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segunda-feira, 6 de maio de 2013

Famílias apodienses afrodescendentes (II) - Por Marcos Pinto


  
Nunca será enfadonha a assertiva e a exortação de que a história do cativeiro negro em Apodi encontra-se restrita aos poeirentos e mofados inventários setecentistas e oitocentistas, e, ainda, em alguns livros de registro de matrículas de escravos existentes no arquivo morto do Fórum Judiciário. Perdeu-se nas incertezas das narrativas da tradição oral.

São raros os relatos de componentes de famílias afrodescendentes dando conta de maus tratos físicos em seus ascendentes. Para dar mais conotação histórica à indômita escrava SABINA, no livro de Registro de óbitos do ano de 1924, do 1º Cartório Judiciário de Apodi, consta o assento do falecimento da mesma,com dados fornecidos pelo seu filho Lúcio Agostinho da Silva, informando que a mesmo veio à óbito a uma hora do dia 18 de Março de 1924, devido a complicações cardíacas, cuja ex-escrava tinha o nome civil de SABINA CONSTÂNCIA BELTRÃO, com 72 anos de idade, presumíveis, filha natural de INOCÊNCIA CONSTÂNCIA BELTRÃO, deixando os filhos LÚCIO AGOSTINHO DA SILVA e LUIZ BELTRÃO, casado com Águida de Tal. 

Sabina teve ainda o filho GALDINO FERREIRA DA SILVA, que residia em Recife-PE, e que sentindo-se muito doente em consequência de letal tuberculose, retornou para Apodi, onde faleceu a 09 de Maio de 1911, aos 43 anos de idade, deixando a viúva e cinco filhos residindo em Recife. A prole de SABINA era composta, também, pelo Sr. VICENTE FERREIRA DA SILVA, popularmente conhecido como "Vicente Beltrão", que nasceu em Apodi a 16.09.1866, e foi batizado pelo Pe. Antonio Dias da Cunha na Igreja-Matriz de Apodi a 23.09.1866, tendo como padrinhos Belarmino, escravo do Capitão Francisco Ferreira Pinto (Tio-avô do 2º deste nome) e Catharina, escrava de Domingos Alves Ferreira Pinto. VICENTE BELTRÃO casou a 01 de Março de 1907 com Joaquina Maria da Conceição, nascida a 15.04.1871, filha natural de GERMANA, escrava de Francisco Ferreira Lima. Vicente e Joaquina foram pais de Ezequiel Beltrão, que por sua vez foi pai de " Manoel de Zaquiel", que ainda é vivo e sofre das faculdades mentais, perambulando pelas ruas da cidade. Como se vê, casamento entre ex-escravos e filhos de escravos, o que evidencia um processo de identidade e formação de casta social.

Escravos eram comercializados em Pernambuco e 
trazidos para terras Potiguares  

Os livros que abordam o processo de compra e venda de escravos no RN informam que o abastecimento tinha a procedência de dois centros: Pernambuco e Maranhão. De Pernambuco eram enviados para a região açucareira potiguar, sobretudo a partir do ano de 1845, quando a indústria açucareira foi ativada. O número de cativos em Apodi não era muito expressivo, posto que a região desenvolveu-se com a criação extensiva do gado, o cultivo das vazantes, e o comércio com a praça comercial de Aracati-CE, para onde eram transportados o algodão, couros bovinos e caprinos, e a cêra de carnaúba. São poucas as informações censitárias que poderiam servir para a análise da população escrava ou mesmo a posse de cativos.

Por constituir vasto domínio da extensão rural, as famílias PINTO, MORAIS e MARINHO tinham o maior número de cativos. Os escravos vinculados à família PINTO eram distribuídos nas suas fazendas situadas na margem da lagoa, ou seja, nas fazendas "Barra", "Ponta", "Largo", "Estreito" e "Córrego". Assim é que as famílias BELARMINO, VALENTIM, CRISTINO (Família Ceará) "CIPRIANO" e "BASÍLIO" tem origem em escravos vinculados à família, num acentuado processo de afeição e consideração recíprocos que perdura até os dias atuais.

Na fazenda "Largo" tem origem a família conhecida como sendo " FAMÍLIA DOS CEARÁ", cujos documentos oficiais revelam que da escrava JOANA FRANKLINA DE OLIVEIRA,nascida em 1851, pertencente ao espólio do Capitão Sebastião Celino de Oliveira Pinto (Pai de Claudina Pinto e do Coronel João Jázimo Pinto) nasceu em 1879 o ANTONIO CRISTINO DE OLIVEIRA, vulgo Antonio Ceará, que por sua vez é pai de DECA CEARÁ. Dado a desenvoltura do Antonio Ceará no trato com a terra e a gadaria, logo conquistou a simpatia do Coronel João Jázimo, que o colocou como administrador e vaqueiro de suas fazendas.

DECA CEARÁ casou com a gentil senhorita Francisca Valentim de Oliveira, filha de Pedro Valentim de Oliveira, ex-escravo, nascido no ano de 1860, e de Maria Alexandrina da Conceição. PEDRO VALENTIM era filho natural da escrava HERCULANA JANUÁRIA DO ESPÍRITO SANTO, nascida em 1846, que por sua vez era filha da escrava THEREZA MARIA DO E. SANTO, pertencente ao casal Antonio da Costa Monteiro e Ana Quitéria do E. Santo.

Da escrava HERCULANA tem origem a FAMÍLIA DOS VALENTIM, pelo relacionamento amoroso da mesma com o abastado comerciante JOSÉ VALENTIM DE OLIVEIRA. Herculana faleceu no sítio "Mirador" a 05 de Agosto de 1906, aos 60 anos de idade, deixando os filhos: PEDRO VALENTIM DE OLIVEIRA (Nascido em 1860); CLEMENTINA MARIA DA CONCEIÇÃO (Nasceu em 1878); MANOEL VALENTIM DE OLIVEIRA (Nascido em 1879); MARIA MARCELINA DA CONCEIÇÃO (Nasceu em 1881) e JOSÉ VALENTIM DE OLIVEIRA (Nasceu em 1880. Repete o nome do pai).

FONTE: Livro de Óbitos do 1º Cartório - 1906-1011 - fls. 15/v. Um filho de Pedro Valentim de Oliveira, de nome CASSIMIRO VALENTIM DE OLIVEIRA (Pai de Ló, Lucas, Boioiô, Sebastiana de João de Toinho, Maria de Tomaz Tito e outros) mantinha estreita relação de amizade com o meu avô Aristides Pinto, de quem foi administrador e vaqueiro das fazendas "Quadra", "Pequé" e "Canto de Varas".

Por Marcos Pinto - Historiador apodiense
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