Pesquisar neste blog

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Apodi do meu tempo - Dá uma saudade (II) - Por Marcos Pinto


Quando visito a minha amada e nunca esquecida terrinha onde nasci, sinto-me como um noivo que está prestes a casar, ansioso, curioso, olhando pra todos os lados, como se estivesse a procurar uma emoção ou um som, uma imagem que se perdeu na longitude dos dias que lá se foram, que transferi - aliás, transferiram - o meu pai, minha residência para Mossoró. Tanto é que procuro nas paralelas da minha retina da saudade as imagens, sons e lugares que estão amalgamados em mim como uma marca indelével, que nem mesmo as cinzas do tempo conseguirão turvar no espelho de minha alma. 

O filme da minha vida insiste, em consonância com as melodias do meu coração, em reprisar as páginas da saudade, com o eco de uma paixão tonitroante, com as multicores da emoção. Nessa contextualidade, vejo-me sentindo perenes saudades...
...Dos toscos postes de iluminação pública, de carnaubeira, aroeira ou pau branco, alguns linheiros e outros tortos, porém com a serventia que o tempo satisfez;
... Dos morros de rapas de madeiras das serrarias de Sêo Raimundo Cabral e de Sêo Chico Assís, pai de Eidim e de vovô, com os quais subíamos o morro, descendo como se fôssemos roladeiras em disparada, até chegarmos ao rés do chão, todos parecendo um estranho e pequenino monstro das matas;
... Dos preás do reino da casa de dona Terta, mãe de Dorinha;

....Dos disparates de ignorância do mudo DUDÉ, irmão de Antão Moreira, que residia em uma casa velha, bastante deteriorada, vizinho à casa de sêo Aurino Gurgel, ao lado da Igreja-Matriz;
....Das músicas transmitidas pelas amplificadoras do Cine-Odeon, interrompidas de vez em quando para que Sêo Altino Dias anunciasse mais um filme em tecnicolor, ou seja, cinema em cores, novidade muito grande no meu Apodi até os anos de 1971/1972;
.....Dos carões de Sêo Manoel Dantas, antigo sacristão, que detestava ver meninos jogando bola sobre a calçada do patamar da Igreja-Matriz, que enxotavam-nos de forma ruidosa e grotesca, mesmo que assistido de razão;
... De Sêo Chico Deodoro - tio de Mana Pinto, que enchia-me de medo ao levantar a calça comprida, na parte da perna direita, que mostrava amputada até a parte do joelho;

...Das presepadas de BURG DENTISTA, sempre portando consigo alguns instrumentos específicos para a extração de dentes, o que despertava intenso clima de terror entre a meninada acostumada a passar pelo gabinete dentário do mesmo;
...Dos mudos de Elísio Pinto, primos de Mana Pinto;
...Das subidas e descidas nos degraus que levavam até o alto do CORÊTO DO JARDIM;
...Dos meus amigos de infância Merson, Elano, Chico e Tarcísio de Chico Paulo, Eidinho e Vandinho de Sêo  Altino Dias, Jorge de dona Niná, Etinho de Lulu Curinga, Rerissom de San-Cler e outros.;

...Dos saborosos bolos, suspiros e doces feitos por dona Cotó e dona Maria José;
...Dos doidos MANOEL DE ZAQUIEL BELTRÃO (Ezequiel Beltrão) e ANTONIO MOURA;
...De sêo Ciço Preso, que se gabava comer de uma vez só duas rapaduras pretas, das grandes, misturadas 
com um quilo de farinha de mandioca;
...Dos banhos invernais nos barreiros de Sêo Ademar Caveja, pai de Fãico e Tetéia, ali naquele loca onde 
está localizada a madeireira São Francisco. Pasmem! no inverno dava até nado.
...Do sinal de que a iluminação pública seria interrompida (desligada) com um ligeiro "piscar", feito por sêo Raimundo da Luz , pai de Durreco, geralmente faltando 15 minutos para as dez horas da noite, o que desencadeava uma verdadeira correria das moças, que temiam as ordens dos pais, que as advertiam que era para estarem em casa antes que as luzes da iluminação pública fossem apagadas;

... Do mudo Paulo, da família dos CAETANO, que vivia sempre ali pela casa de Sêo Chico Paulo, onde almoçava e jantava, sendo certo que só andava com uma bolsa de palha de carnaúba a cobrir suas partes pudendas - testículos, dado o fato de ter sido acometido por uma doença que causa acúmulo de líquidos nos testículos, o que os torna volumosos, passíveis de chamar a atenção.
...Saudade de tudo e de todos....É uma coisa que corrói por dentro...retratos de felicidades. 
VIVAS À NÓS APODIENSES!

Por Marcos Pinto - historiador apodiense
Matéria copiada do: Blog Potyline

Nenhum comentário: