;

Somos um resumo dessa sucessão de mundos desaparecidos. De todos guardamos alguma coisa. Resquício. Traços e superstições. "Devemos escrever o que somos, de tal maneira, com tamanha autenticidade, que, se alguém cravar um punhal em uma frase por nós sonhada, sinta nos dedos a cor do nosso sangue".(PAULO BONFIM).

Por Marcos Pinto - historiador apodiense 
Matéria copiada do: Blog Potyline

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